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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Perereca Que Pisca, a deputada e George Orwell


Recentemente, a deputada Luiza Maia manifestou toda a sua insatisfação com a Perereca Que Pisca, como escrevi neste post. Agora, voltou suas atenções para a imprensa. Enquanto isso, o vocalista da banda Black Style, o da perereca, anunciava que escreverá um livro baseado no clássico 1984, de George Orwell. E, eis que, mais uma vez, os caminhos dos dois se cruzam.

A deputada, agora, quer regular a imprensa. Segundo ela, a “grande mídia virou partido político”, "é muita denúncia falsa, muita esculhambação que tem aí”, e se faz necessário um “controle do conteúdo dos programas de TV”. Enfim, é o papo de sempre. Como bem disse Millôr Fernandes: democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim. Assim funciona o raciocínio da deputada. Eu não acho que existe o grupo dos puros de coração, e o dos malvados que querem nos levar para o lado negro da força. Basta ler o texto anterior para ver que creio que todos têm, como disse Roberto Carlos, o bem e o mal que existem. E, cabe a você, escolher. Afinal, é preciso saber viver. Mas, para a deputada, imprensa boa é a que denuncia os inimigos. A que denuncia os amigos é golpista. Se a Veja denunciar um aliado, é golpe. Se a Carta Capital denunciar um inimigo, é resistência. Pra mim, canalha é canalha, independente se veste azul ou vermelho, se usa broche com estrela ou plumas de tucano. E, quando leio sobre controle de conteúdo, logo penso: quem decidirá o que é bom ou ruim? Por que alguém terá a capacidade de escolher o que será a minha verdade?

Robyssão (meu deus), do Black Style, me surpreende. Não sei como alguém pode ter talentos tão distintos. Depois de Bate Com a Bunda, Esfrega a Xana No Asfalto, Amassa a Latinha Com a Bunda e Chuva De Perereca, vai partir para literatura filosófica. Versatilidade é isso. No livro 1984, Orwell narra a história de uma sociedade dominada por uma ultra ditadura totalitária. E, o símbolo da repressão é o controle das informações. As pessoas só sabem aquilo que o partido julga ser A Verdade. Na primeira edição inglesa de "A Revolução dos Bichos", Orwell escreveu um prefácio intitulado " A liberdade de imprensa". Lá ele comenta a liberdade de um lado só. Uma editora, por exemplo, rejeitou o livro porque achou que não criticava ditaduras e, sim, a ditadura soviética. Ou seja, existe a ditadura do mal, que deve ser combatida, e a do bem, que apenas quer nos guiar rumo à salvação. Qualquer semelhança com o pensamento da deputada...

Robyssão e a deputada voltaram a se encontrar, desta vez em Orwell. Pelo histórico de poesias, não acho que o rapaz seja capaz de produzir algo interessante, mas isso não me faz pensar em censurar o direito que tem de cometer esse livro. De certa forma, admiro o fato dele citar e ter como referência uma grande obra. Sinal de que, talvez, tenha salvação. Já a deputada escolheu Orwell pelo outro lado, o lado da caricatura do autoritarismo. Ela decidiu ir de volta para o futuro de 1984.

Que coisa... entre a Perereca Que Pisca e a deputada, mais uma vez, fiquei do lado da perereca.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Serge Gainsbourg partido ao meio e o mal que habita em nós

Coitado tem andado a delirar
Ele quer tantas fêmeas a conquistar
Fica sempre circulando
Pois muitas delas quer ofuscar
Para todas poderem em fim desapontar

Sabe muito bem como é ruim
Ser dia e noite um estopim
Que assim aceso vai buscar o próprio fim
Para uma vez morto viver com James Dean

Nas vezes que ele quer me confundir
Sorri e pede licença para sair
Parece que finalmente vai sumir
Mas é quando eu mais devo me prevenir
Desse mal que habita em mim

(Marcelo Nova - Camisa de Vênus)



O filme "Serge Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres" é anunciado como uma cinebiografia do famoso e polêmico cantor e compositor francês. Pensei, então, que seria uma narrativa linear e realista do cara que feio e esquisito que conquistou, apenas, Brigitte Bardot e Jane Birkin (praticamente um Sarkozy underground). Mas, o filme não segue a biografia crua e, sim, recria a vida de Gainsbourg por uma ótica bem psicológica. Em todo o filme, um personagem-caricatura de Gainsbourg, faz as vezes do demônio pessoal que tenta levá-lo para o lado negro da força. É mal que habita nele corrompendo-o rumo à destruição.

No livro "O Visconde Partido ao Meio", o italiano Ítalo Calvino cria uma fábula leve e quase infantil (no estilo) que mostra esse eterno conflito entre as dicotomias nossas de cada dia. Nela, o visconde Medardo di Terralba é atingido por uma bala de canhão e tem seu corpo dividido exatamente ao meio. Então, cada parte sobrevive independente, mas conserva sentimentos opostos. Enquanto uma levava toda a parte boa do visconde, a outra só conservou seu lado ruim. Mas, nenhuma das partes conseguiu ser feliz sendo apenas bondade e apenas maldade. No fim, as partes são costuradas e voltam a ser uma: "Assim, meu tio Medardo voltou a ser um homem inteiro, nem bom nem mau, uma mistura de maldade e bondade ".

Como disse o próprio Calvino, o homem é um ser “mutilado, incompleto, inimigo de si mesmo”. E, ser um homem inteiro, é conservar dentro de si mesmo esse duelo entre os opostos, tentando equilibrar-se na linha média que não nos deixa ser pender para um extremo.

