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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Os bandidos da USP, o ódio, e a psicopatia ideológica

À esquerda, os invasores pintam seu pensamento. À direita, obra genial de Banksy.


A USP presenciou dias de extrema barbárie patrocinada por um grupo de bandidos alimentados pela psicopatia ideológica da tal luta de classes. Entre moletons importados e camisetas do PCO, proferiam aquela mesma ladainha cheia de jargões e clichês que caducaram antes mesmo de algum dia fazer sentido. Esse papo de combater a opressão-do-capital-imperialista-burguês me dá uma preguiça danada... Nesses dias de chuva então.. Mas, vamos lá.

A psicopatia é um distúrbio que tem como característica uma disfunção moral. O psicopata compreende plenanente o que se passa a seu redor, ele não é louco, ele apenas conduz as coisas de maneira a obter sempre o resultado que deseja, sem se preocupar com as consequências. Ele não tem freios morais. Tanto assim que é considerado um transtorno de personalidade dissocial. Como bem definiu Philippe Pinel no seu "A Treatise on Insanity": "Nenhuma mudança sensível nas funções do entendimento, mas com uma perversão das faculdades ativas, marcada por uma fúria sanguinária e transcendente, com uma cega propensão a atos de violência". Atualmente, pela Classificação Internacional de Transtornos Psíquicos (CID), algumas características deste transtorno são:

- Clara e constante falta de responsabilidade e desacato às normas sociais, regras e obrigações.
- Pouquíssima tolerância a frustrações e tendência ao comportamento agressivo e violento.
- Incapacidade de experimentar consciência de culpa ou de aprender com a experiência e, principalmente, com penalidades.
- Tendência a culpar os outros e a dar explicações superficiais do próprio comportamento condenável.

No site do PCO, muito benquisto pelos invasores da USP, logo de cara temos o (des)prazer de ver uma foto do grande humanista Leon Trotsky. Uma das obras da figura é " A Moral e a Revolução". Lá no capítulo 16, lê-se:

"Na luta de classes contra o capitalismo, são permissíveis todos os meios? A mentira, a falsificação, a traição, o assassínio, etc?
São admissíveis e obrigatórios apenas os meios que aumentam a coesão do proletariado, inflamam sua consciência com um ódio inextinguível para com toda forma de opressão, ensinam-lhe a desprezar a moral oficial e seus arautos democráticas, dão-lhe plena consciência de sua missão histórica e aumentam sua coragem e sua abnegação. Donde se conclui, afinal, que nem todos os meios são válidos".

Entenderam? Ele não condenou o terrorismo. Apenas condenou o terrorismo que não serve à causa. Como um psicopata, Trotsky desconsidera os valores morais, relativizando-os de acordo com seu interesse próprio. Assim orientados, os bandidos da USP acham que invadir prédio público, depredar patrimônio, descumprir ordem judicial e carregar coquetéis molotov na mochila são coisas "admissíveis e obrigatórias", desde que sejam feitas a favor das suas ideias.

Os invasores, numa "clara falta de responsabilidade e desacato às normas sociais", mostraram que têm "pouquíssima tolerância a frustrações" e demonstraram todo o seu "comportamento agressivo e violento". Mas, por "incapacidade de experimentar consciência de culpa ou de aprender com penalidades", tentarm se fazer de vítimas, acusando a polícia de violência psicológica, numa clara tentativa de "culpar os outros e a dar explicações superficiais do próprio comportamento condenável". Opa, acho que já li isso antes!

Se alunos de Letras, Filosofia e Sociologia usam coquetéis molotov para argumentar, há algo de muito errado...

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Planeta dos Macacos de Rousseau, o Complexo do Alemão, e os humanos de Voltaire.


