Mostrando postagens com marcador atualidades. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador atualidades. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Feliciano e o mafioso Deus-Pai, o Godfather



Não acredito em religiões. Nenhuma delas. Mesmo na hipótese remota da existência de Deus, religiões são apenas invenções humanas para tentar rotular algo que, por definição, não é cabível de entendimento pleno pelo homem. Como disse Ferreira Gullar "o homem inventou Deus para que Deus o criasse". Ao adjetivar Deus de misericordioso, justo, fiel (nunca entendi o que significa Deus é fiel), o homem reduz a Condição Divina infinita à condição humana restrita. Então, mesmo que haja Deus, isso não significa que alguém tenha procuração para falar em nome Dele ou saiba seus desejos. 

Em The Godfather II, é contada a história de como Vito Corleone se tornou o poderoso chefão. No início do século passado, em uma Nova York cheia de imigrantes italianos, Vito assume o comando do bairro após matar o chefão da área. Assim, impõe a regra de que todos podem voluntariamente contribuir com seus negócios. E, quem não quiser pagar, sofrerá as consequências pela inadimplência. Em paralelo, segue a história de Michael Corleone, filho de Vito e novo chefe da família após a morte do pai. Em uma cena, um capanga de Michael, antes de tentar matar um desafeto tido como traidor, diz: "Michael Corleone manda lembranças". 

Marco Feliciano é, sem dúvidas, o idiota mais popular do momento. E, quando a gente pensa que seu estoque de aberrações chegou ao fim, eis que o Youtube nos mostra que sempre se pode ser mais imbecil. Feliciano já sugeriu ter Caetano pacto com o diabo por mostrar músicas pra "Mãe Menininha do Patuá" (sic) e já lançou a teoria do povo amaldiçoado por Noé, tudo naquele jeito estérico-delirante. Mas, duas passagens são, pra mim, mais representativas dessa modalidade religiosa. Chateado com um fiel que deixou o cartão mas não a senha, o pastor dissse: "depois vai pedir o milgare pra Deus, Deus não vai dar, vai dizer que Deus é ruim". Em outro momento iluminado, numa fase pré-chapinha, Feliciano decidiu teorizar sobre o assassinato de John Lennon com aquele ar típico dos ignorantes que se acham portadores da Verdade. Depois de explicar porque Lennon era coligado do capeta e merecia levar três tiros, fez a singela confissão: "Eu queria estar lá no dia em que descobriram o corpo dele. Ia tirar o pano de cima e ia dizer 'me perdoe, John, mas esse primeiro tiro é em nome do Pai, esse é em nome do Filho, e esse é em nome do Espírito Santo'". E termina gritando que "ninguém afronta Deus e sobrevive para debochar!" 

Assim como os Corleone, o Deus de Feliciano é um mafioso que acolhe quem lhe paga, e assassina quem decide questioná-lo. Um Deus que exige submissão dos coagidos, e que faz questão de usar a brutalidade como um método de adestramento do rebanho. E o pastor é, apenas, o capanga que manda lembranças antes de executar o infiel. 

Para Feliciano, o Deus-Pai é o Godfather. Só que sem o charme de um Corleone...

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O passeio diurno da van, e a barbárie sem limites



A psicopatia é um distúrbio angustiante. Saber que há pessoas propensas a cometer atos os mais cruéis, com a naturalidade de quem quem bebe um copo d'água, causa uma apreensão por revelar o mal que habita as entranhas do ser humano. Algumas características marcantes dos psicopatas são a ausência de culpa e a total falta de empatia com o próximo, ou seja, para ele o outro é apenas um objeto que serve para satisfazer seus desejos, independente quais sejam essas vontades e os métodos utilizados para tal. Como diz uma ótima matéria da revista Superinteressante Especial 267, "[o psicopata] não liga para a dor sentida pelas vítimas. Usa a violência para satisfazer uma necessidade imediata, como o sexo. E, depois do ato, costuma sentir indiferença, prazer ou poder em vez de remorso".

Isso foi o que houve naquelas horas de horror. Os animais sabiam que ali estavam seres humanos, mas não julgavam que o direito deles serem humanos era maior do que seus desejos tortos. Naquele momento, o casal foi desumanizado, rebaixado á condição de coisa, objetos sem importância submissos à vontade dos bandidos. Durante seis horas, dois seres humanos foram transformados em peças de uma brincadeira macabra. Ela, um objeto para satisfazer os instintos sexuais mais grotescos. Ele, um objeto para testemunhar  o poder de oprimir.  Findada a "festa", foram jogados fora em qualquer lugar. Talvez as embalagens vazias de bebidas tivessem merecido maior cuidado ao serem descartadas.

Como não há culpa, os psicopatas não se importam em acobertar seus atos. Seguem a vida normalmente. E, presos, confessam sem maiores preocupações. Como definiu o psiquiatra argentino Luis Alberto Kvitko, "o psicopata tem uma falha de consciência moral. Faz o que quer sem se importar com as consequências". Provavelmente, esses animais, após descartarem o casal, despediram-se como fazem os amigos após um jogo de futebol, comentaram de marcar a próxima, foram para suas casas, banho, procurar algo na geladeira, ligar a TV, ver os gols da rodada...

Em Passeio Noturno I e II, de Rubem Fonseca, um cara aparentemente normal pega seu carro para dar um volta e "relaxar" após um dia de trabalho chato como o de sempre. Mas, o prazer era ver o sofrimento das pessoas após serem atropeladas cruelmente por ele: "Ainda deu pra ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casas de subúrbio". São contos que tratam desse prazer macabro pelo sofrimento alehio. Como vários contoss de Fonseca, ex-delegado, são perturbadores por irem no limite da perversidade humana. 

Mas, enquanto a ficção de Rubem Fonseca tangenciava o limite da crueldade, a realidade dá um passo à frente, nos arrebata e mostra que podemos ser muito piores do que supomos... Infelizmente...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Povo que compartilha e o que não disse Jabor



Assim escreveu Jabor sobre as curvas da mulher brasileira na sua coluna trimensal no Jornal do bairo do Rio Vermelho: "E, bem disse Caio F. Abreu no seu livro de contos Os Lusíadas: um dia frio, um bom lugar pra ler um livro, é ela menina que vem e que passa, na lua, no sol, na luz de Tieta".

Como todos sabemos, a grande mídia é a voz do demônio que manipula o mundo pra trapacear a realidade e corromper nossos imaculados corações e mentes. Tudo isso, claro, a favor da classe dominante. Qual seria, então, o mundo ideal? Ora, um mundo onde os meios de comunicação fossem democratizados e utilizados pelo e para o povo, esse ente que detém o monopólio das virtudes humanas. A mídia seria uma espécie de Facebook, onde cada um de nós, o povo, poderia compartilhar apenas as verdades mais verdadeiras do mundo, sem manipulação. Mas, o Facebook é uma fonte de notícias com credibilidade irrefutável? Nós, o povo, nos preocupamos com a veracidade do que postamos, ou apenas passamos adiante na fé de que tudo que vem do povo é real?

Num artigo de 21/08/2012, publicado no site do jornal Estadão (link aqui), Jabor escreveu:

 "Toda semana surge um novo artigo apócrifo, com meu nome... Toda hora um idiota me copia e joga na rede. [...] Sou amado pelo que não escrevi. Há um site em que contei 23 artigos falsos, com meu nome." 