Numa cena marcante do filme, Gainsbourg deixa de ser ele, e passa a ser o próprio demônio caricato que havia nele. Portanto, deu-se a derrota do lado bom, restando-lhe apenas aquilo que o destruía.

Serge Gainsbourg venceu o mundo, mas perdeu o duelo contra si mesmo...

terça-feira, 26 de julho de 2011

Amy Winehouse, Salvador e a escolha do cadáver adiado

"Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia". Essa é a primeira frase do livro "O Mito de Sísifo", de Camus, onde ele trata da liberdade de viver. Escolher os caminhos da própria vida é exercer de forma plena a condição de ser humano.

O assunto do fim da semana, claro, é a morte de Amy Winehouse. Vi muita gente se dizendo chocada, pega de surpresa, triste com essa notícia repentina... Bom, meu comentário quando soube foi: "Tecnicamente, ela ainda podia ser considerada viva?". Não nutri nenhum sentimento, bom ou ruim, sobre o fato. Era apenas algo bastante previsível.

Amy Winehouse tinha 27 anos. Poderia ser uma mulher sexy, talentosa, com uma presença de palco avassaladora, cheia de vida e carisma. Mas, ela decidiu ser um zumbi deprimente. E, independente de qualquer teoria socio-psicológica, ela teve opção, ela escolheu seguir o caminho que teve. No momento em que tentaram levá-la à reabilitação ela disse não, não, não, e aí confirmou Camus, também em "O Mito de Sísifo": "Existe um fato evidente que parece absolutamente moral: um homem é sempre vítima de suas verdades. Uma vez que as reconhece, não é capaz de se desfazer delas. Precisa pagar um preço". Ela decidiu ser aquela sua verdade, se consagrou cantando que assim seria, e pagou o que era devido à escolha. E esse papo de pressão causada pelo sucesso me dá até preguiça de comentar. Quer dizer que o problema foi o sucesso? Melhor seria ser fracassada, então? É melhor ser uma mega-estrela-pop-mundial ou cantar num boteco decadente no bairro mais perigoso da cidade? Pra mim, excesso de opções não é problema. O problema é a falta delas.

Ontem à tarde, na av. Garibaldi, uma moça, também de 27 anos, levou um tiro nos rosto. Está na UTI. Espero que ela saia bem de mais essa barbaridade que chamamos carinhosamente de cotidiano. Garanto que não estava escrito na sua agenda: 16h, ser baleada no semáforo. Ela não teve opção. Um cara acordou, tomou café, tomou banho, limpou a arma, trocou de roupa, e decidiu que queria ter alguma coisa. E, para satisfazer seu desejo de ter algo, julgou que valia a pena tirar o direito de alguém decidir sobre a própria vida.

Amy escolheu sua trajetória de vida e morte. Outras tantas pessoas têm seu caminho interrompido sem que isso tenha acontecido de maneira consentida. Fernando Pessoa disse ser o homem um "cadáver adiado que procria". Eu não tenho pena de Amy. Na verdade, acho que ela foi bem feliz. Afinal, foi cadáver quando bem quis...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Jim Morrison e a Jornada do Herói

James Douglas Morrison, ou apenas Jim, foi, pra mim, o maior rockstar da história. Conjugou música, presença de palco, e uma mística pessoal que, juntos, criaram o mito. Após 40 anos de sua morte (será mesmo?!), o fascínio em torno dele permanece. Jim tornou-se eterno porque sua vida trilhou caminho semelhante à Jornada do Herói, a estrutura narrativa mais presente em todas as histórias de sucesso.

O americano Joseph Campbell foi um dos maiores especialistas em mitologia do mundo. Fascinado pela histórias dos grandes heróis mitológicos, comparou a trajetória dos deuses religiosos e fábulas antigas para criar o que chamou de "A Jornada do Herói", exposta no livro "O herói de mil faces". Essa jornada seria um roteiro de vida comum a todos os mitos e heróis, de Jesus Cristo a Luke Skywalker. Por sinal, Campbell foi, apenas, consultor de George Lucas para a criação da saga "Star Wars"! E os seus estudos são a base para a criação de diversos roteiros, de "Matrix" a "Um Tira da Pesada". A Jornada do Herói tem 12 etapas. Abaixo, falarei de cada etapa dando como exemplo a vida de Jim Morrison.

