Mostrando postagens com marcador arte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador arte. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

À luz das sombras de Caravaggio


Está no Masp até 30 de setembro a exposição "Caravaggio e Seus Seguidores", que reúne obras do famoso e polêmico artista italiano e dos chamados “Caravaggescos”, pintores que deram continuidade à estética marcante de Michelangelo Merisi da Caravaggio.

Caravaggio ficou célebre por alcançar a excelência no uso da técnica chiaroscuro, e por obras com temas religiosos mas retratadas de uma maneira chocantemente humana. E ainda era uma espécie de rockstar da época, beberrão, imprevisível, metido com brigas de bar e insultos a governantes. Foi preso, expulso da cidade, acusado de homicídio, perdeu tudo... Enfim, a vida dele dava um outro longo texto. Fiquemos na obra, então.

Para mostrar a tensão entre o humano e o sagrado, Caravaggio utiliza o chiaroscuro, do italiano claro-escuro, para criar volumes. As telas possuem um denso fundo escuro de onde emanam as formas banhadas por uma luz intensa, dramática, que revela apenas o necessário. Esta técnica é magistralmente utilizada na tela "São Jerônimo Que Escreve", que retrata o trabalho de São Jerônimo em traduzir a Bíblia hebraica para o latim, criando uma versão mais acessível, conhecida como Vulgata, a Bíblia Definitiva. Essa tradução foi importantíssima para a expansão da Igreja Católica Romana, pois a partir dela surgiram as versões em línguas populares. Essa é a metáfora pintada por Caravaggio: um São Jerônimo que emerge das trevas e, iluminado, produz a Bíblia que deixa as obscuras línguas antigas para vir à luz pelo latim, o que, também, livrará do lado negro da força as almas daqueles que aceitarem a Palavra. Mas, contrastando com tarefa tão sagrada, está um homem que mostra sua fragilidade humana num corpo velho e frágil, cuja santidade é espreitada pela caveira da morte.

Em Caravaggio, luz e sombra são elementos opostos e complementares, uma dualidade que representa essa angústia de estar vivo. Afinal, se tudo fosse luz, não haveria contorno, e tudo ficaria sem definição, sem forma, monótono e sem sentido. Do mesmo jeito seria se tudo escuro. É na tensão entre estes elementos que se revela a vida como ela é.

Nossa existência se mostra, então, demasiada humana, nesse equilíbrio de extremos. O SCURO intenso, sufocante, que torna os caminhos incertos, e que nos angustia por parecer sem fim. Mas que cede, do nada, à beleza sincera da vida. Porque, de repente, CHIARO...

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Como Didi Mocó desconstruiu a arte contemporânea.


Na Inglaterra dos anos 90, uma geração de artistas foi denominada os "Young British Artists", a nova turminha-do-barulho das artes plásticas britânicas. Dentre esses novos talentos, um era tido como o líder: l'enfant terrible Damien Hirst. Mas, de menino prodígio, Hirst se tornou um coringa, ao invés do herói. E, como a grande maioria dos artistas cotemporâneos, ele gosta da polêmica, da controvérsia, e está mais preocupado na construção do branding do que na produção da obra em si. 

Em 1917, Duchamp fez a sua versão artes plásticas do "proletários de todo o mundo, uni-vos!". E, assim como a outra revolução, o troço não deu muito certo e terminou em colapso, deixando órfãos uma legião de pensadores que não veem que conceitos delirantes não conseguem se materializar em boas coisas no mundo real. Exposto o urinol como protesto no Salão dos Independentes de Nova Iorque, Duchamp lançou seu conceito de ready made, onde a obra não era uma produção do artista, mas uma peça industrial comum deslocada do seu contexto ordinário. Esse, digamos, estilo foi chamado de "apropriação". Então, qualquer coisa poderia ser transmutada em objeto de arte pelo simples deslocamento do uso comum. Praticamente uma alquimia, transformando latão em ouro. Bastava tirar o mictório da Comercial Ramos e colocá-lo no Museu de Arte Moderna e pronto! Fez-se a luz! 