Alguém escreve e muitos compartilham, sem o menor interesse em saber se aquilo é verdade. Muitos dirão: mas é um erro por boa-fé. Pois é... coração puro não basta, né? Afinal, como dizem que disse alguém: "de boas intenções o inferno está cheio". Então, o que seria a democratização que nos libertaria das mentiras se torna, ironicamente, uma máquina viral de inverdades. E, o pior disso tudo, é que essas inverdades servem para distorcer justamente aquilo que supostamente gostamos, mesmo sem sabermos nada daquilo. Quem acha Jabor legal é um agente difusor das verdades que ele nunca disse. E, assim, o seu suposto autor preferido vagueia livre, leve e solto nesse boca-a-boca-telefone-sem-fio virtual.

Mas nós não temos compromisso com A Verdade. Isso é responsabilidade que devemos cobrar só da tal grande mídia.

Quem gostou, curta. Quem gostou muito, compartilhe. E cada compartilhamento vai gerar R$ 1,00 em doação pra curar o bebê doente que ficou triste depois que seu cachorro fugiu...

domingo, 28 de outubro de 2012

O novo prefeito, Batman e o mito do herói.

"Toma-se um homem 
Feito de nada como nós 
Em tamanho natural" 
Receita Para Se Fazer Um Herói 
Ira!


Dia de eleição. Ânimos exaltados como se fosse uma final de futebol, com todas as irracionalidades pertinentes à paixão esportiva. A escolha de um candidato deixa de ser uma análise do seu potencial administrativo, da sua capacidade de servir bem à população e das suas escolhas ideológicas, e passa a ser uma luta do Bem contra o Mal. E muitos cantam as glórias do seu candidato como ele fosse a encarnação do Bem que nos livrará do lado negro da força.

O homem, desde sempre, sentiu-se angustiado com os mistérios fundamentais da vida, do universo e tudo mais. E, incapaz de solucioná-los de maneira lógica, atirou-se ao mito. No desespero ante sua fraqueza e pequenez humanas, tão demasiada, restou apegar-se à ideia de que seres superiores poriam as coisas em ordem. O Mito do Herói é identificado nas mais diversas culturas, como estudou Jung, e como escreveu de forma brilhante Joseph Campbell no seu importantíssimo O Herói de Mil Faces. O Herói é um arquétipo tão assimilado por nós que Campbell definiu o que se chamou de A Jornada do Herói, um roteiro da vida do nosso salvador. Esse roteiro fez de Campbell um consultor para filmes como Star Wars, por exemplo, e seu estudo pode ser identificado em clássicos como Indiana Jones e Matrix.

No espetacular Batman - O Cavaleiro das Trevas, o cavaleiro negro de Gotham percebe que talvez seja chegada a hora de parar. E isso porque não se faz mais necessário o uso da força para combater o Mal. A ordem será restaurada por meios legais, democráticos e civilizados. Afinal, agora Gotham tem o seu cavaleiro branco, o promotor Harvey Dent. A sua atuação para acabar com o crime através da Justiça deixa a todos com a sensação de que uma nova era está por vir. Dent será, então, o novo super-herói de Gotham. Mas, há um problema: Dent é só um agente público, um funcionário do estado, e sem cinto de utilidades nem batmóvel.

Em uma cena, Dent está furioso e, fora de si, ameaça matar um criminoso, mas Batman o impede e diz: "Você é o símbolo de esperança que eu nunca pude ser. Sua luta contra o crime organizado é o primeiro raio de luz legítimo em Gotham há décadas. Se alguém visse isso, tudo estaria perdido". Ou seja, Batman diz a Dent que, para ser o herói redentor da cidade, ele não poderá ter as fraquezas humanas. Mas Harvey Dent é só uma pessoa comum. E, não à toa, o antes herói vira um vilão enlouquecido.

O prefeito eleito, seja em qual cidade, é apenas um prefeito eleito. Um funcionário indicado por nós, com suas fraquezas e limitações. Posso até acreditar que alguns sejam mais capazes de produzir resultados melhores, mas nunca desejarei que sejam o novo super-herói..

Afinal, enquanto Gotham precisar de um Batman, as coisas continuarão sombrias...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Contra o Brasil: a alquimia reversa do ouro no futebol



Faz tempo que anunciam que os alquimistas estão chegando. Mas eles são tão discretos, silenciosos, e moram tão longe dos homens que continuam executando as suas regras herméticas sem dar as caras. Enquanto não chegam, resta a lenda da pedra filosofal, um troço que transmutaria metais inferiores em ouro e permitira a criação do Elixir da Juventude. Junto com o Santo Graal e a Libertadores do Corinthians, é das coisas mais procuradas pela humanidade. E, como o time paulista achou o título quando ninguém mais acreditava ser possível, abre-se a possibilidade de encontrarmos o resto.

Assim como os alquimistas, os esportistas olímpicos carregam uma aura mística. Atletas que encarnam o espírito olímpico para representar sua nação num grande evento que reúne os povos. Uma celebração de jogos, onde a vitória é tão celebrada quanto o esforço de competir. De fato, uma coisa dos deuses. E, no meio disso tudo, há futebol. E, como nós brasileiros somos os deuses do futebol, essa parte do Olimpo é nossa, certo? Errado.

No Brasil há os esportes, e o futebol. Nossa seleção é chamada apenas de A Seleção, num apelido humilde que contrasta com O Time Inglês, Os Azuis, A Esquadra Azul, A Fúria, A Laranja Mecânica. Nomes simpáticos, mas que passam londe d'A Seleção. Porém, eis que nós, deuses, nunca obtivemos o ouro do Olimpo. Tal qual alquimistas fracassados, não descobrimos a pedra filosofal. Mas, parece, esse ano levaremos o ouro. Uma pena...

Se isso acontecer, o Zeus do nosso Olimpo será Neymar, uma criatura que representa o que de pior nós podemos oferecer ao mundo. Um rapazinho chato, com ego inflado, narcisista, e que encara um jogo como um circo onde ele pode fazer suas piruetas para o delírio da plateia e a admiração dos figurantes em campo. A prova de que mais vale uma ignorância acrobática ao som de tchu-tchu-tcha-tcha do que um neurônio esforçado.

O triunfo olímpico dessa seleção será como criar uma anti-alquimia, onde o ouro se transformará num metal dos menos valiosos.

Neymar, pra mim, não merece o ouro nem na ginástica, porque depois das piruetas ele nunca para em pé. Sempre cai.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Imputabilidade por Renda para Pessoa Física



No Brasil, a violência perdeu os limites e os pudores. É tão presente em nosso cotidiano que a assimilamos como parte natural da vida. Em Salvador, os índices de violência cresceram absurdamente nos últimos anos. O governo, claro, não reconhece que perdeu o controle, e usa o velho argumento de que isso é um reflexo da falta de políticas sociais dos governos passados, blá, blá, blá...

É o velho fetiche da luta de classes. Qualquer coisa é analisada pela ótica do capital, sendo que O Capital, óbvio, é a versão pós-moderna do capeta. Quando o filho de Eike Batista se envolveu num acidente com um pedreiro, muitos correram para alardear o embate entre o herdeiro da maior fortuna do país contra um pobre trabalhador. Tudo, claro, antes de qualquer coisa que indicasse quem foi o imprudente da história. E, caso alguma perícia aponte que o imprudente foi o pedreiro, dirão que foi tudo armação financiada pelo capital. Então, o mais rico sempre será o culpado, mesmo se estiver com a razão.