1. O Mundo Comum - A maioria das histórias começa apresentando o cotidiano do herói, que depois será abalado. Jim era um tímido estudante de cinema na Califórnia, com uma vida universitária bem comum.
2. Chamado à aventura - É quando algo acontece chamando o herói a sair do seu mundo. Ray, que viria a ser o tecladista do The Doors, lê os poemas de Jim e sugere montarem uma banda
3. Recusa do Chamado - É o momento de hesitação do herói, quando ele tem que superar seus medos para ir à aventura. Jim fica relutante em expor suas letras, e não se sente confiante porque nunca havia cantado antes. Nos primeiros shows, cantava de costas para a plateia.
4. Encontro com o mentor - O mentor é o personagem que prepara o herói para enfrentar a aventura. Jim dizia que, aos 5 anos, viu índios mortos numa estrada do Novo México. E, naquele momento, o espírito de um xamã entrou em seu corpo. De repente, Jim começa a usar essa história como um sinal, um estímulo.
5. Travessia do Primeiro Limiar - Neste momento, o herói começa a aventura. Jim perde o medo, suas performances no palco viram rituais, e ele tem total controle da plateia.
6. Testes, aliados, inimigos - É quando o herói aprende as regras do Mundo Especial e percebe quem são os aliados e quem são os inimigos. A banda está unida, e eles aprendem como lidar com a imprensa e o assédio.
7. Aproximação da Caverna Oculta - Neste ponto, o herói encara a fronteira de um lugar perigoso e crucial na aventura. Jim vira um astro do rock, cultuado pela crítica e adorado pelo público. Mas o clima de transgressão que ele prega começa a gerar um desconforto nas autoridades.
8. Provação - É a parte em que a vida do herói está em jogo. É aquela hora do filme que o herói só tem a opção de morrer ou de ir pro lado negro. Jim foi preso, injustamente, acusado de atentado ao pudor. Depois disso, começou a ser perseguido por várias autoridades. No meio desse caos, o disco Soft Parade é mal recebido pela crítca. Será o fim?
9. Recompensa - Após sobreviver, o herói finalmente consegue pegar o tesouro. Passada a turbulência, o The Doors lança o aclamado Morrison Hotel, volta ao topo das paradas, e constrói uma legião de fãs ainda mais fiel.
10. Caminho de Volta - É o início do terceiro ato do roteiro. Quando tudo parece tranquilo, eis que surge o problema final. É aquela perseguição surpresa no final do filme. Jim é condenado a oito meses de trabalhos forçados..
11. Ressurreição - De novo, parece que o herói morreu, mas ele sempre consegue se livrar e voltar ainda mais forte. Jim é solto sob fiança e começa a gravar o excelente L.A. Woman.
12. Retorno com o Elixir - É quando o herói retorna ao mundo comum trazendo consigo o tesouro ou um ensinamento especial. Jim decide dar um tempo na música, viver como uma pessoa comum, voltar a escrever poemas e roteiros, e muda-se para Paris com a namorada Pamela.

E, além disso, Jim ainda teve um final enigmático, comum apenas aos melhores roteiros e aos grandes mitos. Morreu de repente, poucos viram o corpo, o laudo oficial sobre a causa da morte é vago e impreciso, e os depoimentos sobre seus últimos dias ainda hoje são controversos. É o típico final que pode dar margem a uma continuação. E isso só serve para deixar o herói sempre vivo.

E Jim falava que gostaria de fazer como Rimbaud, abandonando a carreira no auge para viver anônimo em algum lugar remoto. Alguém conhece um traficante de armas no Marrocos?!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

João, Juscelino, e o milagre de Diamantina

Depois de não conseguir ser o novo Orlando Silva, o cantor das multidões, João Gilberto, frustrado, decidiu ir embora do Rio de Janeiro. Após uma temporada em Porto Alegre, decidiu se "exilar" em Diamantina, interior de Minas Gerais, na casa de sua irmã Dadainha. Chegou sem avisá-la, em setembro de 1955. Lá passou alguns meses sem botar o pé pra fora de casa. Nas primeiras semanas, não fazia absolutamente nada. Mas, de súbito, como se recebesse uma inspiração sabe-lá-deus de onde, pensou em uma nova maneira de fazer música. Passava horas tocando o mesmo acorde, muitas vezes trancado dentro do banheiro, e cantando de uma maneira diferente. Sua irmã, claro, achou que Joãozinho não tava muito bem da cabeça e o mandou pra Juazeiro, pra ver se os pais o ajudavam. Chegando em Juazeiro, o pai disse que aquilo não era música, era nhém-nhém-nhém. E, vendo o filho caladão, tocando aquelas coisas estranhas, mandou-o para Salvador para se consultar com psicólogos. Aqui, João foi avaliado, mas nada foi constatado. E ele, confiante de que tinha algo novo a apresentar, voltou para o Rio, de onde saíra fracassado. Desde Diamantina, João sabia que, finalmente, tinha encontrado o que procurava.

Também em setembro, também em Diamantina, num remoto 1902, nascia Juscelino Kubitschek de Oliveira. No outro setembro, o de 1955, Juscelino era o grande candidato à Presidência da República. Ex-prefeito de Belo Horizonte, ex-governador de Minas Gerais, destacava-se por ser jovem, arrojado, com idéias modernas e discursos encantadores. Prometeu progredir 50 anos em cinco. Muitos jornalistas, àquela época, deviam percorrer as ruas da pequena cidade para retratar o berço do futuro presidente, sem saber que ali estava nascendo a Bossa Nova.

Juscelino saiu de Diamantina para mudar o Brasil e virar história.

João foi para Diamantina para mudar o mundo e se fazer eterno.




Obs.: No post abaixo eu escrevi que o aniversário de João Gilberto é dia 11 de junho. Claro, errei e corrigi. A data correta é 10 de junho. Peço desculpas, principalmente àqueles que ficaram felizes por fazer anos no mesmo dia que João...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Joãozinho, o novo Orlando Silva?!

Dia 10 de junho é aniversário de João Gilberto. Fará 80 anos. E, em homenagem, farei uma semana de textos sobre ele. Vamos ao primeiro:
Em 1948, Juazeiro tinha apenas 10 mil habitantes. Entre eles, havia um jovem de 17 anos que todos chamavam Joãozinho de Patu, porque, como é comum no interior, João era filho de d.Patu! Joãozinho ganhou o primeiro violão aos 14 anos. Junto com amigos, montou grupos vocais, que eram a sensação na época. Em 1949, aos 18 anos, mudou-se para Salvador. O pai esperava que ele fizesse faculdade, mas ele seguiu com o intuito de ser cantor. Conheceu várias pessoas, e em 1950 foi pro Rio de Janeiro para ser crooner no grupo vocal Garotos da Lua. Naquela época, Joãozinho não cantava baixinho, quietinho, num banquinho. Cantava alto, inspirado pelos grandes cantores da época: Dick Farney, Lúcio Alves e Orlando Silva, o cantor das multidões. Mas Joãozinho foi demitido dos Garotos da Lua, e seguiu carreira solo. E, em 1952, conseguiu gravar seu primeiro disco que foi um enorme... fracasso! Joãozinho não conseguiu ser o novo Orlando Silva. Sorte nossa! Abaixo, o single "Quando ela sai".