Curiosamente, ainda hoje figuras como Damien Hirst e Jeff Koons se utilizam desses truques, quase 100 anos depois! Hirst já expôs como obra prateleiras cheias de pílulas médicas. Koons pegou bichos infláveis de piscina, como golfinhos e lagostas, e pendurou no teto da galerias. Muitas vezes nenhum dos dois sequer toca nas obras. Funcionários executam a montagem. Eles só pensam essas coisas (pelo menos é o que dizem). Tudo isso, claro, acompanhado de textos tão rebuscados quanto sem sentido explicando o sei-lá-o-quê das obras. 

Assim, a arte passa a ser qualquer coisa decretada como arte, numa metodologia autoritária e sem sentido bem condizente com revoluções de 1917... E por que só alguns alçam o estrelato, já que todos podem fazer arte? Porque, assim como na outra revolução, todos são iguais, mas uns são mais iguais do que outros... 

Em 1975, Tom Wolfe, no ótimo "A Palavra Pintada", apontou como esse é um conceito absurdo, e escreveu: "O que via diante de mim era o crítico-chefe do New York Times dizendo, na observação de uma pintura, hoje, carecer de uma teoria convincente é carecer de algo crucial". Ou seja, a própria crítica admite que de nada vale o objeto em si, mas sim a historinha que o artista conta pra tentar fazer daquilo alguma coisa. 

Mas, quem melhor criticou esse conceito que faz o tudo e o nada serem arte, desde que ungidos como tal, foi o maior personagem humorístico da história brasileira (na minha opinião): Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgina Mufumbo! Numa esquete, Didi é o caixa de um mercadinho e vai atender Chico Anysio, o próprio (se o programa tivesse a pretensão de arte, os críticos babariam pela metalinguagem dialética entre o real e o fictício...). Empolgado em ver o ídolo, Didi bajula Chico como se não houvesse amanhã. Lá pelas tantas, pergunta: "Chico, poderia me dar um pornógrafo?". E Chico: "Autógrafo, sim, claro. Tem caneta?". Então, eis que Didi subverte a lógica e questiona toda a relação entre o valor em si da coisa e o valor atribuído pela intenção, disparando: "Tô sem caneta, mas escreve aqui na máquina", e saca uma máquina de escrever. Incrédulo, Chico pergunta: "Autografar a máquina?". E Didi, mais fundo na subversão dos valores, explica: "Chegar em casa eu passo a limpo.". E, pra finalizar, ainda comenta: "Muito bonita sua letra. É igual à dos livros que eu leio"! Nesse diálogo genial, de alguns poucos segundos, Didi resume a grande questão da arte atual: a arte se valida pelo valor em si da obra produzida como arte, ou pode ser validada por novas qualidades atribuídas a algo que antes não tinha valor algum? 

Essa é a valor de uma obra de arte atual: um autógrafo a máquina passado a limpo. O problema é que, à diferença de Didi, esses troços nem graça têm...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Crônica de uma sorte embriagada

"No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo".

Assim começa o livro "Crônica de uma morte anunciada", de Gabriel Garcia Márquez. Logo de cara, já sabemos que Santiago Nasar vai morrer. Resta saber como isso vai acontecer. E, aí, temos a história. De início, as coisas vão acontecendo sem fazer tanto sentido, nos perdemos pela falta de familiaridade com os lugares, as pessoas. Mas, aos poucos acontecem os encontros, os desencontros, as coisas vão se encaixando, fazendo sentido, até chegarmos à cena final da morte.

Em "Se beber, não case 2", temos algo parecido. Desde sempre já sabemos o início e o fim, só nos resta entender como os extremos se conectam. Mas, à diferença do primeiro filme, a graça não está na surpresa, mas na repetição. A sequência de fatos é a mesma: acordar sem lembrar de nada, achar um animal, uma pessoa desconhecida, perder um amigo, e sair juntando os cacos pra tentar montar o quebra-cabeças.

No primeiro filme, a comédia está na surpresa, na sucessão de fatos inusitados, mais do que em diálogos ou ações isoladas. Neste segundo filme, como já conhecemos o enredo, restou ao realizadores a ênfase no humor pontual. E aí se destacam a presença de um macaco politicamente incorreto e de situações de cunho sexual que, com certeza, vão gerar polêmica. A dose pode ter sido exagerada, mas a fórmula é clássica, tanto que foi analisada por dois grandes pensadores: Bergson e Freud.