Cria-se, então, um ser imaculado: o desprovido de capital. Proletário, operário, trabalhador, enfim, qualquer que seja a denominação da classe, ela sempre portará todas as virtudes. Curiosamente, sempre será denominada por alcunhas que mostram esforço, como "trabalhadores", criando uma falsa antítese com a classe dominante, pejorativamente chamada de elite (como se o CEO de uma mega empresa não trabalhasse). Essa classe trabalhadora, então, carrega em si o que de melhor o ser humano possui. Mas eis que o nosso bom selvagem se depara com a sociedade movida pelo Capital e... desvirtua-se. Presssionado, vai contra sua natureza e passa a atuar como agente do lado negro da força. Vira bandido, mas os culpados são o Capital e sua elite. Nesse cenário, o criminoso é quase um Robin Hood fazendo justiça social. Tira do opressor para dar ao oprimido, que, no caso, é ele mesmo.

Assim moldamos nossa visão de sociedade. O bandido virou uma vítima social e nós, as verdadeiras vítimas da violência, viramos os algozes. Recentemente uma amiga foi assaltada. Um dos vagabundos disse a ela que não era desonesto, era trabalhador, apenas assaltava por uma necessidade social! Pronto! Os sociólogos conseguiram ensinar Rousseau às massas! Viva a revolução! Conversando com um amigo da polícia militar, ele disse que esses casos dão um desestímulo enorme porque ele prende o cara, entrega na delegacia, e uma semana depois o cara tá na rua cometendo o mesmo crime. São aqueles casos incríveis que vemos de bandidos que já tiveram 23 passagens pela polícia e nada.

Com base nessa sociologia da vontade de potência do oprimido, eu tenho uma proposta mais legal: criar o IRPF - Imunidade por Renda para Pessoa Física. Seria categorizar os crimes permitidos de acordo com o nível de opressão social do indivíduo, e indexado às faixas do imposto de renda. Funciona assim:

- Quem tivesse na maior faixa do imposto de renda teria tolerância zero. Se cometer qualquer crime é cadeia sem direito de defesa. Afinal, se o cara tem dinheiro, é criminoso por safadeza mesmo.
- Nas faixas intermediárias, o cara pode cometer delitos leves, sem exagerar. Aí podemos aplicar penas alternativas, socio-educativas, colocar o cara pra dar aula de artesanato com resto de garrafa pet, essas coisas.
- Já o cara que tá na faixa de isento, esse tá liberado! Pode barbarizar à vontade! Afinal, ele é uma pobre vítima dessa sociedade cruel e opressora.
- E, por fim, temos o exepcional caso do cara na faixa de isenção e que não teve pai. Esse é sem limites. Porque, claro, se ele não teve a referência do totem regulador da figura paterna, não é justo cobrá-lo enquadramento nos limites do tabu. Então, vale estuprar a mãe, a vó, a enteada...

Enquanto pensarmos no bandido como um consequência do sistema, é esse caos atual que teremos. Acho que devemos pensar no indivíduo como o resultado das suas escolhas pessoais, como o produto do exercício da sua liberdade. Já que o ponto de vista atual não está dando muito certo, por que não tentar o outro ponto de vista, né?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Salvador e o dia em que o medo matou a esperança.


Em Salvador, policiais militares grevistas andando armados e enncapuzados, tocando o terror. Comércio fechando as portas, população em pânico, e o governador pressionado por não estar na capital. Tudo a menos de quinze dias de uma grande festa popular. Sem saída, restou pedir auxílio ao governo federal. E, enquanto o governo do Estado alega que a greve é ilegal, a oposição apóia a revolta e acusa a incompetência de quem ocupa o poder.

Quando ocorreu isso? Em junho de 2001, menos de duas semanas antes do São João. À época, o grupo político que hoje governa era oposição. E, como opositores combativos que eram, aliaram-se aos grevistas e responsabilizaram a incompetência do governo.

Passados dez anos, eis que a história cumpre a sina de sempre se repetir... Tudo ocorreu da mesma forma, só que quem antes acusava o governo, agora ocupa o poder. E, se antes andavam de braços dados com os revoltosos, agora os acusam de promover uma greve ilegal! Ô, não entendi! Porque antes o movimento era tão legítimo a ponto de merecer apoio político, e agora não mais merece tamanho carinho?

Quem me conhece - e/ou me lê - sabe que não cultivo apreço por correntes ideológicas que acham que o coletivo se impõe ao indivíduo. Isso porque a teoria, (mal) disfarçada de cordeiro, esconde o lobo do homem que promove um grupo seleto à categoria de detentores exclusivos da Verdade. Na União Soviética, enquanto o povo não comia nem o pão que Stálin esmagou, a cúpula do Partido comia queijos e vinhos importados da França. Com certeza, deve haver uma boa teoria que justifique o privilégio dos camaradas...

Pra mim, a metonímia é outra, e o indivíduo faz o coletivo, e não o coletivo determina o indivíduo. E isso me é tão claro que poderia ser justificado por questões semânticas, né? Só há coletivo, quando há indivíduos. Mas a recíproca nem sempre é verdadeira...

Voltando ao tema, um ex-presidente, famoso por falar tudo o que não pensa, guru máximo do atual governo, falou sem pudores que “quando a gente está na oposição, faz muita bravata”. Em 2009, Gordon Brown, então primeiro-ministro britânico, cometeu a inconfidência de contar uma confissão do brasileiro: "Quando eu era líder do sindicato, eu culpava o governo. Quando me tornei líder da oposição, eu culpava o governo. Quando me tornei governo, passei a culpar a Europa e a América.”

A política baiana, parece, segue à risca os ensinamentos do mestre, e mostra que na prática a teoria é outra.

O atual grupo político se notabilizou nacionalmente por pregar que a esperança venceria o medo.

Passados 10 anos, mostraram que cultivaram o medo para vender uma esperança. Só que a esperança foi a única a morrer.

Obs.: Não citei nomes nem partidos para deixar claro o quão sem identidade se tornou a política. E, apesar de todos estarem bastante parecidos, sempre há uns bem mais iguais do que os outros...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O homem que desafiou o Universo... e venceu!

No domingo, dia 08 de janeiro, Stephen Hawking completou 70 anos. Há cinquenta anos, quando tinha apenas 20 anos, foi diagnosticado com esclerose lateral aminiótica, e comunicado que a expectativa de vida para portadores desta doença não ultrapassava alguns poucos anos.

Desde pequeno, Hawking chamava atenção pela capacidade de concentração e abstração. Ainda criança, gostava de criar jogos de tabuleiro e passar horas jogando com os amigos. Mas logo os jogos se tornaram tão complexos que apenas ele conseguia brincar. Aos 17 anos ingressou em Oxford para cursar ciências naturais com ênfase em física, e aos 20 foi aceito na pós-graduação de Cambridge. Seu sonho era ser orientando de Fred Hoyle, um dos maiores cientistas da época. Em Oxford, Hawking era um jovem intelectual de humor irônico, que frequentava festas, e não escondia sua genialidade em modéstias forjadas. Mas, em Cambridge, ele era só um garoto entre gigantes. O primeiro baque foi quando Hoyle não quis ser seu orientador, designando um assistente. Hawking se sentiu humilhado. Mas, alguns anos depois, Hoyle, de certa forma, ajudou o aluno renegado...

Além de grande cientista, Hoyle era um grande ego. Empolgado com uma teoria, decidiu contá-la em uma palestra antes de finalizar todos os cálculos. Como aluno, Hawking teve acesso à pesquisa, e decidiu ir à aula do professor. Mas, não era uma palestra comum. Seria proferida na Royal Society, tendo na plateia muitos dos maiores cientistas da época. Após expor a teoria, Hoyle abriu para perguntas. Do fundo da sala, um jovem magro, de óculos grandes, custou a levantar seu frágil corpo apoiado em uma bengala. Para surpresa dos presentes, disse: "A quantidade sobre a qual está falando diverge". Com desprezo, Hoyle negou o erro e perguntou como ele poderia afirmar isso. E Hawking respondeu: "Porque eu fiz os cálculos". Pouco tempo depois, Hawking utilizou a relatividade geral e na mecânica quântica para desenvolver teorias sobre os buracos negros e o Big Bang.