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Menos é Miles.

Hoje Miles Davis faria 85 anos. É dele o disco Kind of Blue, o disco de jazz mais vendido da história. A banda que o acompanhava era formada, apenas, por Bill Evans, Wynton Kelly, Paul Chambers, Cannonball Adderley e... John Coltrane! Coltrane, por sinal, é o contraponto de Miles no disco. Enquanto lança notas velozes, que parecem quase não caber na música de tão numerosas, Miles aparenta se concentrar para dar A Nota Certa. Numa época em que o beep bop jazz dominava com sua linha mais dançante, Miles fez mais usando pouco. Não à toa, encantou-se por outro minimalista: João Gilberto. Como relatado no livro "Kind of Blue - A história da obra-prima de Miles Davis", certa vez, voltando de uma turnê, um músico amigo perguntou pra Miles como havia sido o show. E ele respondeu: "Coltrane tocou 50 solos. Cannonball tocou 46. Eu toquei dois...".
É isso. Menos é Miles.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Bruna Surfistinha, Sandy e a devassa de folhetim


O filme "Bruna Surfistinha" conta a história de Raquel Pacheco, uma rebelde-sem-causa que decidiu ser garota de programa menos pela revolta e mais pelo talento. Filha adotiva de uma família classe média, enfrentou os mesmos conflitos adolescentes que qualquer um. A diferença é que usou isso como um pretexto para entrar na prostituição. E, ao longo do filme, o pretexto se mostra fraco quando a vontade de sair dessa nova vida parece ser bem menor que a vontade de entrar. Em uma entrevista recente, Raquel, agora casada e "aposentada", disse sentir falta da liberdade dos tempos passados. Ou seja, ao seu ver, as coisas não foram tão ruins. Eu pensei que o filme seguiria uma linha Cinderela, da menina que sofre um bocado até ser feliz para sempre. Mas, grata surpresa, o filme é bem mais realista. A profissão escolhida por Bruna segue os mesmos caminhos de qualquer profissão: ascensão, queda, sofrimento, felicidade e prazer verdadeiro. Em um momento, Bruna diz: "Às vezes ver que o cliente me desejava valia mais que a grana que ele pagava pelo programa". É a típica satisfação de alguém que exerce a função que deseja.

Sandy sempre foi a menininha perfeitinha. Quase virou a nova namoradinha do Brasil. Só não foi de fato porque o Brasil não pediu a mão dela em namoro num jantar formal com a presença da família. Depois de anos cultivando a imaculada imagem de santinha, resolveu revelar suas travessuras de menina má. Pintou o cabelo de loiro, colocou as perninhas de fora e foi ser a musa do Carnaval da cervejaria Devassa. Logo caiu na internet um video de um programa de TV onde ela dizia que não bebia cerveja porque o gosto não a agradava.

Bruna Surfistinha é daquelas mulheres que só dizem sim, mesmo que seja só por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema ou um botequim. Já Sandy sempre foi daquelas que só dizem não. Mas, por uma renda, aceitou uma prenda, fez as vontades e contou meias verdades. Mas, no dia seguinte, página virada, as travessuras foram descartadas do folhetim.

Bruna, além do dinheiro, fazia porque gostava. Com Sandy não tem esse papo de gostar do que faz. É só pagar que tá valendo...


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Biutiful, Hitchens e toca Raul


Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Qual será a forma da minha morte?
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida

O câncer já espalhado e ainda escondido...

Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida

(Canto para minha morte - Raul Seixas)


Numa Barcelona sem as cores de Gaudí ou Miró, Uxbal (Javier Bardem) é um homem comum, de vida medíocre, que apenas vive cada dia sem saber o que esperar do amanhã. Agenciador de mão-de-obra ilegal, chineses e africanos, vive ele mesmo meio à margem da sociedade, como um estrangeiro em sua própria terra. E, não tendo seus dias vida, segue então rodeado pela morte. A morte que ronda constante os imigrantes, a morte que o cerca devido à capacidade mediúnica de ter contato com alguns espíritos, a ex-mulher bipolar que vive e morre nas intermitências da doença, o pai que não conheceu, e a sua própria morte, dignosticada sob a forma de um câncer já espalhado pela região abdominal.

O inglês Christopher Hitchens é um dos maiores colunistas dos Estados Unidos. Por causa do seu ateísmo e sua crítica às religiões foi "carinhosamente" chamado de Cavaleiro do Apocalipse, junto com Sam Harris, Daniel Denett e o genial Richard Dawkins. A, digamos, homenagem foi feita por grupos de religiosos criacionistas americanos. Ano passado, Hitchens foi dignosticado com câncer. Iniciado no esôfago, espalhou-se por outros órgãos. Este mesmo tipo de câncer matou seu pai. Hitchens, então, escreveu um excelente artigo na Vanity Fair intitulado "Notícias da Tumorlândia", onde relata sua reação ao perceber a morte tão perto:

"Independentemente do tipo de "corrida" que a vida seja, tornei-me abruptamente finalista. Tinha planos reais para a minha próxima década. Será que não viverei para ver meus filhos casados?".

Uxbal é um europeu qualquer, sem grandes planos, com uma vida melancólica e uma mediunidade que lhe traz mais angústia que conforto. Hitchens é um europeu bem-sucedido, autor de livros que se tornaram best-sellers, colunista de importantes revistas ao redor do mundo, palestrante requisitado, e ateu militante. Apesar das vidas opostas e de perceberem a morte de maneiras distintas, ambos foram confrontados com com a mesma sensação de impotência em relação ao fim.

