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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sobre escolhas e o Acaso da Felicidade

Ao som de João Gilberto

Ontem foi dia de eleições. Dia de escolher o caminho para algo que esperamos ser melhor. Geralmente, temos que a felicidade está na escolha, em controlarmos aquilo que virá. Mas, será?

Fiquei pensando, então, na felicidade que habita o acaso e como o imprevisível guarda em si uma sinceridade tão bela, porque descompromissada. Não foi analisada, escolhida, destrinchada... apenas foi. E lembrei de um conto de Caio Fernando Abreu, Mel & Girassóis, que fala de um cara e uma mulher tão diferentes, mas tão iguais, num encontro tão casual, e que não poderia ter sido melhor se planejado.

No texto de Caio, eles, "como naquele conto de Cortázar  ―  encontraram-se no sétimo ou oitavo dia de bronzeado. Sétimo ou oitavo porque era mágico e justo encontrarem-se". Tudo tão ao acaso que não fazia sentido deliberarem o próximo encontro. Bastou um "- Desculpe. - Não foi nada". E seguiram como se nada tivesse acontecido.

Mas, um outro encontro. Eles não mais anônimos, um "- Tudo bem? - Jóia". Depois outro encontro. E os diálogos crescendo. "Conversaram, no oitavo ou nono dia." Naquela fase de busca de interesses iguais, após muitas citações, "empatados, encontraram-se em João Gilberto, que ouviam sozinhos em seus pequenos mas bem decorados apartamentos urbanos [...] Meio idiotas, mas tão felizes, ficaram cantando O Pato..."

E seguiram como se quisessem muito, e ao mesmo tempo tão despretensiosos como quem espera nada. E tudo mais intenso, mesmo aparentemente sem sentido pelo envolvimento com alguém tão recente, e tão acaso. "Ela achava um pouco forte estar-se exibindo assim com um homem afinal desconhecido [...], mas encostava mais e mais a bacia na bacia dele ― a pelve, a pelve".

Tempo passando, como se aquilo fosse morrer tão de repente quanto nasceu. "Último dia, não havia mais tempo. Manhã seguinte, acabou: the end - sem happy? - Eu não vou me esquecer de você. Ela disse: - Nem eu [...]. Ele afastou-a um pouco, para vê-la melhor. Ela sacudiu os cabelos, olhou bem nos olhos dele [...] Estenderam as mãos um para o outro. No gesto exato de quem vai colher um fruto completamente maduro".

E assim fizeram o que parecia efêmero, eterno, pedindo desculpas ao "acaso por chamá-lo necessidade", como naquela poeta húngara do Nobel.

E ficaram, então, com essa felicidade que nos alcança de surpresa.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Perereca Que Pisca, a deputada e George Orwell


Recentemente, a deputada Luiza Maia manifestou toda a sua insatisfação com a Perereca Que Pisca, como escrevi neste post. Agora, voltou suas atenções para a imprensa. Enquanto isso, o vocalista da banda Black Style, o da perereca, anunciava que escreverá um livro baseado no clássico 1984, de George Orwell. E, eis que, mais uma vez, os caminhos dos dois se cruzam.

A deputada, agora, quer regular a imprensa. Segundo ela, a “grande mídia virou partido político”, "é muita denúncia falsa, muita esculhambação que tem aí”, e se faz necessário um “controle do conteúdo dos programas de TV”. Enfim, é o papo de sempre. Como bem disse Millôr Fernandes: democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim. Assim funciona o raciocínio da deputada. Eu não acho que existe o grupo dos puros de coração, e o dos malvados que querem nos levar para o lado negro da força. Basta ler o texto anterior para ver que creio que todos têm, como disse Roberto Carlos, o bem e o mal que existem. E, cabe a você, escolher. Afinal, é preciso saber viver. Mas, para a deputada, imprensa boa é a que denuncia os inimigos. A que denuncia os amigos é golpista. Se a Veja denunciar um aliado, é golpe. Se a Carta Capital denunciar um inimigo, é resistência. Pra mim, canalha é canalha, independente se veste azul ou vermelho, se usa broche com estrela ou plumas de tucano. E, quando leio sobre controle de conteúdo, logo penso: quem decidirá o que é bom ou ruim? Por que alguém terá a capacidade de escolher o que será a minha verdade?

Robyssão (meu deus), do Black Style, me surpreende. Não sei como alguém pode ter talentos tão distintos. Depois de Bate Com a Bunda, Esfrega a Xana No Asfalto, Amassa a Latinha Com a Bunda e Chuva De Perereca, vai partir para literatura filosófica. Versatilidade é isso. No livro 1984, Orwell narra a história de uma sociedade dominada por uma ultra ditadura totalitária. E, o símbolo da repressão é o controle das informações. As pessoas só sabem aquilo que o partido julga ser A Verdade. Na primeira edição inglesa de "A Revolução dos Bichos", Orwell escreveu um prefácio intitulado " A liberdade de imprensa". Lá ele comenta a liberdade de um lado só. Uma editora, por exemplo, rejeitou o livro porque achou que não criticava ditaduras e, sim, a ditadura soviética. Ou seja, existe a ditadura do mal, que deve ser combatida, e a do bem, que apenas quer nos guiar rumo à salvação. Qualquer semelhança com o pensamento da deputada...

