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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Niemeyer e o mármore de Bernini


Quando se fala em arquitetura moderna, logo se pensa na racionalidade das formas, ortogonais, simétricas, padronizadas, definidas pela função da arquiteura-máquina, que se despe dos ornamentos que enchiam as construções de coisa nenhuma, e se revela na crueza nua do concreto e do vidro para evidenciar, de forma sincera, do que é feito. 

Mas, eis que vem Niemeyer e, como um neófito que reinventa o possível por não saber ser impossível, dobra levemente a dureza da arquitetura moderna, e faz do concreto, ornamento. A forma é trabalhada de um jeito que deixamos de perceber o concreto como ele é, deixando de ser signo para transcender e aparecer como um significado, algo novo. Parece meio confuso, mas vamos com Ferreira Gullar que vai ficar mais claro. 

 Ferreira Gullar, sempre genial, escreveu: "A realidade material do signo está quase sempre oculta pelo significado. Por exemplo, na Ressurreição, de Pietro della Francesca, percebemos o Cristo como Cristo, mas também como uma imagem que possui determinadas características. advindas da superfície onde ela está pintada: luminosidade, lisura, transparência, etc. É certo que, quanto mais me atenho ao que o signo sgnifica, menos distingo o que nele é especificamente material". Ou seja, quanto mais vemos em uma escultura o que ela representa, menos percebemos a pedra de que ela é feita. Gullar avança mais e diz: "quando o pintor imita à perfeição um braço, de tal modo que nenhum traço do pincel se percebe ali, ele apaga o seu próprio fazer e apresenta o que pintou como uma aparição, um milagre". 

 Bernini foi um escultor genial. Não vou me estender na biografia dele, fica pra outro texto. Na impressionante escultura O Rapto de Proserpina, Bernini alcançou tal perfeição nos detalhes das mãos que seguram o corpo que deixamos de ver ali o mármore duro e imóvel, para vermos o toque leve na pele macia. O mármore, então, perdeu sua condição de signo, e se desvelou como o próprio significado. A alquimia da forma, transmutando mármore em carne 

 E, assim, Niemeyer transformou o concreto da arquitetura moderna no mármore de Bernini.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Os fósseis high-tech de Calatrava

O arquiteto espanhol Santiago Calatrava é conhecido por suas obras que mais parecem esqueletos. Agora o Rio de Janeiro abrigará um desses "ciber-fósseis". Na segunda-feira, 21 de junho, foram divulgadas as primeiras imagens do Museu do Amanhã, que será instalado no Píer Mauá, zona portuária da cidade. O edifício de 12,5 mil m² teve como inspiração as folhas de árvores tropicais, e tem como principal característica enormes coletores solares móveis na fachada. Abaixo o video oficial divulgado pelo escritório de Calatrava.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Caixa de dormir


Você chega no aeroporto e descobre que houve um pequeno imprevisto que vai gerar um atraso de apenas 5 horas no seu vôo (não aderi à reforma). Traduzindo: dormir sentado num banco metálico pouco ergonômico. Pois é, pensando nisso, o escritório russo Arch criou a Sleepbox, um módulo compacto de habitação temporária para ser utilizado em aeroportos, por exemplo. Medindo 2m x 1,40m x 2,30m o espaço uma cama, um criadinho-mudo, sistema de ventilação, alerta sonoro, televisão LCD, WiFi, plataforma para um computador portátil e espaço para as malas. Uma ótima idéia. Tá certo que quando eu apresentei um projeto semelhante na UFBa neguinho fez cara feia, disse que era inviável, blá blá blá... Mas isso é outra história. E, no fim das contas, acho que eu não estava tão errado...




segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A metamorfose do caos

Infelizmente, não é incomum encontrar obras inacabadas em nossa paisagem. Os anos passam e lá está aquele viaduto que sai do nada e vai desembocar em lugar nenhum... Então, o que fazer? Em Nova York, havia uma extinta linha elevada de trem que se tornou um ótimo exemplo de requalificação urbana. A High Line foi inaugurada em 1934 como parte de um grande plano de expansão do transporte público de massa. Porém, com o aumento do transporte por caminhões, a linha perdeu importância já nos anos 50, sendo parcialmente demolida nos anos 60, sendo desativada na metade da década de 80. Depois de muito debate, decidiram não demolir a linha, preservando sua importância histórica, mas adaptando-a para um uso mais condizente com a demanda urbana atual. Fizeram um interessante e agradável parque suspenso.





quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Non Plus Ultra


Non Plus Ultra - nada mais além - estava escrito na faixa que enlaçava as Colunas de Hércules, no Estreito de Gibraltar. Ali terminava o mundo permitido aos homens. Ulisses, sempre indomável, resolveu juntar a turma pra descobrir o outro lado e terminou no Inferno. Enfim, essa introdução foi para falar das Torres de Hércules, projetadas pelo espanhol Rafael de la Hoz. Como a lenda é um forte símbolo espanhol e o terreno permite visualizar o Estreito, o arquiteto decidiu utilizá-la no conceito dos edifícios comerciais. A estrutura cilíndrica externa se apresenta como um imenso mosaico composto pelas letras da famosa inscrição, e também cumpre a função de barreira para a luz solar. Realmente, um projeto espetacular, que une beleza, funcionalidade, e uma forte identidade local. Se fosse aqui, diriam que o gasto com concreto seria muito alto, e reprovariam o projeto...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Caixotes habitáveis


Tem gente que acha que não se faz mais apartamentos como antes, que agora os quartos são pequenos, os banheiros minúsculos, as cozinhas apertadas... Pois é. Na verdade, sempre tivemos uma cultura de amplos espaços. E, a adequação dos novos empreendimentos ao crescimento exponencial e desordenado das grandes cidades vai de encontro a esta cultura. Mas, em outros países, a escassez de espaço é a regra há muito tempo. Em 1972, Kisho Kurokawa projetou a torre de casulas Nagakin, em Tóquio. É um misto de arquitetura high-tech com influências em ficção científica; falta natural de espaço na cidade; e teste de claustrofobia! As unidades de habitação individual possuem apenas 10m2, em 2,5 x 4m, e foram construídas separadamente, como um produto industrial em série, posteriormente acopladas à estrutura comum de circulação. Também poderiam ser removidas ou agrupadas de maneira diferente. E aí, quem se habilita a morar no caixotinho?!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Simples assim



Quando escrevi sobre capela de São Bartolomeu do Qubus Studio, falei que o projeto de reforma de uma igrejinha numa pequena vila no interior da República Checa poderia parecer chato e desinteressante para a maioria. E, por isso, valorizei ainda mais a solução inovadora e ousada deles. Da mesma forma vejo este projeto do escritório Alan Chu & Cristiano Kato. Como muitos reagiriam à proposta de projetar a casa do caseiro? Alguns negariam, outros fariam meio contrariados e desmotivados... e outros encarariam como uma oportunidade para o inusitado. E, assim, foi criado esse belo projeto. Obviamente, deveria ser econômico e compacto. A partir disso, tiraram o maior proveito possível da geografia local, usaram materiais baratos e formas simples. Todos os ingredientes para um projeto ruim. Mas, mesmo assim, conseguiram o improvável. Realmente, um projeto muito bom.


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Um bom lugar pra passear, Copacabana


Ano que vem começará a construção da nova sede do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, na Avenida Atlântica, em Copacabana. O prédio substituirá a famosa boate Help, que bem poderia se chamar Hell, onde gringos experimentavam os delírios tropicais acompanhados das personagens underground da noite carioca. Após um concurso com sete escritórios participantes, foi escolhido o projeto do americano Diller Scofidio + Renfro. Com uma linguagem desconstrutivista, a principal característica do projeto é criar um forte relação do interior do museu com o exterior. Grandes painéis de vidro permitem que as áreas internas sejam vistas pelas pessoas no calçadão. E, falando em calçadão, a marca da orla carioca também foi incorporada ao prédio. As rampas terão pavimentação semelhante à utilizada na rua, como se a cidade penetrasse no museu. A construção está orçada em R$ 65 milhões, e promete ser inaugurada em 2012, a tempo da Copa 2014 e dos Jogos Rio 2016. Pois é, o habitat dos pecadores gringos amadores dará lugar à casa dos novos demônios profissionais da tal arte contemporânea, seja lá o que isso ainda seja...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

De papel


A empresa suíça The Wall AG desenvolveu esta casa de papel de 36m2, ecologicamente correta, que pesa apenas 800kg e custa módicos U$ 5 mil! As paredes são feitas de uma camada interna de celulose e resina em formato hexagonal, semelhante à uma colméia, revestida exteriormente por placas maciças de papel reciclado, tudo prensado à vácuo (daí a necessidade dos “favos” internos). O resultado final é extremamente resistente e, segundo o fabricante, suporta até terremoto. A Delta State Oil, da Nigéria, já encomendou 2 mil unidades para a criação de uma vila de trabalhadores. Outros países africanos mostraram interesse em utilizar a casa para refugiados de guerra e em áreas de epidemia de cólera. O projeto foi desenvolvido pelo engenheiro Gerd Niemoeller. A idéia é muito boa. Ele só esqueceu de chamar uma arquiteto, né? Porque a casa é bem feinha...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Tetris