"Comparai o estado do homem civilizado com o do homem selvagem, e investigai como além da sua maldade, suas necessidades e suas misérias, o primeiro abriu novas portas à miséria e à morte". Esse é um trecho do livro "Discurso Sobre a Origem da Desigualdade", de Jean-Jacques Rousseau. Para ele, o homem é, por natureza, um ser puro e imaculado, desprovido de todo mal, amém. Aí vem essa tal de sociedade para oprimir e corromper o coitado que, então, se transforma nesse monstro que é o homem civilizado. Ou seja, pra Rousseuau os bárbaros são os civilizados e os civilizados são os bárbaros. E, sendo assim, um criminoso deixa de ser um canalha que optou pela maldade e passa a ser uma vítima desse mundo cruel... Voltaire, sempre genial, comentou o delírio de Rousseau com a acidez de sempre: "Ninguém poderia pintar um quadro com cores mais fortes dos horrores da sociedade humana, para os quais nossa ignorância e debilidade tem tanta esperança de consolo. Ninguém jamais empregou tanta vivacidade em nos tornar novamente animais: pode-se querer andar com quatro patas, quando lemos vossa obra".

O filme "O Planeta dos Macacos: A Origem" conta, como nos diz o título, o início do domínio do mundo pelos macacos. Basicamente, o filme mostra como os macacos eram oprimidos e torturados por humanos cruéis que, num personagem caricato, dizem só se interessar por lucros. Estimulados por uma droga que lhes confere mais inteligência, os macacos logo percebem que "a história de toda a sociedade existente até hoje tem sido a história das lutas de classes". Pois é, nem sempre capacidade de raiocínio dá em boa coisa, mas sigamos. Embebido pelo sentimento de revolta e libertação, César, o chimpanzé principal, organiza a revolução. E, como todo primata cheio desses anseios, impõ-se como líder do movimento endurecendo, mas sem perder a ternura jamais. Convoca um gorila gigante pra dar uma surra no seu principal opositor, e tá tudo dominado. Nos momentos de confronto entre símios e humanos, fica clara a intenção do diretor em nos fazer ter carinho pelo bárbaro oprimido. Enquanto os macacos são assassinados num tom martirizante, os humanos sempre têm mortes que paracem uma pena pelas suas maldades.

No Rio, e em outros lugares, muitos pensam como Rousseau. O poder paralelo do tráfico que domina os morros seria só uma consequência dessa sociedade perversa que transforma anjos em demônios. O cara que carrega um fuzil, comanda arrastões, e vende crack sem piedade ou remorso deixa de ser o vilão, e passa a ser vítima da civilização. Sendo assim, não cabe penalizá-lo. Com muito alarde divulgou-se a nova maravilha que era o Complexo do Alemão. Com antecedência o governo disse: "pessoal, se preparem que estamos chegando". Orgulhoso, contou que não houve confronto, e teorizou que prender não era o objetivo, o que queriam era conquistar território. Afinal, se é a civilização que cria os bandidos, melhor deixá-los num território remoto, longe de nós, onde possam exercer sua natureza boa, né? Pois é... enquanto o governo brincava de WAR, a barbárie se organizava no mundo real. E, quando tudo parecia tranquilo, mostrou que continuava tão viva quanto sempre.

Pena que Rousseau não teve a oportunidade de estudar a vida dos macacos. Os chimpanzés, por exemplo, para se impor frente a seus adversários cometem atos de uma atrocidade chocante. Uma das cenas de documentário mais impressionantes que vi é de um grupo de machos que atacam uma fêmea e roubam seu recém-nascido. Após jogar o macaquinho de um para o outro, decidem matá-lo. O macho dominante morde e esmaga o crânio do pequenino, e depois todos o comem. Nós só somos humanos porque civilizados. A sociedade não é o meio que corrompe nossa maldade e, sim, o freio moral e legal que nos impede de voltar à barbárie.

Prefiro os humanos de Voltaire aos macacos de Rousseau...

terça-feira, 26 de julho de 2011

Amy Winehouse, Salvador e a escolha do cadáver adiado

"Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia". Essa é a primeira frase do livro "O Mito de Sísifo", de Camus, onde ele trata da liberdade de viver. Escolher os caminhos da própria vida é exercer de forma plena a condição de ser humano.

O assunto do fim da semana, claro, é a morte de Amy Winehouse. Vi muita gente se dizendo chocada, pega de surpresa, triste com essa notícia repentina... Bom, meu comentário quando soube foi: "Tecnicamente, ela ainda podia ser considerada viva?". Não nutri nenhum sentimento, bom ou ruim, sobre o fato. Era apenas algo bastante previsível.