Henri Bergson, no seu "O Riso", teoriza a fundo o Risível, como é chamado o humor na filosofia estética da arte. Bergson diz que não existe Risível fora do campo humano: "Não há cômico fora daquilo que é propriamente humano. Uma paisagem poderá ser bela ou feia: não será, nunca, risível. Nós poderemos rir de um animal, mas porque se terá surpreendido nele uma atitude de homem ou uma expressão humana". Acho que, pelo texto, Bergson acharia graça de um macaquinho com uma jaqueta jeans dos Rolling Stones bebendo, fumando e cheirando...

Já Freud... bem, aquela coisa de sempre. Na juvetude seus textos eram de uma profusão hormonal... depois de velho ele até reviu alguns. Deve ter sido o efeito da andropausa. Mas, voltemos ao assunto. Quando jovem, Freud dedicou-se um pouco ao Risível. E, qual foi sua tese? Lá vai: "nós rimos quando um complexo sexual reprimido se exprime simbolicamente num momento de distração ou num termo equívoco, e quando nos apercebemos bruscamente da significação sexual profunda sobre a forma simbólica". Resumindo: piadas de duplo sentido, ou de um sentido só mesmo. Freud, certamente, gostaria da cena em que o macaco simula fazer.... Bem, deixa pra lá. Quem vir o filme saberá.

Assim como o livro de Garcia Márquez, o filme se valida pelo miolo. Afinal, todos já sabemos o início e o fim. Resta, apenas, degustar o miolo.

"Depois, [Santiago] entrou na casa pela porta dos fundos, que estava aberta desde as seis horas, e desabou de bruços na cozinha". Fim.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O pagode do herói doido, Tom Wolfe e Chico Buarque

A banda de pagode LevaNóiz (é assim mesmo que escreve, acreditem) é destaque na edição dessa semana da revista Época. Sei lá o motivo, aparece na parte de cultura. Segundo o jornalista que escreveu a matéria, o hit "Liga da Justiça" vai dominar o verão brasileiro. E na matéria de três páginas o cara tenta justificar o inexistente.


Tom Wolfe, expoente do new journalism americano, é um crítico ferrenho. Com textos ágeis, ácidos e em linguagem informal, ficou célebre, entre outros, com livros e artigos que criticavam o deslumbramento com os delírios da arte contemporânea. No ótimo "A palavra pintada", fala de como a teoria passou a justificar a arte. Em um dos trechos, diz: "A arte se tornou inteiramente literária: as pinturas e as outras obras só existem para ilustrar o texto".

Pois o jornalista da Época resolveu escrever o texto que será ilustrado pelo LevaNóiz. Depois de chamar o pagode de "gênero maior do Carnaval baiano" (é quase Umberto Eco falando do Barroco italiano) que mistura o samba tradicional com com o "uso expressivo da percussão", ele diz que a música "Liga da Justiça" é uma mistura de cultura pop com Carnaval baiano. E, para espanto dos que se impressionaram com a complexidade do enredo, diz que "não foi um roteirista de desenho animado quem inventou a situação. Foi o compositor brasileiro J.Telles". Pois é, para quem achava que era ideia de uma equipe de roteiristas geniais da Marvel Comics e da Pixar, uma grande surpresa! E, óbvio, o genial compositor foi ouvido. Tão eloquente quanto o jornalista, disparou: "queria falar de uma coisa diferente, e o Márcio Vitor (co-autor) deu a ideia de tratar da amizade". Realmente, nunca antes na história desse país a amizade foi tratada de maneira tão original.

Pra quem teve a sorte de não ter ouvido a grande obra e está curioso, segue quase toda a letra da música:
Superman ficou fraco
O Pinguim jogou criptonita
Lex Luthor e Coringa
Roubou o laço da Mulher Maravilha
Pois é... o enredo é tão complexo que os inimigos, além de roubarem o laço da Mulher Maravilha, também roubaram o plural.

Se esses serão os heróis do verão, só resta fazer como Chico Buarque: "Chame o ladrão!".