Projeto muito interessante do escritório esloveno Ofis arhitekti. Construído em um terreno de 58x15m em Ljubljana, capital da Eslovênia, o edifício residencial conta com 650 apartamentos. Quando as fachadas começaram a ser desenhadas, as pessoas do escritório perceberam a semelhança com o clássico jogo Tetris, que acabou batizando o projeto. E, além de um bom projeto de arquitetura, o prédio foi um bom negócio. A construção custou 650EUR/m2 e foi vendida a 1.300 EUR/m2!






segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Tinha uma pedra no meio do caminho


Não é outro Stonehenge. Nem uma parte da ilha de Lost. É a Biblioteca España, projetada pelo arquiteto Giancarlo Mazzanti, em Medelin, Colômbia. O prédio é composto por três volumes que se apresentam como grandes rochas no topo de um morro. Desta forma, há uma integração à geografia local e a criação de um marco na cidade, já que a obra pode ser facilmente avistada de muitos locais. Para criar a sensação de uma imensa pedra, além da forma, foram utilizadas placas de ardósia preta na fachada. A densa volumetria é quebrada por janelas dispostas de maneira assimétrica e pelas cores vibrantes nas áreas de acesso às edificações. Internamente, os prédios apresentam ao visitante uma imagem bem diferente do exterior. Espaços amplos e luminosos, materiais leves e cores claras em nada lembram a solidez e a dureza de uma imensa rocha.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Casa pré-desfabricada


Quando se fala em casas pré-fabricadas logo se pensa em casas com linhas retas. Mas, e quando uma casa pré-fabricada é projetada pelo arquiteto desconstrutivista Daniel Libeskind? Obviamente, a ortogonalidade iria ser abolida. E foi isso que aconteceu na sua “The Villa”, cujo projeto foi concluído recentemente. A casa, produzida em estrutura de madeira, ocupa uma área de 26 x 22m, e possui 4 quartos, sala de estar, estar íntimo e escritório. Segundo Libeskind, a casa é “uma dramática estrutura que emerge do solo, como um cristal nascendo da pedra”. E, não é só a obra dele que segue linhas não convencionais. A própria carreira de Libeskind é peculiar. Sobre isso, declarou: “Eu fiz tudo inverso em minha carreira. A maioria das pessoas começa com pequenos projetos, e depois projetam um grande museu. Eu comecei com um museu”. Sorte dele!


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O papa é pop


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E, já que falei na cadeira Panton, taí ela de novo. Em 2006, os designers Maxim Velcovsky e Jakub Berdych, do Qubus Studio, foram chamados para refazer o interior da igrejinha de São Bartolomeu, numa pequena vila no interior da República Checa. Para a maioria podia parecer um contrato chato e sem atrativos, mas não foi assim que eles pensaram. E, da mesma forma que não pensaram como a maioria ao aceitar o projeto, também não foram óbvios ao realizá-lo. Descascaram as paredes, que haviam passado por várias pinturas, para mostrar os diversos aspectos que tiveram ao longo do tempo; substituíram o altar por cadeiras Eames DSR; puseram uns tapetes orientais; e trocaram os pesados bancos de madeira pela leve e sinuosa cadeira Panton, devidamente personalizada com uma pequena cruz perfurada no encosto. Um projeto bastante ousado e com um ótimo resultado. Pois é... as cadeiras perfuradas devem ter perdido a garantia, mas ganharam a benção.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Inaugurando

Caros, é com prazer que inauguro o primeiro blog do Bahia Vitrine. Lembro bem quando Paulo me falou da idéia do site, da preocupação em criar um bom nome, do primeiro layout... Pois é. O Bahia Vitrine cresceu. E, depois de alguns anos como admirador, passo a colaborador. Neste blog vou escrever sobre arquitetura, arte, design e o que mais aparecer. Inicialmente, farei postagens às segundas e quintas (quem sabe também em outros dias?). Agradeço aos amigos Jacques e Paulo pelo espaço. Abraço a todos. Espere que gostem.

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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