Amy Winehouse tinha 27 anos. Poderia ser uma mulher sexy, talentosa, com uma presença de palco avassaladora, cheia de vida e carisma. Mas, ela decidiu ser um zumbi deprimente. E, independente de qualquer teoria socio-psicológica, ela teve opção, ela escolheu seguir o caminho que teve. No momento em que tentaram levá-la à reabilitação ela disse não, não, não, e aí confirmou Camus, também em "O Mito de Sísifo": "Existe um fato evidente que parece absolutamente moral: um homem é sempre vítima de suas verdades. Uma vez que as reconhece, não é capaz de se desfazer delas. Precisa pagar um preço". Ela decidiu ser aquela sua verdade, se consagrou cantando que assim seria, e pagou o que era devido à escolha. E esse papo de pressão causada pelo sucesso me dá até preguiça de comentar. Quer dizer que o problema foi o sucesso? Melhor seria ser fracassada, então? É melhor ser uma mega-estrela-pop-mundial ou cantar num boteco decadente no bairro mais perigoso da cidade? Pra mim, excesso de opções não é problema. O problema é a falta delas.

Ontem à tarde, na av. Garibaldi, uma moça, também de 27 anos, levou um tiro nos rosto. Está na UTI. Espero que ela saia bem de mais essa barbaridade que chamamos carinhosamente de cotidiano. Garanto que não estava escrito na sua agenda: 16h, ser baleada no semáforo. Ela não teve opção. Um cara acordou, tomou café, tomou banho, limpou a arma, trocou de roupa, e decidiu que queria ter alguma coisa. E, para satisfazer seu desejo de ter algo, julgou que valia a pena tirar o direito de alguém decidir sobre a própria vida.

Amy escolheu sua trajetória de vida e morte. Outras tantas pessoas têm seu caminho interrompido sem que isso tenha acontecido de maneira consentida. Fernando Pessoa disse ser o homem um "cadáver adiado que procria". Eu não tenho pena de Amy. Na verdade, acho que ela foi bem feliz. Afinal, foi cadáver quando bem quis...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Crônica de uma sorte embriagada

"No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo".

Assim começa o livro "Crônica de uma morte anunciada", de Gabriel Garcia Márquez. Logo de cara, já sabemos que Santiago Nasar vai morrer. Resta saber como isso vai acontecer. E, aí, temos a história. De início, as coisas vão acontecendo sem fazer tanto sentido, nos perdemos pela falta de familiaridade com os lugares, as pessoas. Mas, aos poucos acontecem os encontros, os desencontros, as coisas vão se encaixando, fazendo sentido, até chegarmos à cena final da morte.

Em "Se beber, não case 2", temos algo parecido. Desde sempre já sabemos o início e o fim, só nos resta entender como os extremos se conectam. Mas, à diferença do primeiro filme, a graça não está na surpresa, mas na repetição. A sequência de fatos é a mesma: acordar sem lembrar de nada, achar um animal, uma pessoa desconhecida, perder um amigo, e sair juntando os cacos pra tentar montar o quebra-cabeças.

No primeiro filme, a comédia está na surpresa, na sucessão de fatos inusitados, mais do que em diálogos ou ações isoladas. Neste segundo filme, como já conhecemos o enredo, restou ao realizadores a ênfase no humor pontual. E aí se destacam a presença de um macaco politicamente incorreto e de situações de cunho sexual que, com certeza, vão gerar polêmica. A dose pode ter sido exagerada, mas a fórmula é clássica, tanto que foi analisada por dois grandes pensadores: Bergson e Freud.

Henri Bergson, no seu "O Riso", teoriza a fundo o Risível, como é chamado o humor na filosofia estética da arte. Bergson diz que não existe Risível fora do campo humano: "Não há cômico fora daquilo que é propriamente humano. Uma paisagem poderá ser bela ou feia: não será, nunca, risível. Nós poderemos rir de um animal, mas porque se terá surpreendido nele uma atitude de homem ou uma expressão humana". Acho que, pelo texto, Bergson acharia graça de um macaquinho com uma jaqueta jeans dos Rolling Stones bebendo, fumando e cheirando...