Hawking transcendeu os limites acadêmicos e virou um pop star. Escreveu livros que venderam milhões de cópias em mais de 30 países, foi tema de uma séria do History Channel, participou de Star Trek e dos Simpsons. Na foto acima, vê-se, em seu escritório, um desenho e um boneco dele mesmo inspirado na sua participação nos Simpsons, e a famosa imagem de Marilyn. Na porta, ainda há uma placa "Não incomode, o chefe está dormindo". Com humor ácido, gosta de dizer que a cadeira de Professor Lucasiano de Matemática de Cabridge, que já foi ocupada por ninguém menos que sir Isaac Newton, agora possui rodas.

Um buraco negro é uma estrela que colapsa e tem seu núcleo contraído até alcançar uma densidade tão grande que vira um nada, onde não há espaço nem tempo, onde o universo acaba. Na esclerose lateral aminiótica, o corpo vai definhando como uma estrela colapsada, retraindo-se em si mesmo rumo ao seu final. Hawking teorizou que, da mesma forma que o buraco negro engole o universo, numa ação reversa, ele poderia expelir o que engoliu, ou seja, criar o universo onde aparentemente não há nada. Foi a ideia para o Big Bang. E, assim como no Big Bang, a mente de Hawking parece um universo que emerge de onde a vida parece ter colapsado.

Hawking desafiou o Universo.
E venceu!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Os bandidos da USP, o ódio, e a psicopatia ideológica

À esquerda, os invasores pintam seu pensamento. À direita, obra genial de Banksy.


A USP presenciou dias de extrema barbárie patrocinada por um grupo de bandidos alimentados pela psicopatia ideológica da tal luta de classes. Entre moletons importados e camisetas do PCO, proferiam aquela mesma ladainha cheia de jargões e clichês que caducaram antes mesmo de algum dia fazer sentido. Esse papo de combater a opressão-do-capital-imperialista-burguês me dá uma preguiça danada... Nesses dias de chuva então.. Mas, vamos lá.

A psicopatia é um distúrbio que tem como característica uma disfunção moral. O psicopata compreende plenanente o que se passa a seu redor, ele não é louco, ele apenas conduz as coisas de maneira a obter sempre o resultado que deseja, sem se preocupar com as consequências. Ele não tem freios morais. Tanto assim que é considerado um transtorno de personalidade dissocial. Como bem definiu Philippe Pinel no seu "A Treatise on Insanity": "Nenhuma mudança sensível nas funções do entendimento, mas com uma perversão das faculdades ativas, marcada por uma fúria sanguinária e transcendente, com uma cega propensão a atos de violência". Atualmente, pela Classificação Internacional de Transtornos Psíquicos (CID), algumas características deste transtorno são:

- Clara e constante falta de responsabilidade e desacato às normas sociais, regras e obrigações.
- Pouquíssima tolerância a frustrações e tendência ao comportamento agressivo e violento.
- Incapacidade de experimentar consciência de culpa ou de aprender com a experiência e, principalmente, com penalidades.
- Tendência a culpar os outros e a dar explicações superficiais do próprio comportamento condenável.

No site do PCO, muito benquisto pelos invasores da USP, logo de cara temos o (des)prazer de ver uma foto do grande humanista Leon Trotsky. Uma das obras da figura é " A Moral e a Revolução". Lá no capítulo 16, lê-se:

"Na luta de classes contra o capitalismo, são permissíveis todos os meios? A mentira, a falsificação, a traição, o assassínio, etc?
São admissíveis e obrigatórios apenas os meios que aumentam a coesão do proletariado, inflamam sua consciência com um ódio inextinguível para com toda forma de opressão, ensinam-lhe a desprezar a moral oficial e seus arautos democráticas, dão-lhe plena consciência de sua missão histórica e aumentam sua coragem e sua abnegação. Donde se conclui, afinal, que nem todos os meios são válidos".

Entenderam? Ele não condenou o terrorismo. Apenas condenou o terrorismo que não serve à causa. Como um psicopata, Trotsky desconsidera os valores morais, relativizando-os de acordo com seu interesse próprio. Assim orientados, os bandidos da USP acham que invadir prédio público, depredar patrimônio, descumprir ordem judicial e carregar coquetéis molotov na mochila são coisas "admissíveis e obrigatórias", desde que sejam feitas a favor das suas ideias.

Os invasores, numa "clara falta de responsabilidade e desacato às normas sociais", mostraram que têm "pouquíssima tolerância a frustrações" e demonstraram todo o seu "comportamento agressivo e violento". Mas, por "incapacidade de experimentar consciência de culpa ou de aprender com penalidades", tentarm se fazer de vítimas, acusando a polícia de violência psicológica, numa clara tentativa de "culpar os outros e a dar explicações superficiais do próprio comportamento condenável". Opa, acho que já li isso antes!

Se alunos de Letras, Filosofia e Sociologia usam coquetéis molotov para argumentar, há algo de muito errado...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Perereca Que Pisca, a deputada e George Orwell


Recentemente, a deputada Luiza Maia manifestou toda a sua insatisfação com a Perereca Que Pisca, como escrevi neste post. Agora, voltou suas atenções para a imprensa. Enquanto isso, o vocalista da banda Black Style, o da perereca, anunciava que escreverá um livro baseado no clássico 1984, de George Orwell. E, eis que, mais uma vez, os caminhos dos dois se cruzam.

A deputada, agora, quer regular a imprensa. Segundo ela, a “grande mídia virou partido político”, "é muita denúncia falsa, muita esculhambação que tem aí”, e se faz necessário um “controle do conteúdo dos programas de TV”. Enfim, é o papo de sempre. Como bem disse Millôr Fernandes: democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim. Assim funciona o raciocínio da deputada. Eu não acho que existe o grupo dos puros de coração, e o dos malvados que querem nos levar para o lado negro da força. Basta ler o texto anterior para ver que creio que todos têm, como disse Roberto Carlos, o bem e o mal que existem. E, cabe a você, escolher. Afinal, é preciso saber viver. Mas, para a deputada, imprensa boa é a que denuncia os inimigos. A que denuncia os amigos é golpista. Se a Veja denunciar um aliado, é golpe. Se a Carta Capital denunciar um inimigo, é resistência. Pra mim, canalha é canalha, independente se veste azul ou vermelho, se usa broche com estrela ou plumas de tucano. E, quando leio sobre controle de conteúdo, logo penso: quem decidirá o que é bom ou ruim? Por que alguém terá a capacidade de escolher o que será a minha verdade?

Robyssão (meu deus), do Black Style, me surpreende. Não sei como alguém pode ter talentos tão distintos. Depois de Bate Com a Bunda, Esfrega a Xana No Asfalto, Amassa a Latinha Com a Bunda e Chuva De Perereca, vai partir para literatura filosófica. Versatilidade é isso. No livro 1984, Orwell narra a história de uma sociedade dominada por uma ultra ditadura totalitária. E, o símbolo da repressão é o controle das informações. As pessoas só sabem aquilo que o partido julga ser A Verdade. Na primeira edição inglesa de "A Revolução dos Bichos", Orwell escreveu um prefácio intitulado " A liberdade de imprensa". Lá ele comenta a liberdade de um lado só. Uma editora, por exemplo, rejeitou o livro porque achou que não criticava ditaduras e, sim, a ditadura soviética. Ou seja, existe a ditadura do mal, que deve ser combatida, e a do bem, que apenas quer nos guiar rumo à salvação. Qualquer semelhança com o pensamento da deputada...