E ambos se fizeram exatamente a mesma pergunta. Em conversa com uma amiga, Uxbal pergunta por que aquilo estava acontecendo com ele.

No fim do seu artigo, Hitchens aborda a mesma questão e desconstrói essa visão inconformista expondo, de maneira genial, a insignificância da vida humana:

"Para a pergunta idiota "Por que eu?" o cosmos indiferentemente responde: "Por que não?"".

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O pagode do herói doido, Tom Wolfe e Chico Buarque

A banda de pagode LevaNóiz (é assim mesmo que escreve, acreditem) é destaque na edição dessa semana da revista Época. Sei lá o motivo, aparece na parte de cultura. Segundo o jornalista que escreveu a matéria, o hit "Liga da Justiça" vai dominar o verão brasileiro. E na matéria de três páginas o cara tenta justificar o inexistente.


Tom Wolfe, expoente do new journalism americano, é um crítico ferrenho. Com textos ágeis, ácidos e em linguagem informal, ficou célebre, entre outros, com livros e artigos que criticavam o deslumbramento com os delírios da arte contemporânea. No ótimo "A palavra pintada", fala de como a teoria passou a justificar a arte. Em um dos trechos, diz: "A arte se tornou inteiramente literária: as pinturas e as outras obras só existem para ilustrar o texto".

Pois o jornalista da Época resolveu escrever o texto que será ilustrado pelo LevaNóiz. Depois de chamar o pagode de "gênero maior do Carnaval baiano" (é quase Umberto Eco falando do Barroco italiano) que mistura o samba tradicional com com o "uso expressivo da percussão", ele diz que a música "Liga da Justiça" é uma mistura de cultura pop com Carnaval baiano. E, para espanto dos que se impressionaram com a complexidade do enredo, diz que "não foi um roteirista de desenho animado quem inventou a situação. Foi o compositor brasileiro J.Telles". Pois é, para quem achava que era ideia de uma equipe de roteiristas geniais da Marvel Comics e da Pixar, uma grande surpresa! E, óbvio, o genial compositor foi ouvido. Tão eloquente quanto o jornalista, disparou: "queria falar de uma coisa diferente, e o Márcio Vitor (co-autor) deu a ideia de tratar da amizade". Realmente, nunca antes na história desse país a amizade foi tratada de maneira tão original.

Pra quem teve a sorte de não ter ouvido a grande obra e está curioso, segue quase toda a letra da música:
Superman ficou fraco
O Pinguim jogou criptonita
Lex Luthor e Coringa
Roubou o laço da Mulher Maravilha
Pois é... o enredo é tão complexo que os inimigos, além de roubarem o laço da Mulher Maravilha, também roubaram o plural.

Se esses serão os heróis do verão, só resta fazer como Chico Buarque: "Chame o ladrão!".

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

As Águas de Oxalá

Oxalá é a divindade yourubá mais antiga. Aqui na Bahia, foi sincretizado com o Senhor do Bonfim. Em 1754, o capitão-de-mar-e-guerra português Teodiso Rodrigues de Faria instituiu a devoção ao santo português Senhor do Bom Fim. Salvo de um naufrágio, atribuiu a proteção à imagem que trazia a bordo. E, em agradecimento, construiu a igreja. Espalhada a notícia da imagem milagrosa que habitava a nova igreja da colina, os fiéis se multiplicaram e uma missa em homenagem ao santo passou a ser celebrada no segundo domingo depois do dia de Reis. Para preparar a igreja, havia uma grande limpeza - a lavagem. Os negros, que buscavam sincretizar sua crença para exercê-la sem perseguições, logo viram nessa lavagem uma semelhança à preparação do terreiro para as festas das Águas de Oxalá. Assim, Nosso Senhor do Bonfim ligou-se ao orixá. A participação dos adeptos do candomblé chegou a tal ponto que eles lavavam toda a igreja com água e flores. A Igreja Católica, então, proibiu a lavagem, que só voltou a ser permitida em 1963, sendo restrita às escadarias. Em terreiros mais, digamos, ortodoxos as Águas de Oxalá são comemoradas em agosto ou setembro. Mas muitos terreiros foram tão influenciados pela lavagem da igreja do Bonfim que adotaram a data como o início dessa celebração, que marca a abertura do ciclo de homenagens aos orixás.

Acima, Oxalá numa aquarela do gênio Carybé. Abaixo, o Hino do Senhor do Bonfim por outro gênio, Armandinho.

Epa Bàbá!


segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Salvador, nossa Bagdá, e Gregório de Matos


Escrevi que Salvador queria ser o Rio, com suas belezas naturais, seu tráfico de drogas, seus assaltos, assassinatos... Mas, fiz uma injustiça. Com o Rio, claro. Afinal, o Rio tem orla marítima em funcionamento e metrô. Salvador, na verdade, tá mais pra Bagdá. Em 2009, a capital iraquiana já soma 96 mortes violentas. E isso porque no dia 2 teve um atentado que matou 30 e no dia 4 teve outro que matou 40. Já Salvador contabiliza 104 assassinatos. Portanto, quem quiser passar o verão num lugar tranquilo, vá para o Iraque.

Eu fiz o texto acima em 16 de janeiro de 2009, para o blog que tinha no site da Faculdade Baiana de Direito. E, quase dois anos depois, Salvador continua com a orla em ruínas, o metrô é uma lenda e Bagdá continua sendo um bom destino.