Já Freud... bem, aquela coisa de sempre. Na juvetude seus textos eram de uma profusão hormonal... depois de velho ele até reviu alguns. Deve ter sido o efeito da andropausa. Mas, voltemos ao assunto. Quando jovem, Freud dedicou-se um pouco ao Risível. E, qual foi sua tese? Lá vai: "nós rimos quando um complexo sexual reprimido se exprime simbolicamente num momento de distração ou num termo equívoco, e quando nos apercebemos bruscamente da significação sexual profunda sobre a forma simbólica". Resumindo: piadas de duplo sentido, ou de um sentido só mesmo. Freud, certamente, gostaria da cena em que o macaco simula fazer.... Bem, deixa pra lá. Quem vir o filme saberá.

Assim como o livro de Garcia Márquez, o filme se valida pelo miolo. Afinal, todos já sabemos o início e o fim. Resta, apenas, degustar o miolo.

"Depois, [Santiago] entrou na casa pela porta dos fundos, que estava aberta desde as seis horas, e desabou de bruços na cozinha". Fim.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sai Baba, Voltaire, e a farsa dos milagres


Eu sou da teoria de que o mundo fica melhor quando morre um canalha. Semana passada morreu Sai Baba. Sai Baba é um autoproclamado iluminado que conquistou milhares de devotos com uma fórmula infalível: extravagância, truques baratos de ilusionismo, parábolas e fábulas cheias de metáforas bregas, obviedades piegas, e uma capacidade incrível de não dizer nada em muitas palavras. Acessei o site dos seguidores brasileiros de Sai Baba. Lá estavam muitos de seus pensamentos, se é que podemos chamar assim. Não tive muita paciência de ler aquele amontoado de palavras órfãs de sentido. Mas me deparei com algo interessante. Diz o guru:

"A mente deve se transformar em servidora do intelecto, não em escrava dos sentidos. Ela deve ter discernimento e desapegar-se do corpo. Como o fruto maduro do tamarindo, que se torna solto dentro da casca, a mente deve desprender-se desta casca, deste invólucro chamado corpo. Batam num tamarindo verde com uma pedra e vocês causarão dano à polpa no interior; mas batam numa fruta madura e vejam o que acontece. É a crosta seca que cai; nada afeta a polpa ou a semente.O aspirante espiritual maduro não sente os golpes do destino ou da sorte; é o homem imaturo que é afetado por cada revés".

Hum... bem interessante. Quer dizer que a mente servidora do intelecto (seja lá o que isso signifique) deve ser como um tamarindo. Muito inteligente essa analogia. E estou bem de acordo. Acho que muita gente possui dentro da caixa craniana a mesma coisa que um tamarindo maduro tem dentro da casca. O que me surpreende é como as pessoas que creem em Deus acreditam nesses gurus. Elas não percebem que crer em alguém autoconsagrado procurador divino é rebaixar Deus a uma condição ridícula.

O genial Voltaire também recorria a fábulas, só que para criticar ideias que não concordava. Ele usava esse recurso por ser um estilo recorrente dos pretensos sábios. Era mais um componente do seu repertório irônico e sagaz. Para falar sobre milagres e religiões, Voltaire não recorreu às fábulas, mas manteve o discurso ácido. Em seu "Dicionário Filosófico", disse: "Chamamos milagre à violação das leis divinas. Assim, quando um morto fizer a pé duas léguas de caminho levando a cabeça debaixo do braço, isto quer dizer que sucedeu um milagre". A abordagem de Voltaire sobre os milagres segue um linha extremamente inteligente. Voltaire nega os milagres justamente por causa da existência de Deus, e não pela sua inexistência. Num outro trecho, escreve: "Por que faria Deus um milagre?" e segue como se Deus respondesse: "não pude, com meus decretos divinos, com minhas leis eternas, preencher certo plano; vou mudar minhas leis imutáveis, e tratar de executar o que não consegui fazer". Então, Voltaire conclui: "Ousar supor que Deus realiza milagres é insultá-lo, é dizer-lhe frágil e inconsequente. Portanto, é absurdo crer em milagres, é desonrar de certo modo a Divindade".

Voltaire, de certo, sentiria enorme vergonha alheia de Sai Baba. Um dos grandes "milagres" do tal guru é cuspir ovos de ouro. Quer dizer que, para melhorar a humanidade, Deus mandou um cara que vomita ovo pela boca? Acho que Voltaire diria que se isso é o máximo que Deus pode fazer, melhor deixar aos homens a responsabilidade sobre suas vidas.