Robyssão e a deputada voltaram a se encontrar, desta vez em Orwell. Pelo histórico de poesias, não acho que o rapaz seja capaz de produzir algo interessante, mas isso não me faz pensar em censurar o direito que tem de cometer esse livro. De certa forma, admiro o fato dele citar e ter como referência uma grande obra. Sinal de que, talvez, tenha salvação. Já a deputada escolheu Orwell pelo outro lado, o lado da caricatura do autoritarismo. Ela decidiu ir de volta para o futuro de 1984.

Que coisa... entre a Perereca Que Pisca e a deputada, mais uma vez, fiquei do lado da perereca.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Serge Gainsbourg partido ao meio e o mal que habita em nós

Coitado tem andado a delirar
Ele quer tantas fêmeas a conquistar
Fica sempre circulando
Pois muitas delas quer ofuscar
Para todas poderem em fim desapontar

Sabe muito bem como é ruim
Ser dia e noite um estopim
Que assim aceso vai buscar o próprio fim
Para uma vez morto viver com James Dean

Nas vezes que ele quer me confundir
Sorri e pede licença para sair
Parece que finalmente vai sumir
Mas é quando eu mais devo me prevenir
Desse mal que habita em mim

(Marcelo Nova - Camisa de Vênus)



O filme "Serge Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres" é anunciado como uma cinebiografia do famoso e polêmico cantor e compositor francês. Pensei, então, que seria uma narrativa linear e realista do cara que feio e esquisito que conquistou, apenas, Brigitte Bardot e Jane Birkin (praticamente um Sarkozy underground). Mas, o filme não segue a biografia crua e, sim, recria a vida de Gainsbourg por uma ótica bem psicológica. Em todo o filme, um personagem-caricatura de Gainsbourg, faz as vezes do demônio pessoal que tenta levá-lo para o lado negro da força. É mal que habita nele corrompendo-o rumo à destruição.

No livro "O Visconde Partido ao Meio", o italiano Ítalo Calvino cria uma fábula leve e quase infantil (no estilo) que mostra esse eterno conflito entre as dicotomias nossas de cada dia. Nela, o visconde Medardo di Terralba é atingido por uma bala de canhão e tem seu corpo dividido exatamente ao meio. Então, cada parte sobrevive independente, mas conserva sentimentos opostos. Enquanto uma levava toda a parte boa do visconde, a outra só conservou seu lado ruim. Mas, nenhuma das partes conseguiu ser feliz sendo apenas bondade e apenas maldade. No fim, as partes são costuradas e voltam a ser uma: "Assim, meu tio Medardo voltou a ser um homem inteiro, nem bom nem mau, uma mistura de maldade e bondade ".

Como disse o próprio Calvino, o homem é um ser “mutilado, incompleto, inimigo de si mesmo”. E, ser um homem inteiro, é conservar dentro de si mesmo esse duelo entre os opostos, tentando equilibrar-se na linha média que não nos deixa ser pender para um extremo.

Numa cena marcante do filme, Gainsbourg deixa de ser ele, e passa a ser o próprio demônio caricato que havia nele. Portanto, deu-se a derrota do lado bom, restando-lhe apenas aquilo que o destruía.

Serge Gainsbourg venceu o mundo, mas perdeu o duelo contra si mesmo...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa e a Coca-Cola em Portugal

Num remoto 13 junho, há 123 anos, nascia Fernando Pessoa, um dos gigantes da língua portuguesa. Alguns chegam a compará-lo a Camões, mas isso é outro assunto. Pessoa sempre rejeitou a vida acadêmica, negando até a cátedra de literatura inglesa em Coimbra. Preferiu seguir como funcionário de uma multinacional, traduzindo cartas comerciais. Um dia, por volta de 1927, a empresa em que trabalhava decidiu importar Coca-Cola. Nos EUA, o slogan era “a pausa que refresca”. A empresa pediu à Pessoa que traduzisse o slogan, mas ele, que via o cotidiano de uma maneira muito particular, resolveu criar um novo slogan, e cravou: “primeiro estranha-se; depois entranha-se”. Realmente, como poesia, não há o que se discutir. O jogo de palavras, a sensação de quem experimenta pela primeira vez confrontada com a maneira que o sabor se propaga. Só que, à epoca, Portugal vivia a ditadura de Antônio Salazar. O pessoal da censura achou meio esquisito esse papo de entranha-se numa bebida que tinha coca. Era uma conversa psicodélica demais. Resultado: proibiram a bebida. A Coca-Cola, graças a Fernando Pessoa, só entrou em Portugal 50 anos depois, em 1977, 9 anos após a morte do poeta e 3 anos após o fim do regime. Acho que os executivos da Coca-Cola não devem gostar muito de Pessoa. Afinal, divagar não é preciso, vender é preciso...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Crônica de uma sorte embriagada

"No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo".

Assim começa o livro "Crônica de uma morte anunciada", de Gabriel Garcia Márquez. Logo de cara, já sabemos que Santiago Nasar vai morrer. Resta saber como isso vai acontecer. E, aí, temos a história. De início, as coisas vão acontecendo sem fazer tanto sentido, nos perdemos pela falta de familiaridade com os lugares, as pessoas. Mas, aos poucos acontecem os encontros, os desencontros, as coisas vão se encaixando, fazendo sentido, até chegarmos à cena final da morte.

Em "Se beber, não case 2", temos algo parecido. Desde sempre já sabemos o início e o fim, só nos resta entender como os extremos se conectam. Mas, à diferença do primeiro filme, a graça não está na surpresa, mas na repetição. A sequência de fatos é a mesma: acordar sem lembrar de nada, achar um animal, uma pessoa desconhecida, perder um amigo, e sair juntando os cacos pra tentar montar o quebra-cabeças.

