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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O reveillon de Sísifo e Drummond


Como contou Homero, Sísifo foi um rebelde que desafiou os deuses. Quando morreu, depois de muito aprontar, teve sua alma enviada por Zeus a Hades, deus dos mortos. E, como castigo pela desobediência aos deuses, foi condenado a carregar uma enorme pedra de mármore até o alto de uma montanha. Mas, ao colocar a pedra no topo, ela rolava até a base. Então, no dia seguinte, Sísifo recomeçava o seu trabalho absurdo. E assim ficaria para toda a eternidade.

O que os deuses fizeram com Sísifo foi tirar-lhe a esperança de um dia melhor, tirar-lhe a liberdade de escolher qual seu destino, confinando-o a uma monotonia torturante. Para Sísifo, não haveria mais reveillon, afinal todos os dias seriam sempre iguais.

A esperança da criação de uma vida diferente é o que faz o reveillon algo tão simbólico e especial. Sísifo habitou o poema de Homero. Melhor seria ter habitado o poema abaixo, de Drummond:
"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente".
FELIZ ANO NOVO

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Em Alguma Parte Alguma

Anteontem foi Dia de Finados. E, lembrar dos que não mais estão (pelo menos no conceito de matéria do senso comum), é manter viva a existência. Como bem disse André Comte-Sponville, no seu genial O Ser-Tempo: "sou o que fui, o que aconteceu comigo, o que fiz, je suis été, eu sou sido, como dizia Sartre, o que quer dizer que sou meu passado". E, como disse Guyau: "tudo é presente em nós, inclusive o próprio passado". O presente é essa tensão entre dois nadas: o passado, que já não é mais; e o futuro, que ainda não é. Somos, então, aquilo que lembramos e aquilo que projetamos. No seu novo livro, o sensacional Em Alguma Parte Alguma, Ferreira Gullar transita entre referências de existencialismo e física (ainda falarei muito desse livro....). No poema A Propósito do Nada escreve:

sou o que digo
e faço enquanto passo

sou a consciência de mim

e quando vinda a morte
ela se apague
serei o que alguém acaso
salve do olvido

já que para mim
(lume apagado)
nunca terei existido
Sigamos Ferreira Gullar. Salvemos do olvido aqueles que nos fazem ser...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Vai, Hendrix! ser gauche na vida


Jimi Hendrix era canhoto. Como apenas cerca de 10% da população possui essa característica, durante muito tempo se acreditou que ser canhoto era romper o padrão normal, o que significaria algo ruim. Para muitos, os canhotos eram mais instáveis emocionalmente. No dicionário Aurélio, canhoto também é definido como "inábil, desajeitado". O dicionário Houaiss cita o regionalismo informal que utiliza "canhoto" como diabo. Em italiano, a esquerda é chamada "la sinistra", enquanto a direita é "la destra". Em francês, "gauche" (esquerdo) pode ser usado como sinônimo de alguém que foge às regras, como bem disse Drummond no seu "Poema de sete faces":
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
JimiHendrix rompeu todos os padrões da música. Inventou um jeito próprio de tocar, desenvolveu uma técnica inacreditável, e se transformou no maior guitarrista da história. Abandonou a vida cedo, e tornou-se imortal.

Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison morreram aos 27 anos, num intervalo de um ano entre 1970 e 1971. E isso, obviamente, alimentou teorias conspiratórias as mais diversas. Oficialmente, a então namorada Monika Dannemann encontrou Jimi morto num quarto de hotel em 18 de setembro de 1970. Ele havia ingerido nove pílulas para dormir e vinho tinto (quase uma sobremesa para os padrões de loucura do rock da época!) . A autópsia revelou asfixia pelo próprio vômito. Depois, Monika mudou a versão da morte várias vezes. E, para completar a teoria da conspiração, em 2009, o ex-roadie James “Tappy” Wright escreveu um livro onde afirmava Hendrix foi assassinado pelo empresário.

Jimi Hendrix foi gauche na vida. Na verdade, ele foi o próprio anjo torto da música...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Vou-me Embora


Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu num remoto 19 de abril, em 1886, ainda século 19! Mas, como todo grande escritor, rompeu esse conceito raso de espaço-tempo e se fez eterno. Bandeira é autor de um daqueles textos de mudar a vida. Quando li pela primeira vez "Vou-me embora pra Pasárgada" foi um choque. De repente, descobri que eu não era o único que queria comprar passagem para um universo paralelo. Aquelas palavras eram a representação de tudo que um garoto deseja. Anos após aquele choque, descubro que nada mudou. Ainda desejo Pasárgada...

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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