Neste fim de semana, 30 pessoas foram assassinadas em Salvador. Em Bagdá, foram 6 mortes. Fazendo o cálculo padrão de mortes/100mil, Salvador, com 3 milhões de habitantes, teria 1/100mil. Já Bagdá, com 7,5 milhões de pessoas, teria 0,08/100mil. Ou seja, quem deu uma voltinha em Salvador nesse fim de semana teve 12,5 vezes mais chance de ser assassinado do que quem passeou pela capital iraquiana. Pois é... como diz a música Nossa Bagdá (vídeo acima) Bagdá dá saudade mesmo. É um lugar ótimo. Ainda mais com essa levada baianidade-nagô-ijexá.

Infelizmente, meu meu texto continua valendo. E o de Gragório de Matos também:
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar a cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Roberto Carlos, Beatles e a história do Facebook

Um nerd com poucos amigos, que gostaria de ser tão popular na faculdade quanto o time de remo, e que é rejeitado pela garota que gosta. O que poderia ser o enredo de um filminho sessão-da-tarde meio sem graça, é a história real do bilionário mais jovem da história.

O bom "A rede social" conta como Mark Zuckerberg deixou de ser o gênio-nerd-meio-estranho para se tornar o gênio-nerd-meio-estranho e bilionário. A criação do Facebook, a maior rede social do mundo e um símbolo das novas interações virtuais, é apenas um pretexto para mostrar o que toda boa história sempre mostra: relações humanas.

A partir do fim do namoro, Zuckerberg decide fazer algo que o deixe célebre e bem quisto para reconquistar a menina. E, nessa busca, muita coisa acontece. Zuckerberg transita entre a ingenuidade desleixada e a perversidade cínica, que o afastam do seu sócio e verdadeiro amigo, o brasileiro Eduardo Saverin, e o aproximam do ególatra Sean Parker, criador do Napster, e que viria entrar no Facebook. É a negação do passado frustrado em busca do futuro de sucesso e aceitação social. Aceitação social, por sinal, é a chave das conquistas e das frustrações de Zuckerberg.

Analisando a si mesmo, Zuckerberg percebeu que a vida é um grande teatro, onde as pessoas tentam encenar os papéis principais. E, sendo assim, pouco importa o que você verdadeiramente é; o importante é a imagem percebida pelos outros. O Facebook seria, então, o palco. Ali, cada um representa o que bem desejar. Mas Zuckerberg também é apenas um humano, demasiado humano, em busca da legitimização de seus semelhantes e, assim como os outros, confunde-se entre o que ele de fato é e a personagem inventada.

Mark Zuckerberg pensou que a solução dos seus problemas seria ter um milhão de amigos pra bem mais forte poder cantar. Mas ao ver que na sua lista de amigos do Facebook não estava a única pessoa que realmente o interessava, sua ex-namorada, deixou Roberto Carlos de lado e voltou a ouvir Beatles:
I'm a loser, I'm a loser,
And I'm not what I appear to be

Of all the love I have won or have lost,
There is one love I should never have crossed.
She was a girl in a million my friend,
I should have known she would win in the end.
I'm a loser, and I lost someone who's near to me...



quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Nothing to kill or die for


Ontem, 08 de dezembro, fez 30 anos da morte de John Lennon. Pra mim, Lennon sempre foi uma figura não muito definida. Nunca consegui vê-lo como um ex-Beatle. A figura que tenho dele é tão ligada àquela época cabelos e barba longos que custo a relacioná-lo à fase iê-iê-iê. Talvez por isso, quando penso em Beatles, penso em Paul. E por causa da influência de Yoko Ono, sempre considerei que poderia existir um limite entre a bondade de criar um mundo melhor de um jeito Gandhi pós-moderno, e a verve de artista performática de Yoko. Enfim, certo é que o que mais me marcou na história de Lennon foi a loucura de seu assassino Mark Chapman.
Chapman, um autêntico loser americano, era muito fã dos Beatles. Até aí, nenhuma novidade para um grupo que vendeu 1,5 bilhões de discos. Só que ele viu numa passagem de "O apanhador no campo de centeio", de J. D. Salinger, uma mensagem que dizia que ele teria que matar John Lennon. Eu não li o livro, mas garanto que não tem esse trecho lá!
Enfim, Chapman passou alguns dias na porta do prédio de Lennon. Levou o livro, um disco, e o revólver. Enquanto esperava sua vítima, leu trechos de "O apanhador..." como um fanático que lê os textos sagrados. Numa noite, parou John e pediu um autógrafo, prontamente atendido de maneira simples e cordial, como é possível ver na foto acima. John saía para ir ao estúdio e jantar com amigos.
Ao voltar, levou 5 tiros de Chapman.
O sonho acabou...