Abaixo segue um trecho do documentário "O Segredo de Sai Baba", que aborda as inúmeras acusações de pedofilia e mostra o asqueroso truque do ovo de ouro.

O mundo ficou um pouco melhor essa semana...


terça-feira, 12 de abril de 2011

Massacre no Rio, Dostoiévski, e a criação de Deus


Um jovem cria uma realidade distorcida em sua cabeça, dividindo o mundo entre as pessoas ordinárias e as extraordinárias, que "buscam de várias maneiras a destruição do presente em nome de algo melhor". E, "se uma pessoa como essa é obrigada, no interesse de sua idéia, passar por cima de um cadáver ou chapinhar no sangue, ela pode encontrar dentro de si mesma, em sua consciência, uma sanção" para isso. Esse jovem passa, então, a acreditar que faz parte desse grupo excepcional. Isolado do mundo, vivenciando essa realidade paralela, fica obcecado pelas próprias idéias, e alimenta um desejo de provar a si mesmo que pode fazer algo grande. Depois de muito pensar, atormentado e delirante, preso nas suas angústias e frustrações, decide matar. De maneira cruel, bárbara, mata pessoas que nem mesmo têm a oportunidade de se defender ou de entender o que se passa. E o que para todos é a revelação do lado mais perservo e sombrio do ser-humano, para ele torna-se um ato de auto-sacrifício religioso.

Essa história não se passa no Rio de Janeiro. Acontece numa São Petersburgo sombria, no fim do século XIX. Essa é a história de Ródion Románovich Raskólnikov, protagonista do famoso romance Crime e Castigo, de Dostoiévski.

Dostoiévski via Deus como uma justificativa para o Bem. Construiu suas grandes obras retratando a angústia humana, a busca incansável pelo sentido da vida. Cristão fervoroso, acabava amarrando esse sentido da vida à existência divina. Como disse em Os Irmãos Karamázov, "a questão principal que será perseguida em todas as partes desse livro é a mesma de que padeço, consciente ou inconscientemente, a minha vida inteira: a existência de Deus". E esse Deus construído pelo escritor russo é o norte moral da humanidade, o guia para um mundo melhor, mais humano. Numa das passagens mais famosas d'Os irmãos Karamázov, o religioso Aliócha pondera que se "não existe imortalidade da alma, então não existe a virtude, logo, tudo é permitido". Raskolnikóv, de Crime e Castigo, só foi capaz de tamanha barbaridade porque não enxergou além da condição humana terrestre.

No Rio, um desequilibrado viu em Deus a justificativa para o Mal. E, nessas horas, sempre fico um pouco incomodado. Afinal, sendo Deus onipotente, onipresente e onisciente, por que deixou que alguém usasse Seu nome para cometer tamanha barbaridade? Que não se importe que cometam crimes em nome do diabo, vá lá, mas saber que Seu nome será atrelado à morte de uma dúzia de crianças e, simplesmente, não fazer nada? O assassino só foi capaz de cometer tamanha brutalidade porque desconsiderou a condição humana terrestre.

Ferreira Gullar costuma dizer que "o homem inventou Deus para que Deus o criasse". E, assim, cada deus inventado por cada homem guia a humanidade como um personal trainer preocupado apenas com seu pupilo. O deus de Dostoiévski o confortou quando seu pequeno filho de três anos faleceu, e o fez transformar suas dores em arte. O deus do assasino do Rio o atormentou, e o compeliu a transformar suas dores em morte.

Uma barbaridade desse tipo aconteceu na cidade que dizem ser abençoada por Ele, onde a imagem do seu filho abre os braços para cuidar de todos. Pelo visto, o verdadeiro Deus não está nem aí para os homens, e nem mesmo se importa que usem seu nome em vão. E, se Ele não se importa com a transgressão do primeiro mandamento, não deve perder tempo fiscalizando os restantes...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O reveillon de Sísifo e Drummond


Como contou Homero, Sísifo foi um rebelde que desafiou os deuses. Quando morreu, depois de muito aprontar, teve sua alma enviada por Zeus a Hades, deus dos mortos. E, como castigo pela desobediência aos deuses, foi condenado a carregar uma enorme pedra de mármore até o alto de uma montanha. Mas, ao colocar a pedra no topo, ela rolava até a base. Então, no dia seguinte, Sísifo recomeçava o seu trabalho absurdo. E assim ficaria para toda a eternidade.