No primeiro filme, a comédia está na surpresa, na sucessão de fatos inusitados, mais do que em diálogos ou ações isoladas. Neste segundo filme, como já conhecemos o enredo, restou ao realizadores a ênfase no humor pontual. E aí se destacam a presença de um macaco politicamente incorreto e de situações de cunho sexual que, com certeza, vão gerar polêmica. A dose pode ter sido exagerada, mas a fórmula é clássica, tanto que foi analisada por dois grandes pensadores: Bergson e Freud.

Henri Bergson, no seu "O Riso", teoriza a fundo o Risível, como é chamado o humor na filosofia estética da arte. Bergson diz que não existe Risível fora do campo humano: "Não há cômico fora daquilo que é propriamente humano. Uma paisagem poderá ser bela ou feia: não será, nunca, risível. Nós poderemos rir de um animal, mas porque se terá surpreendido nele uma atitude de homem ou uma expressão humana". Acho que, pelo texto, Bergson acharia graça de um macaquinho com uma jaqueta jeans dos Rolling Stones bebendo, fumando e cheirando...

Já Freud... bem, aquela coisa de sempre. Na juvetude seus textos eram de uma profusão hormonal... depois de velho ele até reviu alguns. Deve ter sido o efeito da andropausa. Mas, voltemos ao assunto. Quando jovem, Freud dedicou-se um pouco ao Risível. E, qual foi sua tese? Lá vai: "nós rimos quando um complexo sexual reprimido se exprime simbolicamente num momento de distração ou num termo equívoco, e quando nos apercebemos bruscamente da significação sexual profunda sobre a forma simbólica". Resumindo: piadas de duplo sentido, ou de um sentido só mesmo. Freud, certamente, gostaria da cena em que o macaco simula fazer.... Bem, deixa pra lá. Quem vir o filme saberá.

Assim como o livro de Garcia Márquez, o filme se valida pelo miolo. Afinal, todos já sabemos o início e o fim. Resta, apenas, degustar o miolo.

"Depois, [Santiago] entrou na casa pela porta dos fundos, que estava aberta desde as seis horas, e desabou de bruços na cozinha". Fim.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A guerra dos 30 anos


O texto de hoje seria sobre Lady Gaga, mas um rápido diálogo me fez mudar de idéia (não consigo aderir à reforma ortográfica...). Depois de um dia trabalhando no texto, algo não programado mudou a rota das coisas. E, este acaso, teve como mote, justamente, o acaso. Na conversa, considerei que, às vezes, o acaso se mostra mais eficiente que o deliberado. Por causa disso, lembrei de dois livros.

No livro "O Deserto dos Tártaros", de Dino Buzzati, Giovanni Drogo é um cara que sonhava desde sempre em ser um militar condecorado por um feito heróico. Entrou para o exército e foi enviado para o forte que guardava o Deserto dos Tártaros. O seu destino, tão planejado, parecia caminhar a passos largos. Afinal, quando os inimigos tártaros cruzassem o deserto e iniciassem a guerra, a tropa que os derrotasse alcançaria a glória nacional. Durante 30 anos, Drogo espera o que parece certo: a guerra. Mas o destino falhou, e Drogo perdeu-se nas suas certezas e "entendeu que transcorrera uma geração inteira, [...] que ele já ultrapassar o cume da vida para o lado dos velhos [...] sem ter feito nada de bom. Um nó apertava o coração de Drogo: adeus, sonhos de um tempo distante, adeus...".

O livro "Travessuras da menina má", de Mario Vargas Llosa, tem início na Lima dos anos 50. Por sinal, acho Lima uma cidade feia, mas, imaginem, tem gente que gosta! O jovem Ricardo Somocurcio conhece a complicada e nem tão perfeitinha Lily e se apaixona. Tudo corre como mais uma daquelas paixões juvenis que duram a eterniadde de um verão. Já nos anos 60, Ricardo segue a vida como havia planejado, como tradutor da UNESCO em Paris. Assim como na vida de Drogo, o destino parece caminhar a passos largos. Mas, eis que vem o acaso, e Ricardo reencontra Lily de uma maneira incrível. E, assim, eles seguem por 30 anos. Os poucos encontros ao acaso interferem de tal maneira na vida de Ricardo, que são suficientes para alterar tudo que ele havia planejado.

Ao longo de 30 anos, Ricardo viveu guiado pelas incertezas que aconteceram. Ao longo de 30 anos, Drogo viveu guiado pelas certezas que não aconteceram. E, no final, ambos tiveram alegrias e frustações. Pois, Sartre de novo, "você não é senão a sua vida".

segunda-feira, 16 de maio de 2011

E se?! Os Agentes do Destino, Sartre, e os limites do acaso


Acredito que, com frequência, todos pensam: "e se... ?", e seguem-se variações as mais diversas. E se eu tivesse ligado pra ela? E se eu tivesse escolhido outra profissão? E se eu tivesse chegado 5 minutos mais cedo? Mas, até que ponto escolhemos nosso caminho? Está tudo definido pelo destino, ou seguimos ao acaso?