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Elogio de Vargas Llosa


Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel de Literatura! Sem dúvidas, o prêmio está em boas mãos. E, para mim, não só pela sua obra literária. Numa América do Sul onde a maioria dos intelectuais não conseguiu se desvencilhar das ilusões utópicas de décadas passadas, Vargas Llosa conseguiu ser uma voz destoante, que não é complacente com ditadores por causa da direção das suas idéias, e não vê o populismo barato como uma representação realmente popular. Voltando à literatura, semana passada li o "Elogio da madrasta", uma curta novela, digamos, erótica, encomendada por um amigo. E o "digamos" se deve à destreza de Llosa em optar por trocar imagens explícitas por referências elegantes e, por isso, muito mais instigantes. O livro é um misto de clichês desconstruídos e (típico de Llosa) inserções de arte. A história principal é intercalada por capítulos que são mini-contos sobre pinturas clássicas que têm a ver com as etapas do enredo, com direito a imagens dos quadros. Tudo se desenrola em torno da relação pai-filho-madrasta, mas com inversão do senso comum destes tipos, e ênfase na na parte lúdica dos desejos, em vez de focar nas ações. A madrasta não é uma bruxa, é uma linda mulher de 40 anos. O filho é louco pela madrasta. E o pai tem um ótimo relacionamento com ambos e, de nenhuma forma, é ausente com a esposa. Na relação de (pseudo) incesto entre a madrasta e o menino, a vítima é a mulher, e não a inocente criança. E é no menino Fonchito que a alusão à outras culturas é clara: ele é loiro, olhos azuis, cabelos cacheados, como o próprio Eros, deus do Amor, filho do deus da Guerra e da deusa da Beleza. A madrasta, então, é só uma simples mortal acuada pela força superior divina.

Mario Vargas Llosa conseguiu transformar o que poderia ser uma pornochanchada numa divertida história onde a única coisa realmente explícita é a beleza da arte.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Bienal, urubus e ex-BBBs

Foto: Daigo Oliva/G1
"Um dos problemas da arte contemporânea é que certos artistas andam tendo 'idéias' demais e se querem 'inteligentíssimos'. Sejamos modestos. 'Idéias' não são para todo mundo. Deus, por exemplo, teve uma. Depois se arrependeu, aí mandou um dilúvio para desmanchá-la, depois tentou consertá-la, mandando seu filho para dar um jeito e até hoje tenta corrigi-la".

Esse é um trecho do excelente livro "Desconstruir Duchamp", de Affonso Romano de Sant'Anna. E, em tempos de Bienal, é bem apropriado. O artista Nuno Ramos está expondo uma dita obra que consiste numa gaiola gigante com dois urubus. Perguntado a respeito, ele disse que acha que poderia ser interpretada como uma crítica política. Pois é... nem ele sabe por que diabos uma gaiola com urubus está num museu, e não num zoológico. A arte contemporânea virou uma grande peça publicitária, onde o que importa é gerar repercussão. E, sendo assim, nada melhor do que criar polêmica. Essa é a palavra-chave dessa nova arte: polêmica. Já teve gente expondo toneladas de terra, expondo dois caminhões de lixo, paredes vazias, cartões de ponto, uma cama, um video de 8 horas com o cara dormindo... Enfim, o importante é gerar polêmica, aparecer nos meios de comunicação, ter um empresário, um assessor de imprensa, e ganhar uns trocados para aparecer em eventos. Resumindo, ser artista contemporâneo é o mesmo que ser um ex-BBB...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A BieNada e a minha previsão