O que os deuses fizeram com Sísifo foi tirar-lhe a esperança de um dia melhor, tirar-lhe a liberdade de escolher qual seu destino, confinando-o a uma monotonia torturante. Para Sísifo, não haveria mais reveillon, afinal todos os dias seriam sempre iguais.

A esperança da criação de uma vida diferente é o que faz o reveillon algo tão simbólico e especial. Sísifo habitou o poema de Homero. Melhor seria ter habitado o poema abaixo, de Drummond:
"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente".
FELIZ ANO NOVO

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Woody Allen, Machado de Assis e a angústia de Shakespeare

No filme "Você vai conhecer o homem de seus sonhos" o diretor Woody Allen explora o desejo nas mais diversas formas. O setentão que deseja ser jovem, a mulher que deseja ser galerista, o escritor que deseja o sucesso literário tanto quanto deseja a linda vizinha que só usa vermelho...

No início do filme, o narrador cita Macbeth, de Shakespeare, dizendo: "A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada". E se a vida é essa loucura niilista, qual o limite moral que nos separa desses desejos?


No centro da história, um casal vive o conflito pela frustração profissional. Ela a tal que deseja ser galerista, e por isso se deixa levar pelo papo do chefe bem sucedido na área. Ele o tal escritor que corteja a vizinha, bela e filha de um importante crítico literário. Entre o pragmatismo amoral dos dois, a mãe dela abstrai as dores da separação através dos conselhos da vidente. Enquanto todos vivenciam a angústia das incertezas, ela cultiva a felicidade da fé cega.

No conto "A Cartomante", Machado de Assis também cita Shakespeare logo de cara: "Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia". Também como no filme de Woody Allen, há a relação extra-conjugal e a mulher que acredita piamente no que diz a cartomante. Só que essa felicidade baseada no irracional conduz o casal à morte.

A felicidade é a realização dos desejos, e os caminhos para isso podem ser os mais diversos. Como disse Pascal: "Todos procuram ser felizes; isso não tem exceção. É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive os que vão se enforcar".

Crer ou não crer, eis a questão...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Em Alguma Parte Alguma

Anteontem foi Dia de Finados. E, lembrar dos que não mais estão (pelo menos no conceito de matéria do senso comum), é manter viva a existência. Como bem disse André Comte-Sponville, no seu genial O Ser-Tempo: "sou o que fui, o que aconteceu comigo, o que fiz, je suis été, eu sou sido, como dizia Sartre, o que quer dizer que sou meu passado". E, como disse Guyau: "tudo é presente em nós, inclusive o próprio passado". O presente é essa tensão entre dois nadas: o passado, que já não é mais; e o futuro, que ainda não é. Somos, então, aquilo que lembramos e aquilo que projetamos. No seu novo livro, o sensacional Em Alguma Parte Alguma, Ferreira Gullar transita entre referências de existencialismo e física (ainda falarei muito desse livro....). No poema A Propósito do Nada escreve:

sou o que digo
e faço enquanto passo

sou a consciência de mim

e quando vinda a morte
ela se apague
serei o que alguém acaso
salve do olvido

já que para mim
(lume apagado)
nunca terei existido
Sigamos Ferreira Gullar. Salvemos do olvido aqueles que nos fazem ser...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Tiririca, Sartre e a clareza das leis


