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segunda-feira, 23 de maio de 2011

A guerra dos 30 anos


O texto de hoje seria sobre Lady Gaga, mas um rápido diálogo me fez mudar de idéia (não consigo aderir à reforma ortográfica...). Depois de um dia trabalhando no texto, algo não programado mudou a rota das coisas. E, este acaso, teve como mote, justamente, o acaso. Na conversa, considerei que, às vezes, o acaso se mostra mais eficiente que o deliberado. Por causa disso, lembrei de dois livros.

No livro "O Deserto dos Tártaros", de Dino Buzzati, Giovanni Drogo é um cara que sonhava desde sempre em ser um militar condecorado por um feito heróico. Entrou para o exército e foi enviado para o forte que guardava o Deserto dos Tártaros. O seu destino, tão planejado, parecia caminhar a passos largos. Afinal, quando os inimigos tártaros cruzassem o deserto e iniciassem a guerra, a tropa que os derrotasse alcançaria a glória nacional. Durante 30 anos, Drogo espera o que parece certo: a guerra. Mas o destino falhou, e Drogo perdeu-se nas suas certezas e "entendeu que transcorrera uma geração inteira, [...] que ele já ultrapassar o cume da vida para o lado dos velhos [...] sem ter feito nada de bom. Um nó apertava o coração de Drogo: adeus, sonhos de um tempo distante, adeus...".

O livro "Travessuras da menina má", de Mario Vargas Llosa, tem início na Lima dos anos 50. Por sinal, acho Lima uma cidade feia, mas, imaginem, tem gente que gosta! O jovem Ricardo Somocurcio conhece a complicada e nem tão perfeitinha Lily e se apaixona. Tudo corre como mais uma daquelas paixões juvenis que duram a eterniadde de um verão. Já nos anos 60, Ricardo segue a vida como havia planejado, como tradutor da UNESCO em Paris. Assim como na vida de Drogo, o destino parece caminhar a passos largos. Mas, eis que vem o acaso, e Ricardo reencontra Lily de uma maneira incrível. E, assim, eles seguem por 30 anos. Os poucos encontros ao acaso interferem de tal maneira na vida de Ricardo, que são suficientes para alterar tudo que ele havia planejado.

Ao longo de 30 anos, Ricardo viveu guiado pelas incertezas que aconteceram. Ao longo de 30 anos, Drogo viveu guiado pelas certezas que não aconteceram. E, no final, ambos tiveram alegrias e frustações. Pois, Sartre de novo, "você não é senão a sua vida".

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Elogio de Vargas Llosa


Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel de Literatura! Sem dúvidas, o prêmio está em boas mãos. E, para mim, não só pela sua obra literária. Numa América do Sul onde a maioria dos intelectuais não conseguiu se desvencilhar das ilusões utópicas de décadas passadas, Vargas Llosa conseguiu ser uma voz destoante, que não é complacente com ditadores por causa da direção das suas idéias, e não vê o populismo barato como uma representação realmente popular. Voltando à literatura, semana passada li o "Elogio da madrasta", uma curta novela, digamos, erótica, encomendada por um amigo. E o "digamos" se deve à destreza de Llosa em optar por trocar imagens explícitas por referências elegantes e, por isso, muito mais instigantes. O livro é um misto de clichês desconstruídos e (típico de Llosa) inserções de arte. A história principal é intercalada por capítulos que são mini-contos sobre pinturas clássicas que têm a ver com as etapas do enredo, com direito a imagens dos quadros. Tudo se desenrola em torno da relação pai-filho-madrasta, mas com inversão do senso comum destes tipos, e ênfase na na parte lúdica dos desejos, em vez de focar nas ações. A madrasta não é uma bruxa, é uma linda mulher de 40 anos. O filho é louco pela madrasta. E o pai tem um ótimo relacionamento com ambos e, de nenhuma forma, é ausente com a esposa. Na relação de (pseudo) incesto entre a madrasta e o menino, a vítima é a mulher, e não a inocente criança. E é no menino Fonchito que a alusão à outras culturas é clara: ele é loiro, olhos azuis, cabelos cacheados, como o próprio Eros, deus do Amor, filho do deus da Guerra e da deusa da Beleza. A madrasta, então, é só uma simples mortal acuada pela força superior divina.

Mario Vargas Llosa conseguiu transformar o que poderia ser uma pornochanchada numa divertida história onde a única coisa realmente explícita é a beleza da arte.

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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