Em 2008, 40 pichadores invadiram a Bienal (que eu chamo carinhosamente BieNada), e fizeram o que eles chamam de arte-protesto-manifesto... enfim, picharam. À época, escrevi:
Há um andar inteiramente vazio na Bienal de São Paulo. Os curadores inventaram uma teoria mirabolante, mas na verdade faltou grana pra encher todo o prédio. Na abertura, um grupo pichou a área vazia e quebrou alguns vidros. Realmente, um absurdo! Não pode chegar na Bienal e fazer isso assim, de repente. Antes, tem que escrever um não-manifesto-anti-conceito explicando que a intervenção-performática é a neo-construção-da-arte-pela-desconstrução-do-vazio. Aí, sim. Se fizessem isso, além de chamados para as próximas exposições, poderiam pedir um patrocínio do Ministério da Cultura.
E agora, o que aconteceu?! Os pichadores criaram uma bobajada teórica e foram chamados a expor! Acertei na mosca! Um dos intelectuais dessa neo-arte filosofou o seguinte:
“O conceito de arte é distorcido. Só é arte o que é bonito ou autorizado. A arte do ‘pixo’ é libertária, anárquica. Os muros e portões para fora da casa são públicos. A gente vê beleza no que faz. Tudo é privado e somos obrigados a engolir propaganda de consumo e política. Pichação é linguagem também.”
Não vou me estender, é só uma análise rápida:
1- Primeiro ele diz que o conceito de arte é distorcido por se basear em beleza. Logo depois ele justifica sua suposta arte dizendo que vê beleza no que faz.
2- Ele fala que o tal "pixo" é anárquico, mas faz questão de dizer que muros "para fora da casa" são públicos! Independente da complexidade desta nova teoria sobre propriedade privada e espaço urbano, ele se faz de vítima argumentando que tudo é privado, e que (não sei o que uma conjunção aditiva faz entre estas coisas) somos obrigados a engolir propaganda de consumo, seja lá o que isso signifique. Ou seja, como tudo é privado, ele é anárquico invadindo o público! Que coisa...
3- Quanto àa pichação ser linguagem... bom, acho que a foto aí em cima, do evento de 2008, mostra o quanto o pessoal sabe de linguagem. Sabem tanto que até inventaram uma língua própria, que difere um pouco da língua portuguesa...

Enfim, uma pessoa com essa capacidade de organizar idéias só poderia produzir o tal do "pixo". E, para os que se dizem admiradores da arte contemporânea, deixo uma pergunta: Se você vir o tal artista fazendo uma intervenção urbana anárquica no muro de sua casa, você chama a polícia ou convida ele pra tomar um café como agradecimento pela obra?!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Jim, Rock e Rimbaud


Terça-feira, 13 de julho, foi comemorado o Dia do Rock. Eu passei um dia pensando em algo para escrever sobre isso, mas cheguei à conclusão de que seria difícil falar das bandas que gosto num espaço curto. E nem consegui eleger uma banda que sintetizasse tudo. Quase elegi a banda americana The Doors, mas desisti. Aí ontem, 14 de julho, a Festa Nacional da França, eis que ligo a tv e me deparo com um documentário sobre Jim Morrison, vocalista do The Doors, que morreu justamente em Paris. Pronto. Defini. São eles.
The Doors, sem dúvida, mudou meu conceito de música. Era composta por um guitarrista de música flamenca, um tecladista clássico, um baterista de jazz, e um vocalista que queria ser poeta e que era a própria síntese do rock: Jim Morrison. Jim dizia ter presenciado a morte de índios numa estrada do Arizona aos 5 anos. O espírito de um xamã teria incorporado nele e, a partir de então, passou a se proclamar o Lagarto Rei. Estudante de cinema, montou a banda, fez sucesso, virou o galã queridinho da América, se envolveu com um sem número de mulheres em festas loucas, usou todas as drogas possíveis, foi preso e condenado algumas vezes, e escreveu músicas que conseguiram juntar Sóflocles, jazz e LSD. Tudo isso antes dos 25 anos. Aos 26 anos, largou tudo e foi morar em Paris para escrever poesia. Aos 27 anos, em 1971, foi encontrado morto na banheira de seu apartamento. Apenas sua namorada, um amigo e alguns médicos viram o corpo. Não houve necropsia. A causa da morte não foi detectada. A notícia só chegou aos EUA depois que ele já estava enterrado. Por tudo isso, paira sobre ele lenda semelhante à de Elvis. Jim não morreu. Ele teria forjado a própria morte e fugido, como fez Rimbaud ao trocar os poemas pelo tráfico de armas no Marrocos. Segundo amigos, Jim sempre dizia que queria ser Rimbaud, pelos textos e pela fuga.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O twitter de Nietzsche