No filme "Os Agentes do Destino", David Norris (Matt Damon) é um jovem candidato a senador dos EUA. Na noite em que perde as eleições, antes do discurso da derrota, conhece Elise (Emily Bunt) num lance do acaso. Influenciado pelo encontro fortuito, David fala de improviso, ignora o que estava escrito, e é ovacionado por todos. Tempo depois, mais uma vez ao acaso, encontra Elise. Mas, a partir daí, tudo muda. David é surpreendido pelos agentes do Destino, que atuam para pôr em prática o plano traçado pelo "Presidente". David fica sabendo que o tudo já está planejado, e cabe a estes agentes fazer com que a rota da vida não seja desviada. O "Presidente" até permite que tenhamos pequenos acasos cotidianos e um livre-arbítrio inofensivo, como escolher o almoço, por exemplo. Mas, no geral, vivemos todos num Show de Truman. Os agentes do Destino dizem a David para se afastar de Elise, porque isso atrapalharia o plano de vida dos dois. Contam que o primeiro encontro estava escrito, mas o segundo foi um descuido de um agente. E revelam que ambos teriam grande sucesso profissional se separados. Mas, caso se juntassem... David, claro, não aceita, e decide lutar a todo custo para fazer o próprio destino, tendo como motivação o amor.

No livro "Os Dados estão Lançados", Sartre aborda a mesma questão. Pierre e Eve nunca se viram em vida, mas se encontram no "além" após morrerem. Atraídos, lamentam não terem se conhecido quando vivos. Também nessa história, a vida é planejada e controlada por burocratas. Uma funcionária do destino descobre que houve um erro, pois Pierre e Eve deveriam se conhecer em vida. E, pela lei nº 140 do Destino, nos casos de amores não realizados, pode o Diretor autorizar a volta dos mortos para reparar o engano. Então, Pierre e Eve voltam, tendo que, em 24 horas, provar ser verdadeiro o amor. Pierre é um revolucionário que quer derrubar um governo. Eve é a esposa do Secretário de Milícia. Confrontados em vida com realidades tão distintas, surge o mesmo dilema do filme: seguir vidas paralelas rumo ao êxito individual já planejado, ou construir um caminho novo com base no amor?

No filme, David tem que escolher entre o amor e o sucesso político, naquele clima clichê americano. No livro, Pierre tem que escolher entre o amor e aquela besteirada de luta de classes, naquele clima clichê revolucionário-gagá (que bem poderia ter morrido junto com Stálin). Em ambos, o Homem se liberta do Destino, refaz sua história, e segue o caminho das suas convicções. Ele cria o seu propósito de vida, e a partir dele constrói a si mesmo.

Eu acho que, na vida real, não vai aparecer um buroocrata do destino revelando nosso plano de vida. Na verdade, nem mesmo acredito em destino. Prefiro a versão de vida do genial Richard Dawkins. Numa entrevista incrível, na FLIP 2009, disse ele, impactante:

"Indivíduos criam os próprios propósitos de vida. E crer que esta é a única chance que teremos nos faz valorizar mais a vida. É só calcular a probabilidade que tínhamos para nascer. Nossos pais precisaram se conhecer[...], o mesmo processo ocorreu com os nossos avós, bisavós, seguindo essa peregrinação até a origem da vida. Nós existimos por um fantástico acaso. Não desperdicem a vida. Não haverá outra!".

Portanto, cabe a nós ordenar o caos, tirar o que desejamos do acaso, e colocá-lo no cotidiano. Como disse Sartre em outro texto: "O homem está condenado a ser livre"...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Massacre no Rio, Dostoiévski, e a criação de Deus


Um jovem cria uma realidade distorcida em sua cabeça, dividindo o mundo entre as pessoas ordinárias e as extraordinárias, que "buscam de várias maneiras a destruição do presente em nome de algo melhor". E, "se uma pessoa como essa é obrigada, no interesse de sua idéia, passar por cima de um cadáver ou chapinhar no sangue, ela pode encontrar dentro de si mesma, em sua consciência, uma sanção" para isso. Esse jovem passa, então, a acreditar que faz parte desse grupo excepcional. Isolado do mundo, vivenciando essa realidade paralela, fica obcecado pelas próprias idéias, e alimenta um desejo de provar a si mesmo que pode fazer algo grande. Depois de muito pensar, atormentado e delirante, preso nas suas angústias e frustrações, decide matar. De maneira cruel, bárbara, mata pessoas que nem mesmo têm a oportunidade de se defender ou de entender o que se passa. E o que para todos é a revelação do lado mais perservo e sombrio do ser-humano, para ele torna-se um ato de auto-sacrifício religioso.

Essa história não se passa no Rio de Janeiro. Acontece numa São Petersburgo sombria, no fim do século XIX. Essa é a história de Ródion Románovich Raskólnikov, protagonista do famoso romance Crime e Castigo, de Dostoiévski.

Dostoiévski via Deus como uma justificativa para o Bem. Construiu suas grandes obras retratando a angústia humana, a busca incansável pelo sentido da vida. Cristão fervoroso, acabava amarrando esse sentido da vida à existência divina. Como disse em Os Irmãos Karamázov, "a questão principal que será perseguida em todas as partes desse livro é a mesma de que padeço, consciente ou inconscientemente, a minha vida inteira: a existência de Deus". E esse Deus construído pelo escritor russo é o norte moral da humanidade, o guia para um mundo melhor, mais humano. Numa das passagens mais famosas d'Os irmãos Karamázov, o religioso Aliócha pondera que se "não existe imortalidade da alma, então não existe a virtude, logo, tudo é permitido". Raskolnikóv, de Crime e Castigo, só foi capaz de tamanha barbaridade porque não enxergou além da condição humana terrestre.