Robyssão e a deputada voltaram a se encontrar, desta vez em Orwell. Pelo histórico de poesias, não acho que o rapaz seja capaz de produzir algo interessante, mas isso não me faz pensar em censurar o direito que tem de cometer esse livro. De certa forma, admiro o fato dele citar e ter como referência uma grande obra. Sinal de que, talvez, tenha salvação. Já a deputada escolheu Orwell pelo outro lado, o lado da caricatura do autoritarismo. Ela decidiu ir de volta para o futuro de 1984.

Que coisa... entre a Perereca Que Pisca e a deputada, mais uma vez, fiquei do lado da perereca.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Os ovos de Dilma ou a lingerie de Gisele?


A Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) encrencou com a propaganda da Hope com Gisele Bündchen. Nela, Gisele ensina truques de sedução para as mulheres extraírem agrados com mais facilidades de seus cônjuges. A secretaria viu nisso uma exaltação da exploração-machista-dominante que rebaixa as mulheres a uma condição submissa. Ufa! Mais um pouco e aparecia o imperialismo yankee e o neoliberalismo na história. E, para mostrar que a voz do povo é a voz no que deu, a secretaria disse que recebeu seis reclamações de pessoas “indignadas” com a propaganda... Isso mesmo: seis criaturas. Não sei qual a média de reclamações por propaganda (e isso é tão besta que tenho preguiça de pesquisar), mas acredito que muitas propagandas do governo geram mais reclamações. Aquelas propagandas ridículas da Dolly, então, devem ser trending topics da ouvidoria!

O governo atual, desde sempre, tentou criar essa besteirada de uma gestão mais humana porque feminina. Tudo que se faz tem aquele papo de a primeira "presidenta", a primeira mulher a chefiar sei-lá-o-quê, e blá, blá, blá. Seria uma maneira de mostrar que as mulheres podem tanto quanto os homens. Na minha opinião, só o fato de fazer tanto alarde por igualdade já é um sinal de crer numa desigualdade. Qualquer excesso de afirmação esconde a crença no desigual. Eu não voto em alguém porque é mulher, homem, negro, branco, casado, solteiro, canhoto ou destro. Eu voto em quem tem ideias que me agradam e julgo capaz de efetivá-las.

Curiosamente, esse mesmo governo que classificou a propaganda de Gisele como uma exaltação ao esteriótipo da mulher objeto fez questão de criar o esteriótipo da dona de casa para a "presidenta". Afinal, pensaram, uma mulher que não sabe nem fritar um ovo não serve pra casar. E, se não serve pra casar, como pode governar? Decidiram, então, que a "presidenta" deveria mostrar todas as suas prendas do lar para, assim, convencer a todos que é mulher de verdade. Os ovos de Dilma, então, viraram uma tara. Fez-se omelete no programa de Luciana Gimenez, em Ana Maria Braga e ainda teve comentários sobre o prato na entrevista concedida a Patrícia Poeta. Mas, acreditar que uma mulher só é uma mulher se souber cozinhar não é rebaixá-la a uma condição submisssa e esteriotipada? Mulheres que não sabem nem fazer pipoca não podem ser competentes para ocupar cargos de alto escalão? Quer dizer que a mulher só pode sair de casa depois que estiver prendada o suficiente?

O que as burocratas da secretaria não entenderam é que a propaganda de Gisele ironizava justamente os homens. O que se diz na peça é que os homens são tão bestas que basta um truque para tê-los completamente sob domínio. Os homens seriam, então, os dominados, enquanto as mulheres, sagazes e cientes de suas armas, conquistam o que desejam sem grandes esforços.

Para ser mais feminina, Dilma mostrou os ovos, e se deu mal. Gisele, muito mais esperta, exibiu a lingerie, se deu bem, e ficou mais mulher.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Planeta dos Macacos de Rousseau, o Complexo do Alemão, e os humanos de Voltaire.


"Comparai o estado do homem civilizado com o do homem selvagem, e investigai como além da sua maldade, suas necessidades e suas misérias, o primeiro abriu novas portas à miséria e à morte". Esse é um trecho do livro "Discurso Sobre a Origem da Desigualdade", de Jean-Jacques Rousseau. Para ele, o homem é, por natureza, um ser puro e imaculado, desprovido de todo mal, amém. Aí vem essa tal de sociedade para oprimir e corromper o coitado que, então, se transforma nesse monstro que é o homem civilizado. Ou seja, pra Rousseuau os bárbaros são os civilizados e os civilizados são os bárbaros. E, sendo assim, um criminoso deixa de ser um canalha que optou pela maldade e passa a ser uma vítima desse mundo cruel... Voltaire, sempre genial, comentou o delírio de Rousseau com a acidez de sempre: "Ninguém poderia pintar um quadro com cores mais fortes dos horrores da sociedade humana, para os quais nossa ignorância e debilidade tem tanta esperança de consolo. Ninguém jamais empregou tanta vivacidade em nos tornar novamente animais: pode-se querer andar com quatro patas, quando lemos vossa obra".

O filme "O Planeta dos Macacos: A Origem" conta, como nos diz o título, o início do domínio do mundo pelos macacos. Basicamente, o filme mostra como os macacos eram oprimidos e torturados por humanos cruéis que, num personagem caricato, dizem só se interessar por lucros. Estimulados por uma droga que lhes confere mais inteligência, os macacos logo percebem que "a história de toda a sociedade existente até hoje tem sido a história das lutas de classes". Pois é, nem sempre capacidade de raiocínio dá em boa coisa, mas sigamos. Embebido pelo sentimento de revolta e libertação, César, o chimpanzé principal, organiza a revolução. E, como todo primata cheio desses anseios, impõ-se como líder do movimento endurecendo, mas sem perder a ternura jamais. Convoca um gorila gigante pra dar uma surra no seu principal opositor, e tá tudo dominado. Nos momentos de confronto entre símios e humanos, fica clara a intenção do diretor em nos fazer ter carinho pelo bárbaro oprimido. Enquanto os macacos são assassinados num tom martirizante, os humanos sempre têm mortes que paracem uma pena pelas suas maldades.

No Rio, e em outros lugares, muitos pensam como Rousseau. O poder paralelo do tráfico que domina os morros seria só uma consequência dessa sociedade perversa que transforma anjos em demônios. O cara que carrega um fuzil, comanda arrastões, e vende crack sem piedade ou remorso deixa de ser o vilão, e passa a ser vítima da civilização. Sendo assim, não cabe penalizá-lo. Com muito alarde divulgou-se a nova maravilha que era o Complexo do Alemão. Com antecedência o governo disse: "pessoal, se preparem que estamos chegando". Orgulhoso, contou que não houve confronto, e teorizou que prender não era o objetivo, o que queriam era conquistar território. Afinal, se é a civilização que cria os bandidos, melhor deixá-los num território remoto, longe de nós, onde possam exercer sua natureza boa, né? Pois é... enquanto o governo brincava de WAR, a barbárie se organizava no mundo real. E, quando tudo parecia tranquilo, mostrou que continuava tão viva quanto sempre.