Sem dúvida, a grande figura dessas eleições é Tiririca, candidato a deputado federal, e que usa como argumento irrefutável o "pior que tá num fica". Tem gente que acha a candidatura dele um absurdo porque ele faz chacota do processo eleitoral e possui baixa escolaridade. Bom, tem gente que ocupa cargo muito mais importante, faz pouco caso da lei eleitoral constantemente, e adora dizer que não estudou, e nem por isso é criticado... enfim, isso é outro assunto. Um promotor de São Paulo quer impugnar a candidatura de Tiririca com base no art. 242 do Código Eleitoral, que diz: "A propaganda, qualquer que seja a sua forma ou modalidade, mencionará sempre a legenda partidária e só poderá ser feita em língua nacional, não devendo empregar meios publicitários destinados a criar, artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionais". Vamos analisar os tais estados emocionais e passionais. Sartre, no seu Esboço para uma teoria das emoções, disse que "a emoção é um fenômeno de crença". E, a partir disso, "a consciência precipita-se no mundo da emoção [...] e transforma seu corpo, como totalidade sintética, de modo que ela possa viver e apreender esse mundo novo através dele". Então, quando um candidato mostra o depoimento dos filhos, esposa, mãe, papagaio, não está apelando à emoção do eleitor? Ele não quer que o eleitor creia na sua boa-fé e se emocione junto com os depoentes? Isso não é "criar, artificialmente, estados emocionais"? Num video recente (veja abaixo), Tiririca ironiza - de maneira genial - justamente essa banalização do uso das emoções pelos candidatos dizendo: "Tive que apelar, tive que trazer minha família. Todo mundo está mostrando sua família. As pessoas se comovem com família na televisão".
Quanto aos estados mentais... bem, sinceramente, eu não faço a mínima idéia do que vem a ser esse troço de criar estados mentais artificialmente. Por acaso alguém não está em algum estado mental neste momento?! Quer dizer que as propagandas devem gerar estados não-mentais?! Bem, vendo deste ponto, Tiririca, realmente, está contra a lei. Afinal, ele foi o único que nos fez pensar na importância do processo eleitoral democrático.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Auto ajuda quântica


Sei que a arte é irmã da ciência
Ambas filhas de um Deus fugaz
Que faz num momento
E no mesmo momento desfaz
Esse vago Deus por trás do mundo
Por detrás do detrás
Gilberto Gil




"Segundo a teoria quântica, existe uma probabilidade pequena, porém calculável, de que nós nos desintegrássemos na nossa sala de estar e fôssemos parar em Marte". Esse é um trecho do excelente livro Mundos Paralelos, do físico americano Michio Kaku. Nele, o professor aborda as loucuras decorrentes da física quântica. E, sem dúvida, a que mais impressiona é a possibilidade de existência de realidades múltiplas. E tudo isso por causa dos elétrons, esses "seres" abstratos que conhecemos no colégio. Descobriu-se que o elétron pode estar em todos os estados possíveis simultaneamente, e é a nossa observação que "cria" apenas um estado. Isso mesmo. Segundo a física, nós criamos a realidade pela nossa ação direta. Antes de nossa ação, tudo é possível. Logo, nós não construimos nossa vida, nós desconstruimos nossa vida...

Tive o privilégio de ser aluno do grande filósofo Saja. E, duas coisas que ele disse foram além do curso de arquitetura. Na primeira aula, disparou: "O que você está fazendo de sua única vida?". Em outra aula, teorizou que ao desenhar um círculo numa folha em branco você está, na verdade, excluindo a possibilidade do quadrado, ou do triângulo. Projetar seria, então, desconstruir todas as possibilidades até restar uma só. Só depois de um tempo descobri que a mecânica quântica habitava aquelas questões, e que a física teórica atual carrega uma enorme carga de filosofia e teologia. Afinal, o que Saja de forma tão brilhante nos mostrou é que nós não somos presos à nossa realidade, nossa realidade é que está presa a nós. 

A física quântica conseguiu transformar o acaso e o imprevisível em algo de uma beleza incrível, uma espécie de livre-arbítrio do universo. Em vez de pensarmos que algo é a única coisa possível, que aquilo é o que nos reservava o destino, temos por essa visão que um acontecimento foi a única possibilidade que se concretizou diante de todas as outras infinitas que se perderam.

Como disse o biólogo Richard Dawkins numa palestra genial onde falava do acaso da existência da vida e de como o ateísmo pode guardar uma visão otimista e bela:

"Indivíduos criam os próprios propósitos de vida. Crer que essa é a única chance que temos aprimora a nossa visão de mundo. Nós existimos por um acaso fantástico. Não desperdice a vida. Não haverá outra."