No Rio, um desequilibrado viu em Deus a justificativa para o Mal. E, nessas horas, sempre fico um pouco incomodado. Afinal, sendo Deus onipotente, onipresente e onisciente, por que deixou que alguém usasse Seu nome para cometer tamanha barbaridade? Que não se importe que cometam crimes em nome do diabo, vá lá, mas saber que Seu nome será atrelado à morte de uma dúzia de crianças e, simplesmente, não fazer nada? O assassino só foi capaz de cometer tamanha brutalidade porque desconsiderou a condição humana terrestre.

Ferreira Gullar costuma dizer que "o homem inventou Deus para que Deus o criasse". E, assim, cada deus inventado por cada homem guia a humanidade como um personal trainer preocupado apenas com seu pupilo. O deus de Dostoiévski o confortou quando seu pequeno filho de três anos faleceu, e o fez transformar suas dores em arte. O deus do assasino do Rio o atormentou, e o compeliu a transformar suas dores em morte.

Uma barbaridade desse tipo aconteceu na cidade que dizem ser abençoada por Ele, onde a imagem do seu filho abre os braços para cuidar de todos. Pelo visto, o verdadeiro Deus não está nem aí para os homens, e nem mesmo se importa que usem seu nome em vão. E, se Ele não se importa com a transgressão do primeiro mandamento, não deve perder tempo fiscalizando os restantes...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Woody Allen, Machado de Assis e a angústia de Shakespeare

No filme "Você vai conhecer o homem de seus sonhos" o diretor Woody Allen explora o desejo nas mais diversas formas. O setentão que deseja ser jovem, a mulher que deseja ser galerista, o escritor que deseja o sucesso literário tanto quanto deseja a linda vizinha que só usa vermelho...

No início do filme, o narrador cita Macbeth, de Shakespeare, dizendo: "A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada". E se a vida é essa loucura niilista, qual o limite moral que nos separa desses desejos?


No centro da história, um casal vive o conflito pela frustração profissional. Ela a tal que deseja ser galerista, e por isso se deixa levar pelo papo do chefe bem sucedido na área. Ele o tal escritor que corteja a vizinha, bela e filha de um importante crítico literário. Entre o pragmatismo amoral dos dois, a mãe dela abstrai as dores da separação através dos conselhos da vidente. Enquanto todos vivenciam a angústia das incertezas, ela cultiva a felicidade da fé cega.

No conto "A Cartomante", Machado de Assis também cita Shakespeare logo de cara: "Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia". Também como no filme de Woody Allen, há a relação extra-conjugal e a mulher que acredita piamente no que diz a cartomante. Só que essa felicidade baseada no irracional conduz o casal à morte.

A felicidade é a realização dos desejos, e os caminhos para isso podem ser os mais diversos. Como disse Pascal: "Todos procuram ser felizes; isso não tem exceção. É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive os que vão se enforcar".

Crer ou não crer, eis a questão...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Nothing to kill or die for


Ontem, 08 de dezembro, fez 30 anos da morte de John Lennon. Pra mim, Lennon sempre foi uma figura não muito definida. Nunca consegui vê-lo como um ex-Beatle. A figura que tenho dele é tão ligada àquela época cabelos e barba longos que custo a relacioná-lo à fase iê-iê-iê. Talvez por isso, quando penso em Beatles, penso em Paul. E por causa da influência de Yoko Ono, sempre considerei que poderia existir um limite entre a bondade de criar um mundo melhor de um jeito Gandhi pós-moderno, e a verve de artista performática de Yoko. Enfim, certo é que o que mais me marcou na história de Lennon foi a loucura de seu assassino Mark Chapman.
Chapman, um autêntico loser americano, era muito fã dos Beatles. Até aí, nenhuma novidade para um grupo que vendeu 1,5 bilhões de discos. Só que ele viu numa passagem de "O apanhador no campo de centeio", de J. D. Salinger, uma mensagem que dizia que ele teria que matar John Lennon. Eu não li o livro, mas garanto que não tem esse trecho lá!
Enfim, Chapman passou alguns dias na porta do prédio de Lennon. Levou o livro, um disco, e o revólver. Enquanto esperava sua vítima, leu trechos de "O apanhador..." como um fanático que lê os textos sagrados. Numa noite, parou John e pediu um autógrafo, prontamente atendido de maneira simples e cordial, como é possível ver na foto acima. John saía para ir ao estúdio e jantar com amigos.
Ao voltar, levou 5 tiros de Chapman.
O sonho acabou...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Os porquinhos e a piada infeliz

Em discurso recente, Dilma Rousseff seguiu o script do atual presidente: falou de improviso, chorou, sorriu e fez uma piada de maneira bem informal sobre os coordenadores de sua campanha, José Eduardo Cardozo, Antonio Palocci e José Eduardo Dutra. Apelidados pela imprensa de "os 3 porquinhos", foram assim assumidos pela presidente eleita. Todos riram e acharam graça, claro... Posteriormente, alguns se deram conta de que o apelido não gerava metáforas tão simpáticas e inocentes. Afinal, um porquinho era preguiçoso, outro era incompetente, e só um trabalhava bem. Mas, até, menos mal. O problema é se os porquinhos não forem os da fábula infantil, mas sim os porquinhos de George Orwell, descritos na "Revolução dos Bichos".
O porco Major sonha com o dia em que os animais se libertarão da dominação humana. Empolgados, dois outros porcos, Napoleão e Bola-de-Neve, organizam a revolução que expulsa o dono da fazenda e dá o poder aos bichos. Tudo isso, claro, prometendo um novo mundo muito melhor, mais justo, mais próspero, mais feliz... Mas, ao assumirem o poder, os porcos começam a seguir um caminho, digamos, não tão bem intencionado. Decretam que "todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que os outros", impõem restrições as mais diversas, e se apropriam de bens que deveriam ser públicos em benefício próprio.
Pois é... acho que a piada não foi tão engraçada.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O homem que sabia esperanto