Pena que Rousseau não teve a oportunidade de estudar a vida dos macacos. Os chimpanzés, por exemplo, para se impor frente a seus adversários cometem atos de uma atrocidade chocante. Uma das cenas de documentário mais impressionantes que vi é de um grupo de machos que atacam uma fêmea e roubam seu recém-nascido. Após jogar o macaquinho de um para o outro, decidem matá-lo. O macho dominante morde e esmaga o crânio do pequenino, e depois todos o comem. Nós só somos humanos porque civilizados. A sociedade não é o meio que corrompe nossa maldade e, sim, o freio moral e legal que nos impede de voltar à barbárie.

Prefiro os humanos de Voltaire aos macacos de Rousseau...

terça-feira, 26 de julho de 2011

Amy Winehouse, Salvador e a escolha do cadáver adiado

"Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia". Essa é a primeira frase do livro "O Mito de Sísifo", de Camus, onde ele trata da liberdade de viver. Escolher os caminhos da própria vida é exercer de forma plena a condição de ser humano.

O assunto do fim da semana, claro, é a morte de Amy Winehouse. Vi muita gente se dizendo chocada, pega de surpresa, triste com essa notícia repentina... Bom, meu comentário quando soube foi: "Tecnicamente, ela ainda podia ser considerada viva?". Não nutri nenhum sentimento, bom ou ruim, sobre o fato. Era apenas algo bastante previsível.

Amy Winehouse tinha 27 anos. Poderia ser uma mulher sexy, talentosa, com uma presença de palco avassaladora, cheia de vida e carisma. Mas, ela decidiu ser um zumbi deprimente. E, independente de qualquer teoria socio-psicológica, ela teve opção, ela escolheu seguir o caminho que teve. No momento em que tentaram levá-la à reabilitação ela disse não, não, não, e aí confirmou Camus, também em "O Mito de Sísifo": "Existe um fato evidente que parece absolutamente moral: um homem é sempre vítima de suas verdades. Uma vez que as reconhece, não é capaz de se desfazer delas. Precisa pagar um preço". Ela decidiu ser aquela sua verdade, se consagrou cantando que assim seria, e pagou o que era devido à escolha. E esse papo de pressão causada pelo sucesso me dá até preguiça de comentar. Quer dizer que o problema foi o sucesso? Melhor seria ser fracassada, então? É melhor ser uma mega-estrela-pop-mundial ou cantar num boteco decadente no bairro mais perigoso da cidade? Pra mim, excesso de opções não é problema. O problema é a falta delas.

Ontem à tarde, na av. Garibaldi, uma moça, também de 27 anos, levou um tiro nos rosto. Está na UTI. Espero que ela saia bem de mais essa barbaridade que chamamos carinhosamente de cotidiano. Garanto que não estava escrito na sua agenda: 16h, ser baleada no semáforo. Ela não teve opção. Um cara acordou, tomou café, tomou banho, limpou a arma, trocou de roupa, e decidiu que queria ter alguma coisa. E, para satisfazer seu desejo de ter algo, julgou que valia a pena tirar o direito de alguém decidir sobre a própria vida.

Amy escolheu sua trajetória de vida e morte. Outras tantas pessoas têm seu caminho interrompido sem que isso tenha acontecido de maneira consentida. Fernando Pessoa disse ser o homem um "cadáver adiado que procria". Eu não tenho pena de Amy. Na verdade, acho que ela foi bem feliz. Afinal, foi cadáver quando bem quis...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sai Baba, Voltaire, e a farsa dos milagres


Eu sou da teoria de que o mundo fica melhor quando morre um canalha. Semana passada morreu Sai Baba. Sai Baba é um autoproclamado iluminado que conquistou milhares de devotos com uma fórmula infalível: extravagância, truques baratos de ilusionismo, parábolas e fábulas cheias de metáforas bregas, obviedades piegas, e uma capacidade incrível de não dizer nada em muitas palavras. Acessei o site dos seguidores brasileiros de Sai Baba. Lá estavam muitos de seus pensamentos, se é que podemos chamar assim. Não tive muita paciência de ler aquele amontoado de palavras órfãs de sentido. Mas me deparei com algo interessante. Diz o guru:

"A mente deve se transformar em servidora do intelecto, não em escrava dos sentidos. Ela deve ter discernimento e desapegar-se do corpo. Como o fruto maduro do tamarindo, que se torna solto dentro da casca, a mente deve desprender-se desta casca, deste invólucro chamado corpo. Batam num tamarindo verde com uma pedra e vocês causarão dano à polpa no interior; mas batam numa fruta madura e vejam o que acontece. É a crosta seca que cai; nada afeta a polpa ou a semente.O aspirante espiritual maduro não sente os golpes do destino ou da sorte; é o homem imaturo que é afetado por cada revés".

Hum... bem interessante. Quer dizer que a mente servidora do intelecto (seja lá o que isso signifique) deve ser como um tamarindo. Muito inteligente essa analogia. E estou bem de acordo. Acho que muita gente possui dentro da caixa craniana a mesma coisa que um tamarindo maduro tem dentro da casca. O que me surpreende é como as pessoas que creem em Deus acreditam nesses gurus. Elas não percebem que crer em alguém autoconsagrado procurador divino é rebaixar Deus a uma condição ridícula.

O genial Voltaire também recorria a fábulas, só que para criticar ideias que não concordava. Ele usava esse recurso por ser um estilo recorrente dos pretensos sábios. Era mais um componente do seu repertório irônico e sagaz. Para falar sobre milagres e religiões, Voltaire não recorreu às fábulas, mas manteve o discurso ácido. Em seu "Dicionário Filosófico", disse: "Chamamos milagre à violação das leis divinas. Assim, quando um morto fizer a pé duas léguas de caminho levando a cabeça debaixo do braço, isto quer dizer que sucedeu um milagre". A abordagem de Voltaire sobre os milagres segue um linha extremamente inteligente. Voltaire nega os milagres justamente por causa da existência de Deus, e não pela sua inexistência. Num outro trecho, escreve: "Por que faria Deus um milagre?" e segue como se Deus respondesse: "não pude, com meus decretos divinos, com minhas leis eternas, preencher certo plano; vou mudar minhas leis imutáveis, e tratar de executar o que não consegui fazer". Então, Voltaire conclui: "Ousar supor que Deus realiza milagres é insultá-lo, é dizer-lhe frágil e inconsequente. Portanto, é absurdo crer em milagres, é desonrar de certo modo a Divindade".

Voltaire, de certo, sentiria enorme vergonha alheia de Sai Baba. Um dos grandes "milagres" do tal guru é cuspir ovos de ouro. Quer dizer que, para melhorar a humanidade, Deus mandou um cara que vomita ovo pela boca? Acho que Voltaire diria que se isso é o máximo que Deus pode fazer, melhor deixar aos homens a responsabilidade sobre suas vidas.

Abaixo segue um trecho do documentário "O Segredo de Sai Baba", que aborda as inúmeras acusações de pedofilia e mostra o asqueroso truque do ovo de ouro.

O mundo ficou um pouco melhor essa semana...


terça-feira, 12 de abril de 2011

Massacre no Rio, Dostoiévski, e a criação de Deus


Um jovem cria uma realidade distorcida em sua cabeça, dividindo o mundo entre as pessoas ordinárias e as extraordinárias, que "buscam de várias maneiras a destruição do presente em nome de algo melhor". E, "se uma pessoa como essa é obrigada, no interesse de sua idéia, passar por cima de um cadáver ou chapinhar no sangue, ela pode encontrar dentro de si mesma, em sua consciência, uma sanção" para isso. Esse jovem passa, então, a acreditar que faz parte desse grupo excepcional. Isolado do mundo, vivenciando essa realidade paralela, fica obcecado pelas próprias idéias, e alimenta um desejo de provar a si mesmo que pode fazer algo grande. Depois de muito pensar, atormentado e delirante, preso nas suas angústias e frustrações, decide matar. De maneira cruel, bárbara, mata pessoas que nem mesmo têm a oportunidade de se defender ou de entender o que se passa. E o que para todos é a revelação do lado mais perservo e sombrio do ser-humano, para ele torna-se um ato de auto-sacrifício religioso.