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Ferrari de Nietzsche

Olha lá, quem sempre quer vitória
E perde a glória de chorar
Eu que já não quero mais ser um vencedor
Levo a vida devagar pra não faltar amor
Los Hermanos

A Fórmula 1 é um esporte (será?!) peculiar. Possui equipes, mas os pilotos competem de maneira independente. Dentro das equipes cada um possui seu staff de engenheiros e mecânicos. O cara que troca o pneu de um nunca vai trocar o pneu do outro. Nas transmissões é comum vermos os funcionários de um mesmo time sentados em duas alas distintas, torcendo abertamente para o "seu" piloto. Então, onde está o interesse da equipe? É um esporte coletivamente individuail? Ou individualmente coletivo? Enfim, o fato é que a regra não permite que a equipe determine troca de posições entre pilotos. Mas, domingo passado, a Ferrari mandou Felipe Massa abrir passagem para Fernando Alonso. Já haviam feito isso com Barrichello, que cedeu a vitória para Schumacher em 2002. Mesmo sendo uma manobra ilegal, os brasileiros prontamente obedeceram. E, depois, ambos fizeram cara de vítimas inconformadas. Por que não enfrentaram a equipe e impuseram uma posição de herói? Ou, então, por que não assumiram de bom grado a situação e exaltaram as virtudes do fiel escudeiro? Para Rubinho e Massa, resta um aforismo de Nietzsche em "A Gaia Ciência", naquele tom de verdades dúbias. É ler e refletir:

Conselho:
Aspiras à glória?
Escuta, pois, um conselho:
Renuncia a tempo, livremente,
À honra!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Pangloss e a felicidade brasileira

A revista Forbes aponta o Brasil como o 12º país mais feliz do mundo, à frente de países como EUA, Alemanha e Bélgica. No topo da lista estão Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suécia e Holanda. O resultado tem como base entrevistas realizadas entre 2005 e 2009. Aqui no Brasil, 58% classificaram-se como felizes, 40% disseram estar "lutando" e só 2% falaram que está tudo uma porcaria. Muitos dirão que isso é a prova de que dinheiro não traz felicidade, outros vão enaltecer o tal povo que levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima... Enfim, o que não falta é interpretação besta. Mas, o que é felicidade? Kant disse que a felicidade é "a totalidade das satisfações possíveis". Mas, se tenho tudo e não desejo mais nada, a felicidade vira tédio e passo a desejar sair desse estado. Tendo um novo desejo, não tenho mais felicidade. Seria, então, a felicidade impossível? É disso que Philippe van den Bosch trata no bom livro "A Filosofia da Felicidade". Mas como a pesquisa não define felicidade, duas opções: ou o cara se sente realmente feliz, ou ele apenas é conformado mas se diz feliz. Em Cândido, Voltaire critica a teoria do melhor dos mundos possíveis de Leibniz. Logo no início, Pangloss, mestre da personagem título, diz: "As coisas não podem ser de outra maneira... deviam é dizer que tudo está o melhor possível". Assim, Cândido e seus amigos sofrem as maiores barbaridades sem reclamar, pois sabem que tudo está da melhor maneira. Talvez o brasileiro seja só um discípulo de Pangloss...

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O twitter de Nietzsche


Segundo o Houaiss, aforismo é uma "máxima ou sentença que, em poucas palavras, explicita regra ou princípio de alcance moral; texto curto e sucinto, fundamento de um estilo fragmentário e assistemático na escrita filosófica". Estes textos curtos foram usados por Hipócrates na clássica obra médica Os Aforismos, de fins do séc.XVI. Apesar da palavra derivar do grego aphorismós, este título só apareceu muito tempo depois, em III d.C, por influência dos eruditos alexandrinos, que já conheciam a derivação latina aphorismus. No Japão, há um estilo poético chamado haikai, onde os poemas são concisos e compostos de três curtas linhas. A filosofia alemã é famosa pelos textos longos, complexos e prolixos de Kant e Hegel. Mas, contrariando o estilo germânico, Nietzsche expôs grande parte de suas idéias através de aforismos, como este, de A Gaia Ciência: "o vencedor nunca acredita no acaso". Hoje, muito se fala de microcontos e livros produzidos a partir do twitter, a chamada twitteratura, composta de fragmentos de texto de até 140 caracteres. E muitos debatem sobre a validade das restrições do twitter como um estilo literário. Enfim, este debate pós-moderno já foi respondido. Basta ler o twitter de Nietzsche.

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