Tramitam no Congresso mais de 250 projetos para mudar o currículo escolar. Isso significa que se todos forem aprovados, umas 200 disciplinas se tornarão obrigatórias! Obviamente, isso é impossível... Mas não somente isso é, digamos, curioso. Além de matérias importantíssimas como cultura cigana, há uma proposta do senador Cristovam Buarque (de novo ele!) para incluir o ensino de esperanto no ensino médio. O esperanto é aquela língua criada para ser a língua universal, uma voz unificada que permitiria a todos se comunicar sem fronteiras. Pois é... se comunicar sem fronteiras é um bom mote para operadora de telefonia, mas para a vida real não pegou. Eu, um ignorante sem visão, acho melhor as crianças estudarem português e matemática, mas enfim...
No ótimo conto "O homem que sabia javanês", Lima Barreto ironiza a valorização da cultura inútil. Castelo, um malandro desempregado, resolve se passar por professor de javanês após ver um anúncio no jornal. Como ninguém sabe falar javanês, não seria desmascarado, pensou Castelo. Aprende umas 4 palavras, identifica um par de hieróglifos, e segue na cara-de-pau. Começa dando aula particular para um velho ricaço, que o apresenta a pessoas influentes. Resultado: vira cônsul, representa o Brasil em conferências internacionais, é homenageado pelo presidente e saudado pela imprensa como um grande intelectual.
Pensando bem, talvez o senador Cristovam esteja certo. Pra quê estudar português e matemática, se podemos resolver tudo com um título de professor de esperanto, né?!


Atualização:
Recebi um cordial e-mail de Fabrício Valle, Presidente da Intraespo - Organização Mundial para o Desenvolvimento da Economia Esperantista, uma ONGD sediada em Brasília. Ele me manda dois links bem interessantes - AQUI e AQUI - para blogs da instituição, além do Twitter - AQUI. Quem quiser se informar mais sobre esperanto, tem lá um monte de informação. Valeu, Fabrício.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Admirável Fantástico Mundo Novo

Acho bem interessante aqueles troços de missão/visão/valores que as empresas adoram propagar. Obviamente, sempre dizem que querem ser referência no segmento e oferecer um serviço/produto de excelência para o cliente. Só não sei como uma plaquinha colocada na parede faz o funcionário ser competente e o produto/serviço ficar uma maravilha. Também me comove as leis que tratam do bem-estar social. Acho bonito uma lei dizer que todos têm o direito a moradia, saúde, educação... como se o cara pudesse ir no PROCOM reclamar de propaganda enganosa. O senador Cristovam Buarque resolveu apresentar uma Proposta de Emenda Constitucional para incluir a “a busca da felicidade” no meio dos direitos do povo. O texto original da Constituição diz que “são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer...", alterado, o texto seria “são direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer...". Ou seja, esses direitos básicos não seriam mais básicos por constituírem condições mínimas para uma vida digna e, sim, para alçarem o cara rumo à felicidade. E aí é o problema. Afinal, o que é felicidade?! Falei um pouco disso no texto sobre uma pesquisa da revista Forbes que aponta o Brasil como o 12º país mais feliz do mundo, à frente de países como EUA, Alemanha e Bélgica. Como escrevi antes, Kant dizia que a felicidade é "a totalidade das satisfações possíveis". Então, como é que o Estado vai dar essa possibilidade de busca da felicidade?
Bom, acho melhor o senador Cristovam propor a distribuição gratuita de SOMA, a droga do bem-estar de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e colocar na PEC o seguinte trecho do livro:
Do que você precisa é de um grama de soma. Todas as vantagens do Cristianismo e do álcool; nenhum dos seus defeitos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Em Alguma Parte Alguma

Anteontem foi Dia de Finados. E, lembrar dos que não mais estão (pelo menos no conceito de matéria do senso comum), é manter viva a existência. Como bem disse André Comte-Sponville, no seu genial O Ser-Tempo: "sou o que fui, o que aconteceu comigo, o que fiz, je suis été, eu sou sido, como dizia Sartre, o que quer dizer que sou meu passado". E, como disse Guyau: "tudo é presente em nós, inclusive o próprio passado". O presente é essa tensão entre dois nadas: o passado, que já não é mais; e o futuro, que ainda não é. Somos, então, aquilo que lembramos e aquilo que projetamos. No seu novo livro, o sensacional Em Alguma Parte Alguma, Ferreira Gullar transita entre referências de existencialismo e física (ainda falarei muito desse livro....). No poema A Propósito do Nada escreve:

sou o que digo
e faço enquanto passo

sou a consciência de mim

e quando vinda a morte
ela se apague
serei o que alguém acaso
salve do olvido

já que para mim
(lume apagado)
nunca terei existido
Sigamos Ferreira Gullar. Salvemos do olvido aqueles que nos fazem ser...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Isso não é um chapéu