Essa história não se passa no Rio de Janeiro. Acontece numa São Petersburgo sombria, no fim do século XIX. Essa é a história de Ródion Románovich Raskólnikov, protagonista do famoso romance Crime e Castigo, de Dostoiévski.

Dostoiévski via Deus como uma justificativa para o Bem. Construiu suas grandes obras retratando a angústia humana, a busca incansável pelo sentido da vida. Cristão fervoroso, acabava amarrando esse sentido da vida à existência divina. Como disse em Os Irmãos Karamázov, "a questão principal que será perseguida em todas as partes desse livro é a mesma de que padeço, consciente ou inconscientemente, a minha vida inteira: a existência de Deus". E esse Deus construído pelo escritor russo é o norte moral da humanidade, o guia para um mundo melhor, mais humano. Numa das passagens mais famosas d'Os irmãos Karamázov, o religioso Aliócha pondera que se "não existe imortalidade da alma, então não existe a virtude, logo, tudo é permitido". Raskolnikóv, de Crime e Castigo, só foi capaz de tamanha barbaridade porque não enxergou além da condição humana terrestre.

No Rio, um desequilibrado viu em Deus a justificativa para o Mal. E, nessas horas, sempre fico um pouco incomodado. Afinal, sendo Deus onipotente, onipresente e onisciente, por que deixou que alguém usasse Seu nome para cometer tamanha barbaridade? Que não se importe que cometam crimes em nome do diabo, vá lá, mas saber que Seu nome será atrelado à morte de uma dúzia de crianças e, simplesmente, não fazer nada? O assassino só foi capaz de cometer tamanha brutalidade porque desconsiderou a condição humana terrestre.

Ferreira Gullar costuma dizer que "o homem inventou Deus para que Deus o criasse". E, assim, cada deus inventado por cada homem guia a humanidade como um personal trainer preocupado apenas com seu pupilo. O deus de Dostoiévski o confortou quando seu pequeno filho de três anos faleceu, e o fez transformar suas dores em arte. O deus do assasino do Rio o atormentou, e o compeliu a transformar suas dores em morte.

Uma barbaridade desse tipo aconteceu na cidade que dizem ser abençoada por Ele, onde a imagem do seu filho abre os braços para cuidar de todos. Pelo visto, o verdadeiro Deus não está nem aí para os homens, e nem mesmo se importa que usem seu nome em vão. E, se Ele não se importa com a transgressão do primeiro mandamento, não deve perder tempo fiscalizando os restantes...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Bruna Surfistinha, Sandy e a devassa de folhetim


O filme "Bruna Surfistinha" conta a história de Raquel Pacheco, uma rebelde-sem-causa que decidiu ser garota de programa menos pela revolta e mais pelo talento. Filha adotiva de uma família classe média, enfrentou os mesmos conflitos adolescentes que qualquer um. A diferença é que usou isso como um pretexto para entrar na prostituição. E, ao longo do filme, o pretexto se mostra fraco quando a vontade de sair dessa nova vida parece ser bem menor que a vontade de entrar. Em uma entrevista recente, Raquel, agora casada e "aposentada", disse sentir falta da liberdade dos tempos passados. Ou seja, ao seu ver, as coisas não foram tão ruins. Eu pensei que o filme seguiria uma linha Cinderela, da menina que sofre um bocado até ser feliz para sempre. Mas, grata surpresa, o filme é bem mais realista. A profissão escolhida por Bruna segue os mesmos caminhos de qualquer profissão: ascensão, queda, sofrimento, felicidade e prazer verdadeiro. Em um momento, Bruna diz: "Às vezes ver que o cliente me desejava valia mais que a grana que ele pagava pelo programa". É a típica satisfação de alguém que exerce a função que deseja.

Sandy sempre foi a menininha perfeitinha. Quase virou a nova namoradinha do Brasil. Só não foi de fato porque o Brasil não pediu a mão dela em namoro num jantar formal com a presença da família. Depois de anos cultivando a imaculada imagem de santinha, resolveu revelar suas travessuras de menina má. Pintou o cabelo de loiro, colocou as perninhas de fora e foi ser a musa do Carnaval da cervejaria Devassa. Logo caiu na internet um video de um programa de TV onde ela dizia que não bebia cerveja porque o gosto não a agradava.

Bruna Surfistinha é daquelas mulheres que só dizem sim, mesmo que seja só por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema ou um botequim. Já Sandy sempre foi daquelas que só dizem não. Mas, por uma renda, aceitou uma prenda, fez as vontades e contou meias verdades. Mas, no dia seguinte, página virada, as travessuras foram descartadas do folhetim.

Bruna, além do dinheiro, fazia porque gostava. Com Sandy não tem esse papo de gostar do que faz. É só pagar que tá valendo...


quinta-feira, 3 de março de 2011

Galliano, Hitler e o beijo não dado...


John Galliano é um idiota típico dos dias atuais. Alçado à condição de gênio intocável, decide ir além dessa categoria pertinente a mortais e se autoproclama deus. E, vestido o manto divino, torna-se onipotente.

Envolvido numa briga de bar (ô, onde estava o glamour?!), bradou, imponente, que amava Hitler. Pois é, que pena... sinto dizer a Galliano, mas o amor não seria correspondido. Sorte dele não ter conhecido seu amado.

Muitos acham que o ódio de Hitler foi canalizado aos judeus por causa de alguma história mal resolvida de Jacó, Abraão, fuga da Galiléia, ou outra passagem que ocorreu naqueles tempos maravilhosos em que a Terra era um grande set de filmagens de um épico hollywoodiano, com milagres os mais diversos, gente conversando com Deus, Espírito Santo fazendo inseminação artificial e velhinhos abrindo o mar no grito. Mas, na verdade, os judeus eram apenas os inimigos mais próximos. Hitler acreditava na tal raça ariana, que seria descendente dos deuses da Atlântida. O delírio da tal raça ficou ainda maior com a ajuda de Heinrich Himmler. Se alguém acha Hitler louco e cruel é porque não conheceu Himmler. Essa doce figura comandou, apenas: o assassinato dos líderes da SA, todos os campos de concentração, todos os campos de extermínio, e as operações da SS. Além disso, inventou uma mitologia ariana louca que misturava deuses nórdicos medievais com mitos pagãos, hinduismo e Rei Arthur, organizou expedições arqueológicas que buscavam o Santo Graal, e inventou um programa de produção em série de arianos. Oficiais da SS engravidavam jovens recrutadas que se dedicavam exclusivamente aos bebês e, em vez de certidão de nascimento, essas crianças tinham um documento que as classificava como propriedade do Estado Nazista.

O que nunca entendi foi como um austríaco baixinho, feio, que escondia a careca com um penteado estranho, com um bigodinho ridículo e trejeitos efeminados podia ser o líder de uma raça de louros altos, fortes, bonitos, viris, de olhos claros e descendentes da pura linhagem germânica. Vai ver era só fetiche mesmo. Mas vamos lá. Os judeus eram os não-arianos mais influentes e em maior número na Alemanha. Logo, eram os inimigos mais próximos. Se no lugar dos judeus estivessem os turcos, bastante numerosos atualmente, eles seriam escolhidos como representação do mal. Então, basicamente, os judeus estavam no lugar errado e na hora errada. Só isso. Hitler não via a religião como problema, tanto que escreveu no doentio livro "Minha Luta": "Eu só via no judeu o lado religioso. Por isso, por uma questão de tolerância, considerava injusta a sua condenação por motivos religiosos". Imagine, Hitler falando de tolerância...