Segundo o Houaiss, aforismo é uma "máxima ou sentença que, em poucas palavras, explicita regra ou princípio de alcance moral; texto curto e sucinto, fundamento de um estilo fragmentário e assistemático na escrita filosófica". Estes textos curtos foram usados por Hipócrates na clássica obra médica Os Aforismos, de fins do séc.XVI. Apesar da palavra derivar do grego aphorismós, este título só apareceu muito tempo depois, em III d.C, por influência dos eruditos alexandrinos, que já conheciam a derivação latina aphorismus. No Japão, há um estilo poético chamado haikai, onde os poemas são concisos e compostos de três curtas linhas. A filosofia alemã é famosa pelos textos longos, complexos e prolixos de Kant e Hegel. Mas, contrariando o estilo germânico, Nietzsche expôs grande parte de suas idéias através de aforismos, como este, de A Gaia Ciência: "o vencedor nunca acredita no acaso". Hoje, muito se fala de microcontos e livros produzidos a partir do twitter, a chamada twitteratura, composta de fragmentos de texto de até 140 caracteres. E muitos debatem sobre a validade das restrições do twitter como um estilo literário. Enfim, este debate pós-moderno já foi respondido. Basta ler o twitter de Nietzsche.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Os roubos de Picasso


Cinco quadros foram roubados durante esta madrugada do Museu de Arte Moderna de Paris. Entre elas estão obras de Picasso, Matisse, Braque e Léger avaliadas em 500 milhões de euros! Há quase 100 anos, em 21 de agosto de 1911, o roubo de outra grande obra de arte também envolvia o nome de Picasso. Mas ele não era o autor da obra... era o autor do roubo! E a obra era, apenas, a Mona Lisa! O quadro mais famoso do mundo foi roubado do Louvre num dia que não há visitação pública. Ninguém testemunhou o crime, e o mistério ganhou ares de literatura policial. A investigação foi comandada pelo Chefe do Departamento de Investigação Alphonse Bertillon, um homem tão famoso na época que foi considerado o maior especialista na solução de crimes do mundo, alcunha dada por Sir Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes. Para surpresa de todos, Picasso foi considerado um dos principais suspeitos. E o resto da história é sensacional. Quem quiser saber como terminou, é só ler o livro “Roubaram a Mona Lisa” (L&PM), da escritora americana R. A. Scotti.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Let It Beatles



Em 8 de maio de 1970 foi lançado o último álbum dos Beatles: Let It Be. A banda já havia acabado oficialmente um mês antes, transformando o disco numa espécie de obra póstuma. Inicialmente, iria se chamar Get Back, e era uma tentativa de Paul em, digamos, refundar os Beatles. Após o álbum branco, as coisas não iam bem. John era uma máquina de consumir heroína e LSD, e estava querendo seguir carreira solo com o apoio de Yoko Ono. George estava avesso à fama e mergulhado nas religiões indianas, com direito a longas meditações e aulas de cítara. Ringo... bem, Ringo era aquela coisa mais ou menos de sempre, tava lá mas não tava. E Paul ainda queria, e muito, ser parte da maior banda da história. Mas as coisas não foram bem, as gravações se arrastaram aos trancos, e a banda acabou antes da produção do disco. Aí, em vez de Get Back, foi chamado de Let It Be. E, até hoje, 40 anos depois, os Beatles se deixam ser...
Acima tem o video de Across the Universe, uma de minhas favoritas do disco, na versão de 2002 de Rufus Wainwright. O clipe é bem legal e faz alusão ao quadro abaixo, pintado em 1953 pelo surrealista René Magritte.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Arte de guerrilha

Foto: John MacDougall/AFP

A escultura acima foi posta em frente ao Museu Judaico de Berlim para divulgar uma exposição que trata da origem judaica dos maiores criadores de histórias em quadrinhos. A obra, intitulada 'Até os super-heróis têm seus dias ruins', é muito bem humorada. E, como toda arte contemporânea, tem seu lado publicitário. Afinal, o contexto da obra faz toda a diferença para o seu valor. Na verdade, ela exerce muito mais a função de peça de marketing de guerrilha do que de obra artística. O seu objetivo é chamar a atenção, notícia, comentário. Ou seja, é tão somente um outdoor num formato inusitado. E, como tal, é muito bom.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Viva a Gripe Suína