Já que amanhã é dia das crianças, vai aqui minha homenagem ao livro infantil mais famoso do mundo: Le Petit Prince - O Pequeno Príncipe. No Brasil, o livro ficou injustamente relacionado a uma leitura rasa, devido às piadas que dão conta ser o livro preferido das candidatas a Miss-Qualquer-Coisa. Talvez porque, como disse Caetano, muitos pensem só ser possível filosofar em alemão. Antoine de Saint-Exupéry segue uma linha de escrita que me lembra um dos grandes escritores de língua francesa: Voltaire. Através de alegorias, cria cenários que buscam nos mostrar a estranheza da vida e o absurdo da essência humana. Nas suas viagens pelo espaço, o Pequeno Príncipe se depara com o vaidoso que não tem ninguém para admirá-lo, o rei prepotente que não governa ninguém, o acendedor de poste que cumpre sua tarefa por motivo nenhum... Enfim, tudo isso para nos fazer a pergunta: Qual o sentido da vida? E, logo no início, de uma maneira tão simples, o Pequeno Príncipe mostra como vemos o mundo de uma maneira superficial através do desenho acima:
Meu desenho não era um chapéu. Era uma jibóia digerindo um elefante. Eu, então, desenhei o interior da jibóia para que os adultos pudessem entender. Eles sempre precisam de explicações...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Elogio de Vargas Llosa


Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel de Literatura! Sem dúvidas, o prêmio está em boas mãos. E, para mim, não só pela sua obra literária. Numa América do Sul onde a maioria dos intelectuais não conseguiu se desvencilhar das ilusões utópicas de décadas passadas, Vargas Llosa conseguiu ser uma voz destoante, que não é complacente com ditadores por causa da direção das suas idéias, e não vê o populismo barato como uma representação realmente popular. Voltando à literatura, semana passada li o "Elogio da madrasta", uma curta novela, digamos, erótica, encomendada por um amigo. E o "digamos" se deve à destreza de Llosa em optar por trocar imagens explícitas por referências elegantes e, por isso, muito mais instigantes. O livro é um misto de clichês desconstruídos e (típico de Llosa) inserções de arte. A história principal é intercalada por capítulos que são mini-contos sobre pinturas clássicas que têm a ver com as etapas do enredo, com direito a imagens dos quadros. Tudo se desenrola em torno da relação pai-filho-madrasta, mas com inversão do senso comum destes tipos, e ênfase na na parte lúdica dos desejos, em vez de focar nas ações. A madrasta não é uma bruxa, é uma linda mulher de 40 anos. O filho é louco pela madrasta. E o pai tem um ótimo relacionamento com ambos e, de nenhuma forma, é ausente com a esposa. Na relação de (pseudo) incesto entre a madrasta e o menino, a vítima é a mulher, e não a inocente criança. E é no menino Fonchito que a alusão à outras culturas é clara: ele é loiro, olhos azuis, cabelos cacheados, como o próprio Eros, deus do Amor, filho do deus da Guerra e da deusa da Beleza. A madrasta, então, é só uma simples mortal acuada pela força superior divina.

Mario Vargas Llosa conseguiu transformar o que poderia ser uma pornochanchada numa divertida história onde a única coisa realmente explícita é a beleza da arte.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Eleitor, leia Saramago!


Domingo é dia de eleição. Ontem, num debate entre especialistas em direito eleitoral e ciência política, vi um comentário interessante. Um dos participantes comentou que num caso excepcional (bota excepcional nisso!) em que todos os eleitores votassem para deputado apenas na legenda, não teria como distribuir esses votos de modo a eleger alguém. Ou seja, todos teriam votado, mas ninguém seria eleito. Prontamente me lembrei do "Ensaio Sobre a Lucidez", de José Saramago. Num país fictício, a população, de maneira espontânea, decide votar majoritariamente em branco. No final da apuração descobre-se que 83% dos votos foram brancos. Com isso, um caos se instala, pois o absurdo da situação não permite que haja um governo legitimamente válido.
O interessante do livro de Saramago é que o colapso do sistema se dá através de um dispositivo legal: o voto. É o que aconteceria no caso de 100% dos votos em legendas aqui no Brasil. Seria uma maneira de dizer que a diversidade de partido é válida, mas que não há ninguém capaz de merecer um voto.
E, pensando bem, é bem melhor esse tipo de manifestação do que o tal "voto de protesto", que elege um fanfarrão famoso e uma penca de desconhecidos...
Eleitor, leia Saramago!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Ariadne, Teseu e A Origem


Semana passada vi o badalado "A Origem". Pelo que tinha lido antes, parecia ser o novo Matrix, algo que misturava efeitos espetaculares com uma trama sensacional. Nada disso. É, apenas, um bom filme de ação com um mote mais interessante do que matar os inimigos pra salvar a mocinha. Logo de cara, algo me chamou atenção: uma personagem chamada Ariadne, que, como teste para entrar no grupo, desenhava labirintos. Obviamente, eu deduzi que a moça guiaria o mocinho até o desfecho de sua tensão pessoal... Na mitologia grega, Ariadne deu a Teseu um novelo para usar como guia no labirinto do Minotauro, o que originou a expressão "Fio de Ariadne". Curiosamente, me deparei com esta referência em dois livros que li este ano: o divertido Os Espiões, de Veríssimo; e o interessante Todos os Nomes, de Saramago. No primeiro, Ariadne é a personagem que guia a trama. No segundo, um fio-guia é usado como no mito, para marcar o caminho através de um labirinto. Em ambos, a referência é bem utilizada. Já no filme, é só um nome-clichê desnecessário. Até mesmo porque, verdade seja dita, tudo que o filme não possui é um labirinto. Fique tranquilo, Teseu. Não existe a menor chance de se perder...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O quinto cavaleiro do Apocalipse