O problema mesmo era não pertencer à raça ariana. Ainda no "Minha Luta", no capítulo X, Hitler começa falando de como os franceses e os ingleses tentaram destruir a nação alemã criando um clima de ódio entre prussianos do norte e do sul, o que fortaleceu a influência judia.

Galliano é britânico, filho de mãe espanhola e radicado na França. Coitado. Seria executado antes mesmo de conseguir soltar um beijinho para o führer.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Biutiful, Hitchens e toca Raul


Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Qual será a forma da minha morte?
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida

O câncer já espalhado e ainda escondido...

Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida

(Canto para minha morte - Raul Seixas)


Numa Barcelona sem as cores de Gaudí ou Miró, Uxbal (Javier Bardem) é um homem comum, de vida medíocre, que apenas vive cada dia sem saber o que esperar do amanhã. Agenciador de mão-de-obra ilegal, chineses e africanos, vive ele mesmo meio à margem da sociedade, como um estrangeiro em sua própria terra. E, não tendo seus dias vida, segue então rodeado pela morte. A morte que ronda constante os imigrantes, a morte que o cerca devido à capacidade mediúnica de ter contato com alguns espíritos, a ex-mulher bipolar que vive e morre nas intermitências da doença, o pai que não conheceu, e a sua própria morte, dignosticada sob a forma de um câncer já espalhado pela região abdominal.

O inglês Christopher Hitchens é um dos maiores colunistas dos Estados Unidos. Por causa do seu ateísmo e sua crítica às religiões foi "carinhosamente" chamado de Cavaleiro do Apocalipse, junto com Sam Harris, Daniel Denett e o genial Richard Dawkins. A, digamos, homenagem foi feita por grupos de religiosos criacionistas americanos. Ano passado, Hitchens foi dignosticado com câncer. Iniciado no esôfago, espalhou-se por outros órgãos. Este mesmo tipo de câncer matou seu pai. Hitchens, então, escreveu um excelente artigo na Vanity Fair intitulado "Notícias da Tumorlândia", onde relata sua reação ao perceber a morte tão perto:

"Independentemente do tipo de "corrida" que a vida seja, tornei-me abruptamente finalista. Tinha planos reais para a minha próxima década. Será que não viverei para ver meus filhos casados?".

Uxbal é um europeu qualquer, sem grandes planos, com uma vida melancólica e uma mediunidade que lhe traz mais angústia que conforto. Hitchens é um europeu bem-sucedido, autor de livros que se tornaram best-sellers, colunista de importantes revistas ao redor do mundo, palestrante requisitado, e ateu militante. Apesar das vidas opostas e de perceberem a morte de maneiras distintas, ambos foram confrontados com com a mesma sensação de impotência em relação ao fim.

E ambos se fizeram exatamente a mesma pergunta. Em conversa com uma amiga, Uxbal pergunta por que aquilo estava acontecendo com ele.

No fim do seu artigo, Hitchens aborda a mesma questão e desconstrói essa visão inconformista expondo, de maneira genial, a insignificância da vida humana:

"Para a pergunta idiota "Por que eu?" o cosmos indiferentemente responde: "Por que não?"".

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O pagode do herói doido, Tom Wolfe e Chico Buarque

A banda de pagode LevaNóiz (é assim mesmo que escreve, acreditem) é destaque na edição dessa semana da revista Época. Sei lá o motivo, aparece na parte de cultura. Segundo o jornalista que escreveu a matéria, o hit "Liga da Justiça" vai dominar o verão brasileiro. E na matéria de três páginas o cara tenta justificar o inexistente.


Tom Wolfe, expoente do new journalism americano, é um crítico ferrenho. Com textos ágeis, ácidos e em linguagem informal, ficou célebre, entre outros, com livros e artigos que criticavam o deslumbramento com os delírios da arte contemporânea. No ótimo "A palavra pintada", fala de como a teoria passou a justificar a arte. Em um dos trechos, diz: "A arte se tornou inteiramente literária: as pinturas e as outras obras só existem para ilustrar o texto".

Pois o jornalista da Época resolveu escrever o texto que será ilustrado pelo LevaNóiz. Depois de chamar o pagode de "gênero maior do Carnaval baiano" (é quase Umberto Eco falando do Barroco italiano) que mistura o samba tradicional com com o "uso expressivo da percussão", ele diz que a música "Liga da Justiça" é uma mistura de cultura pop com Carnaval baiano. E, para espanto dos que se impressionaram com a complexidade do enredo, diz que "não foi um roteirista de desenho animado quem inventou a situação. Foi o compositor brasileiro J.Telles". Pois é, para quem achava que era ideia de uma equipe de roteiristas geniais da Marvel Comics e da Pixar, uma grande surpresa! E, óbvio, o genial compositor foi ouvido. Tão eloquente quanto o jornalista, disparou: "queria falar de uma coisa diferente, e o Márcio Vitor (co-autor) deu a ideia de tratar da amizade". Realmente, nunca antes na história desse país a amizade foi tratada de maneira tão original.

Pra quem teve a sorte de não ter ouvido a grande obra e está curioso, segue quase toda a letra da música:
Superman ficou fraco
O Pinguim jogou criptonita
Lex Luthor e Coringa
Roubou o laço da Mulher Maravilha
Pois é... o enredo é tão complexo que os inimigos, além de roubarem o laço da Mulher Maravilha, também roubaram o plural.

Se esses serão os heróis do verão, só resta fazer como Chico Buarque: "Chame o ladrão!".

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

As Águas de Oxalá

Oxalá é a divindade yourubá mais antiga. Aqui na Bahia, foi sincretizado com o Senhor do Bonfim. Em 1754, o capitão-de-mar-e-guerra português Teodiso Rodrigues de Faria instituiu a devoção ao santo português Senhor do Bom Fim. Salvo de um naufrágio, atribuiu a proteção à imagem que trazia a bordo. E, em agradecimento, construiu a igreja. Espalhada a notícia da imagem milagrosa que habitava a nova igreja da colina, os fiéis se multiplicaram e uma missa em homenagem ao santo passou a ser celebrada no segundo domingo depois do dia de Reis. Para preparar a igreja, havia uma grande limpeza - a lavagem. Os negros, que buscavam sincretizar sua crença para exercê-la sem perseguições, logo viram nessa lavagem uma semelhança à preparação do terreiro para as festas das Águas de Oxalá. Assim, Nosso Senhor do Bonfim ligou-se ao orixá. A participação dos adeptos do candomblé chegou a tal ponto que eles lavavam toda a igreja com água e flores. A Igreja Católica, então, proibiu a lavagem, que só voltou a ser permitida em 1963, sendo restrita às escadarias. Em terreiros mais, digamos, ortodoxos as Águas de Oxalá são comemoradas em agosto ou setembro. Mas muitos terreiros foram tão influenciados pela lavagem da igreja do Bonfim que adotaram a data como o início dessa celebração, que marca a abertura do ciclo de homenagens aos orixás.

Acima, Oxalá numa aquarela do gênio Carybé. Abaixo, o Hino do Senhor do Bonfim por outro gênio, Armandinho.

Epa Bàbá!


  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

Voltar ao TOPO