O Governo Federal está preocupadíssimo com a suposta epidemia de gripe suína. Tanto que gastou sei lá quantos milhões de reais para comprar a vacina. Neste ano, até o dia 9 de abril, foram registradas 50 mortes pela doença em todo o Brasil. Só em Salvador, no mesmo período, foram 444 homicídios. Ou seja, em vez de uma injeção no braço, deveriam distribuir coletes à prova de bala. Seria muito mais útil. Andar por Salvador me faz sentir a sensação de estar no quadro "O 03 de maio", de Goya, pintado em 1808. A obra retrata a brutalidade dos pelotões de fuzilamento no período de guerra. Na população executada, Goya exibiu os rostos de desespero e dor. Já no pelotão, não há rostos. Há apenas a impessoalidade da morte. É como Salvador. Não se sabe de onde virá o tiro, apenas sabemos que ele virá. Antes o problema de Salvador fosse a gripe. Viva a gripe suína...

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A arte por um hífen 2

Foto: Carl de Souza, AFP

Da Agence France-Presse:
Uma instalação batizada de "Art bin" (em português, "lixeira da arte") foi criada pelo artista britânico Michael Landy em uma galeria do sul de Londres, na Inglaterra. Trata-se de um grande contêiner pronto para receber o arremesso de obras de arte pelos seus visitantes. Durante a exibição, vários artistas foram convidados e jogarem ali obras de arte inacabadas ou rejeitadas.
Pois é... Bem que eu disse no post anterior que a arte está por um hífen. O que este cara chama de arte é uma lixeira gigante cheia de obras que não foram consideradas de valor artístico. Ou seja, ele diz fazer arte juntando um monte de não-arte. É como fazer uma feijoada utilizando não-alimentos. Ou alimentos podres. Bom, pensando nesta comparação, melhor que ele continue se dizendo artista...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A arte por um hífen

Uma escultura de Rebecca Warren

A arte não está por um fio. Está por um hífen mesmo. Vou explicar. Antes, leiam este trecho publicado pelo site G1:
A artista londrina Rebecca Warren, que concorre neste ano a um dos prêmios mais badalados da arte contemporânea, o Turner Prize, na Inglaterra, acaba de criar uma instalação que leva o que o público leigo chamaria de "lixo". São restos que ela encontrou no chão de seu ateliê e da rua onde ele fica.
Pois é... Percebam o detalhe mais importante da matéria, a palavra "leigo". Ao classificar o público desta maneira, os artistas criam uma blindagem contra críticas. Afinal, você só enxerga o lixo porque é leigo. Logo, sua cara feia é ignorância. Esse é o truque da arte atual. O importante não é o que está exposto, é a explicação do artista. É como um placebo, onde o importante é a bula. Como é vazia de valores próprios, apóia-se nas longas teorias incompreensíveis. Ou seja, tudo muito vazio e muito prolixo. Prolixo, mas bem poderia ser pró-lixo. A arte precisa de uma reforma ortográfica urgente. Ela está por um hífen...

quarta-feira, 3 de março de 2010

Drogaria Contemporânea


A ONU está fazendo uma campanha mundial para arrecadação de fundos que ajudarão a combater a AIDS, a malária e a tuberculose na África. Para isso, várias empresas e organizações vão vender/leiloar produtos em prol da causa. No jogo da Seleção Brasileira, na terça-feira, a bola, os cadarços das chuteiras, as redes e os agasalhos dos jogadores eram vermelhos em alusão ao nome da campanha - (RED). Isso vai acontecer em mais 4 amistosos internacionais de seleções, e depois esses itens serão leiloados. A famosa casa de leilões Sotheby's também aderiu à campanha, colocando à venda peças dos mais badalados artistas contemporâneos por precinhos bem camaradas. Uma das peças é essa simpática grade metálica com sei-lá-quantas pílulas presas. Produzido pelo famoso Damien Hirst, essa vitrine de farmácia pode ser sua pela pechincha de U$ 7.000.000,00. É isso aí. Cada doido tem o remédio que merece...