domingo, 7 de novembro de 2010

God Save the King

Foto: Nabor Goulart/Agência Freelancer/Especial para Terra

Ele está no meio de nós! Sir Paul MacCartney fez ontem, em Porto Alegre, o primeiro show da sua turnê brasileira. E, tristemente, tenho a impressão de que a presença dele em nosso país merece muito menos destaque que a última visita de Madonna, que veio aqui para badalar com aquele agregado alçado à fama. E isso se deve a uma coisa: Paul é um anti-herói do mundo pop. Enquanto a maioria dos astros pop misturam excentricidades e fatalidades, Paul se comporta como um simples mortal que não é.
Lennon adorava os holofotes, criava factóides, casou com a, digamos, exótica Yoko Ono, e foi habitar o panteão dos mitos após ser assassinado por doido que lia Salinger. Elvis virou uma caricatura tosca de algo que ele nunca foi, trocou a pélvis pela pança, e morreu de forma tão melancólica que muitos preferem acreditar que ele copiou Rambaud e fugiu rumo a uma vida paralela. Madonna preferiu ser uma messalina chique a ser cantora e protagonizou (e inventou) escândalos os mais diversos até ficar velha e decidir posar de mãe do mundo. Michael Jackson... bom, esse dispensa comentário. Além de Handrix, Morrison, Janis Joplin...
Paul decidiu ser apenas Paul. Simpático, elegante, avesso a polêmicas e badalações, decidiu que a estrela é a sua obra, e não a vida dele.
E ainda tem cara que toca em bandinha de sei-lá-o-quê que se acha a bala que não matou Kennedy (aquela do suposto atirador de trás do muro).
Daqui a 200 anos, Paul MacCartney ainda será lembrado como um gênio. Tal qual fazemos hoje com Mozart. Até lá não sei se estarei escrevendo aqui. Vamos esperar.
God save the King!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Los Hermanos

Demorei de escrever o texto que deveria ser ontem, mas há boa explicação. Ótima, na verdade. Geralmente escrevo o texto de segunda no domingo à noite, mas onde eu estava o texto já estava pronto, e não era meu. Estava no show do Los Hermanos. E, como todos os outros, foi muito bom! Desta vez tive a sensação de que a banda queria apenas se divertir. O repertório foi escolhido para fazer um show divertido, e não para representar o conceito do disco mais recente, como é comum em turnês de divulgação. O Los Hermanos desperta em mim uma estranha sensação de déjà vu, como uma saudade do que não vivi, e a lembrança de sonhos que não tenho mais. Tem uma música que gosto muito porque fala desses paradoxos existenciais: Condicional. Fala sobre querer tanto, mas, por isso mesmo, comportar-se como quem não quer. Como diz logo no início: "Quis nunca te perder / Tanto que demais / Via em tudo o céu / Fiz de tudo o cais / Dei-te pra ancorar / Doces deletérios". Construímos nossos sonhos, incluímos nele quem nos convém e... esquecemos de perguntar ao outro se o que julgamos doce não lhe parece deletério. Enfim...


Vai abaixo trechos da música, e um vídeo dela sendo tocada no domingo! E Rodrigo Amarante é uma figuraça! A parte do solo, no fim do vídeo, é sensacional!



Quis nunca te perder
Tanto que demais
Via em tudo o céu
Fiz de tudo o cais
Dei-te pra ancorar
Doces deletérios

Eu quis ter os pés no chão
Tanto eu abri mão
Que hoje eu entendi
Sonho não se dá
É botão de flor
O sabor de fel
É de cortar.

Eu sei, é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu
O que eu queria, o que eu fazia, o que mais?
Que alguma coisa a gente tem que amar, mas o quê?
Não sei mais

Os dias que eu me vejo só
São dias que eu me encontro mais
E mesmo assim eu sei tão bem
existe alguém pra me libertar.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Vai, Hendrix! ser gauche na vida


Jimi Hendrix era canhoto. Como apenas cerca de 10% da população possui essa característica, durante muito tempo se acreditou que ser canhoto era romper o padrão normal, o que significaria algo ruim. Para muitos, os canhotos eram mais instáveis emocionalmente. No dicionário Aurélio, canhoto também é definido como "inábil, desajeitado". O dicionário Houaiss cita o regionalismo informal que utiliza "canhoto" como diabo. Em italiano, a esquerda é chamada "la sinistra", enquanto a direita é "la destra". Em francês, "gauche" (esquerdo) pode ser usado como sinônimo de alguém que foge às regras, como bem disse Drummond no seu "Poema de sete faces":
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
JimiHendrix rompeu todos os padrões da música. Inventou um jeito próprio de tocar, desenvolveu uma técnica inacreditável, e se transformou no maior guitarrista da história. Abandonou a vida cedo, e tornou-se imortal.

Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison morreram aos 27 anos, num intervalo de um ano entre 1970 e 1971. E isso, obviamente, alimentou teorias conspiratórias as mais diversas. Oficialmente, a então namorada Monika Dannemann encontrou Jimi morto num quarto de hotel em 18 de setembro de 1970. Ele havia ingerido nove pílulas para dormir e vinho tinto (quase uma sobremesa para os padrões de loucura do rock da época!) . A autópsia revelou asfixia pelo próprio vômito. Depois, Monika mudou a versão da morte várias vezes. E, para completar a teoria da conspiração, em 2009, o ex-roadie James “Tappy” Wright escreveu um livro onde afirmava Hendrix foi assassinado pelo empresário.

Jimi Hendrix foi gauche na vida. Na verdade, ele foi o próprio anjo torto da música...

domingo, 22 de agosto de 2010

Detalhes nos tempos do cólera


Na grande obra "O amor nos tempos do cólera", Garcia Márquez faz uma reflexão sobre as escolhas da vida. E sobre a importância das pequenas cumplicidades, numa espécie de "Detalhes" em prosa longa...