Os carolas xiitas americanos têm como diabinhos de estimação os chamados 4 Cavaleiros do Apocalipse: Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris e Christopher Hitchens. É que a maioria do pessoal de lá pensa igual ao intelectual Datena. Ou seja, é lindo ser militante de uma religião, e criminoso alardear que não vê sentido em crer numa metafísica superior. Hitchens, por sinal, virou prova viva da fúria divina que pune os infiéis, pois descobriu, mês passado, ter um câncer no esôfago. Eu acho que a doença é menos fruto das palavras anti-deus e mais consequência de anos de cigarro, bebida e outras substâncias que completam a farra. Pois bem, eis que agora surge mais uma voz pregando abertamente não crer em Deus. E esta voz não é humana. É proferida pelo sintetizador de um computador. É a voz robótica de Stephen Hawking, um dos maiores intelectuais do século XX, e o cientista mais pop do mundo. Já protagonizou uma série na BBC onde era chamado de Mestre do Universo, participou dos Simpsons, jogou cartas com Einstein e Newton em Jornada nas Estrelas, e foi um dos primeiros a experimentar o voo simulado de gravidade zero oferecido para não astronautas. Este mês, Hawking irá lançar um livro onde diz que o "Big Bang" foi uma consequência inevitável das leis da física, não necessitando, portanto, de um Deus criador. Com certeza irão incluir Hawking na lista negra dos xiitas. Quando Hawking se encontrou com o papa, eu escrevi o seguinte texto, em 1 de novembro de 2008:

Stephen Hawking bem que poderia ser uma espécie de Deus. Desprovido de movimentos humanos, vaga onipotente pelo Universo apenas com a mente. Na cadeira de rodas, falando por um sintetizador, é capaz de fazer cálculos imensos e guardá-los na memória. Sempre irônico, possui um retrato de Marilyn Monroe no escritório e uma placa na porta "silêncio, o chefe está dormindo". Ficou famoso ainda estudante, quando interrompeu uma palestra do maior físico do mundo na época e disse "Seus cálculos divergem. Eu os refiz". A partir daí, recriou o Big Bang, os buracos negros, e boa parte do Universo. Em Cambridge, ocupa "apenas" a cadeira que foi de Newton, e diz: "a cadeira de Newton agora tem rodas". O abençoado foi o Papa.

domingo, 22 de agosto de 2010

Detalhes nos tempos do cólera


Na grande obra "O amor nos tempos do cólera", Garcia Márquez faz uma reflexão sobre as escolhas da vida. E sobre a importância das pequenas cumplicidades, numa espécie de "Detalhes" em prosa longa...

Florentino Ariza era um jovem tímido que passava seus dias devorando livros. Mas sua vida muda ao ver a bela Fermina Daza, que desperta nele uma enorme paixão. Inseguro, Florentino a observa sem coragem de abordá-la, e começa a escrever longas cartas que nem sabe se serão lidas. Um dia, consegue fazer chegar a ela uma das cartas. De início, Fermina se sente confusa com a aparição repentina, mas logo se empolga pela descoberta de um mundo novo. Trocaram cartas que transbordavam um "incêndio de amor". Mas, apesar das declarações mútuas, Florentino se sentia inseguro em dar um passo adiante, pois ela era a herdeira de uma rica família, enquanto ele era apenas um aprendiz dos Correios sem meios para lhe garantir um futuro. Depois de dois anos de cartas, num mês de agosto, Florentino decidiu contrariar seu hábito de escrever cartas de dezenas de páginas, e num único parágrafo pediu Fermina Daza em casamento. Fermina, "num medo pânico, desabafou com a tia, que enfrentou a confidência com valentia e lucidez:
"Responda a ele que sim. Ainda que você esteja morrendo de medo, ainda que depois se arrependa, porque seja como for você se arrependerá a vida inteira se disser a ele que não."
Ela chegou a dizer-lhe que sim, mas voltou atrás pela pressão do pai e das convenções sociais. Apesar de triste, logo conheceu o promissor médico Juvenal Urbino, e nele viu a segurança de que precisava para ter a sua família. Com ele passou 50 anos. Teve filhos, netos, viajou o mundo e, acreditava, teve felicidade. Mas, no dia em que ficou viúva, recebeu a visita de Florentino, agora presidente da Companhia Fluvial do Caribe, e que nunca a esquecera. Nos dias seguintes percebeu que a imagem do marido que julgava perfeito desaparecia como se nunca o houvesse conhecido, enquanto "tomava consciência de que havia em sua vida um fantasma atravessado que não lhe dava um minuto de sossego". Então, teve a certeza de que havia construído a vida que sempre sonhara... mas com a pessoa errada. E decidiu viver os anos que lhe sobravam com aquele que sempre deveria estar ao seu lado. Fermina descobriu que a felicidade que possuiu no contexto geral de sua vida não era maior que a felicidade que continha os pequenos detalhes de suas confissões com Florentino. Fermina não ouviu seu coração, nem ouviu Roberto Carlos:
Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito tempo em sua vida eu vou viver...

Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido
Palavras de amor como eu falei, mas eu duvido
Duvido que ele tenha tanto amor
E até os erros do meu português ruim

À noite envolvida no silêncio do seu quarto
Antes de dormir você procura o meu retrato
Mas da moldura não sou eu quem lhe sorri
Mas você vê o meu sorriso mesmo assim

Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada
Do tempo que transforma todo amor em quase nada
Mas "quase" também é mais um detalhe
Um grande amor não vai morrer assim
Por isso de vez em quando você vai lembrar de mim...
Não adianta nem tentar me esquecer

Como disse o arquiteto Mies van der Rohe: Deus habita os detalhes.

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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