segunda-feira, 1 de março de 2010

Van Gogh e a Mega Sena


A semana passada revelou a história de alguns azarados sortudos. Aqui no Brasil, um grupo de apostadores já sonhavam com a nova vida de milionário quando descobriram que o bilhete premiado não havia sido registrado. Em Amsterdã, especialistas reconheceram uma tela como sendo uma obra de Van Gogh. O quadro pertencia a Dirk Hannema, diretor de um museu local, que o adquiriu em 1975 e desde então brigava pelo seu reconhecimento. Mas o cara que teve a sorte de descobrir um Van Gogh e comprá-lo por meros 35 mil euros também não vai levar o dinheiro da loteria: ele morreu em 1984! Se vivo fosse, poderia sonhar com uma bolada bem alta. Na última vez que um Van Gogh foi a leilão, em 1990, foi arrematado por US$ 100 milhões...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Arte contemporânea e MST


Jeff Koons é um dos mais consagrados (seja lá o que isso signifique) artistas contemporâneos. Além de ter casado com uma famosa atriz pornô, Koons é adepto da técnica (?!) denominada "apropriação". Para os teóricos, a justificativa é que o objeto em si não é a obra de arte, mas sim a intenção do artista. Sendo assim, copiar uma obra seria mostrar o mesmo resultado, mas com outra intenção. Mas, para o mundo real, a explicação é mais simples: Apropriação é uma espécie de MST das artes. O cara pega o que não é dele, os teóricos do movimento justificam a pilhagem de maneira pomposa, e o crime vira ação de vanguarda. Mas, nem sempre dá certo. Em 1988, Koons copiou uma foto e a expôs como sua. Só que o dono da foto não era muito dado aos devaneios da nova arte e processou o artista. Resultado: Jeff Koons foi condenado por violação de direito autoral, pagou uma multa alta, e decidiu fazer obras mais "complexas", como essas duas bóias infantis penduradas...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Marinetti ou marinete?!

Marinetti em seu automóvel


As declarações do prefeito sobre o problema dos carros em Salvador está gerando o maior quiprocó. E, isto me lembrou outra declaração polêmica sobre automóveis, também em fevereiro, mas num distante 1909. O Manifesto Futurista foi publicado no jornal francês Le Figaro. Escrito pelo poeta italiano Filippo Marinetti, exaltava a velocidade da vida urbana e as novas tecnologias industriais. O fascínio de Marinetti pelos carros era tão grande que ele declarou: "Um automóvel de corrida rugindo é mais belo que a Vitória de Samotrácia", numa alusão à famosa escultura da deusa grega Nike, atualmente exposta no Louvre. E, curiosamente, na Bahia a paixão de Marinetti pela urbanidade foi homenageada batizando os ônibus de marinete, como aquela de Tieta! Então, fica a ironia: o dilema entre o transporte individual e o transporte coletivo é, de certo modo, questionar: Marinetti ou marinete?!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Escultura, tulipas e Facebook


Arte serve para quê? E, quanto custa? São questões eternas. Atualmente, ainda há a questão incomoda "o que é arte?". Ou "o que não é arte", como preferia Duchamp. A escultura em bronze "L'Homme Qui Marche I ", do suíço Alberto Giacometti, tornou-se a mais cara obra de arte vendida em leilão. A peça foi arrematada por módicos US$ 104,3 milhões, ultrapassando o recorde anterior de Picasso com o quadro "Garçon a la Pipe". Muitos se espantam com os altos valores do mercado da arte. Mas, na verdade, a arte é apenas o caso superlativo do que vemos todo dia: o preço da convenção. Status, por exemplo, é uma convenção social temporal. Houve tempo em que era legal ter uma charrete ornamentada ou usar uma enorme peruca branca rococó. E, como era símbolo de poder social, estas coisas custavam caro. Em 1637, a Europa teve uma enorme bolha especulativa quando as tulipas viraram moda. Um único bulbo foi trocado por uma enorme fábrica de cerveja, e outro alcançou o dobro do preço de um Rembrandt. Hoje, um bom exemplo é o Facebook, que está avaliado em US$ 6,5 bi apesar de ninguém saber como ganhar dinheiro com ele. Pois é, vai ver o cara que arrematou a escultura não gosta de tulipas...

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

Voltar ao TOPO