Florentino Ariza era um jovem tímido que passava seus dias devorando livros. Mas sua vida muda ao ver a bela Fermina Daza, que desperta nele uma enorme paixão. Inseguro, Florentino a observa sem coragem de abordá-la, e começa a escrever longas cartas que nem sabe se serão lidas. Um dia, consegue fazer chegar a ela uma das cartas. De início, Fermina se sente confusa com a aparição repentina, mas logo se empolga pela descoberta de um mundo novo. Trocaram cartas que transbordavam um "incêndio de amor". Mas, apesar das declarações mútuas, Florentino se sentia inseguro em dar um passo adiante, pois ela era a herdeira de uma rica família, enquanto ele era apenas um aprendiz dos Correios sem meios para lhe garantir um futuro. Depois de dois anos de cartas, num mês de agosto, Florentino decidiu contrariar seu hábito de escrever cartas de dezenas de páginas, e num único parágrafo pediu Fermina Daza em casamento. Fermina, "num medo pânico, desabafou com a tia, que enfrentou a confidência com valentia e lucidez:
"Responda a ele que sim. Ainda que você esteja morrendo de medo, ainda que depois se arrependa, porque seja como for você se arrependerá a vida inteira se disser a ele que não."
Ela chegou a dizer-lhe que sim, mas voltou atrás pela pressão do pai e das convenções sociais. Apesar de triste, logo conheceu o promissor médico Juvenal Urbino, e nele viu a segurança de que precisava para ter a sua família. Com ele passou 50 anos. Teve filhos, netos, viajou o mundo e, acreditava, teve felicidade. Mas, no dia em que ficou viúva, recebeu a visita de Florentino, agora presidente da Companhia Fluvial do Caribe, e que nunca a esquecera. Nos dias seguintes percebeu que a imagem do marido que julgava perfeito desaparecia como se nunca o houvesse conhecido, enquanto "tomava consciência de que havia em sua vida um fantasma atravessado que não lhe dava um minuto de sossego". Então, teve a certeza de que havia construído a vida que sempre sonhara... mas com a pessoa errada. E decidiu viver os anos que lhe sobravam com aquele que sempre deveria estar ao seu lado. Fermina descobriu que a felicidade que possuiu no contexto geral de sua vida não era maior que a felicidade que continha os pequenos detalhes de suas confissões com Florentino. Fermina não ouviu seu coração, nem ouviu Roberto Carlos:
Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito tempo em sua vida eu vou viver...

Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido
Palavras de amor como eu falei, mas eu duvido
Duvido que ele tenha tanto amor
E até os erros do meu português ruim

À noite envolvida no silêncio do seu quarto
Antes de dormir você procura o meu retrato
Mas da moldura não sou eu quem lhe sorri
Mas você vê o meu sorriso mesmo assim

Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada
Do tempo que transforma todo amor em quase nada
Mas "quase" também é mais um detalhe
Um grande amor não vai morrer assim
Por isso de vez em quando você vai lembrar de mim...
Não adianta nem tentar me esquecer

Como disse o arquiteto Mies van der Rohe: Deus habita os detalhes.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Jim, Rock e Rimbaud


Terça-feira, 13 de julho, foi comemorado o Dia do Rock. Eu passei um dia pensando em algo para escrever sobre isso, mas cheguei à conclusão de que seria difícil falar das bandas que gosto num espaço curto. E nem consegui eleger uma banda que sintetizasse tudo. Quase elegi a banda americana The Doors, mas desisti. Aí ontem, 14 de julho, a Festa Nacional da França, eis que ligo a tv e me deparo com um documentário sobre Jim Morrison, vocalista do The Doors, que morreu justamente em Paris. Pronto. Defini. São eles.
The Doors, sem dúvida, mudou meu conceito de música. Era composta por um guitarrista de música flamenca, um tecladista clássico, um baterista de jazz, e um vocalista que queria ser poeta e que era a própria síntese do rock: Jim Morrison. Jim dizia ter presenciado a morte de índios numa estrada do Arizona aos 5 anos. O espírito de um xamã teria incorporado nele e, a partir de então, passou a se proclamar o Lagarto Rei. Estudante de cinema, montou a banda, fez sucesso, virou o galã queridinho da América, se envolveu com um sem número de mulheres em festas loucas, usou todas as drogas possíveis, foi preso e condenado algumas vezes, e escreveu músicas que conseguiram juntar Sóflocles, jazz e LSD. Tudo isso antes dos 25 anos. Aos 26 anos, largou tudo e foi morar em Paris para escrever poesia. Aos 27 anos, em 1971, foi encontrado morto na banheira de seu apartamento. Apenas sua namorada, um amigo e alguns médicos viram o corpo. Não houve necropsia. A causa da morte não foi detectada. A notícia só chegou aos EUA depois que ele já estava enterrado. Por tudo isso, paira sobre ele lenda semelhante à de Elvis. Jim não morreu. Ele teria forjado a própria morte e fugido, como fez Rimbaud ao trocar os poemas pelo tráfico de armas no Marrocos. Segundo amigos, Jim sempre dizia que queria ser Rimbaud, pelos textos e pela fuga.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O anão e a pulga



Não tem como falar de outra coisa. O assunto dos próximos 40 dias é a Copa do Mundo. Ontem foi divulgada a lista dos nossos 23 jogadores. Em 2006 nossa seleção era espetacular, a nata do futebol mundial. Um time galáctico comandado pelo então extraterrestre Ronaldinho. Só que a vitória era tão certa que o pessoal resolveu comemorar antes e deu no que deu. Ou melhor, deu no que não deu. Hoje, nosso time não tem nada de espacial, muito menos de especial. E o E.T. está do outro lado: Messi. Enquanto o nosso anão Dunga optou pelas formigas operárias e dedicadas, o anão Maradona optou pela cigarra. Ou, como chamam os argentinos, escolheu La Pulga Messi. E o pior é que eu gosto tanto de futebol que torço pra esse cara fazer uma grande Copa. Seja lá no que isso der...
Então, vai aí em cima o vídeo da maior atração da Copa, que infelizmente não veste camisa amarela. E ao som de Rearviewmirror, do Pearl Jam! Comprei este disco com uns 13 anos, e quando ouvi essa música descobri que o grunge rock ia além do Nirvana.

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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