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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sobre escolhas e o Acaso da Felicidade

Ao som de João Gilberto

Ontem foi dia de eleições. Dia de escolher o caminho para algo que esperamos ser melhor. Geralmente, temos que a felicidade está na escolha, em controlarmos aquilo que virá. Mas, será?

Fiquei pensando, então, na felicidade que habita o acaso e como o imprevisível guarda em si uma sinceridade tão bela, porque descompromissada. Não foi analisada, escolhida, destrinchada... apenas foi. E lembrei de um conto de Caio Fernando Abreu, Mel & Girassóis, que fala de um cara e uma mulher tão diferentes, mas tão iguais, num encontro tão casual, e que não poderia ter sido melhor se planejado.

No texto de Caio, eles, "como naquele conto de Cortázar  ―  encontraram-se no sétimo ou oitavo dia de bronzeado. Sétimo ou oitavo porque era mágico e justo encontrarem-se". Tudo tão ao acaso que não fazia sentido deliberarem o próximo encontro. Bastou um "- Desculpe. - Não foi nada". E seguiram como se nada tivesse acontecido.

Mas, um outro encontro. Eles não mais anônimos, um "- Tudo bem? - Jóia". Depois outro encontro. E os diálogos crescendo. "Conversaram, no oitavo ou nono dia." Naquela fase de busca de interesses iguais, após muitas citações, "empatados, encontraram-se em João Gilberto, que ouviam sozinhos em seus pequenos mas bem decorados apartamentos urbanos [...] Meio idiotas, mas tão felizes, ficaram cantando O Pato..."

E seguiram como se quisessem muito, e ao mesmo tempo tão despretensiosos como quem espera nada. E tudo mais intenso, mesmo aparentemente sem sentido pelo envolvimento com alguém tão recente, e tão acaso. "Ela achava um pouco forte estar-se exibindo assim com um homem afinal desconhecido [...], mas encostava mais e mais a bacia na bacia dele ― a pelve, a pelve".

Tempo passando, como se aquilo fosse morrer tão de repente quanto nasceu. "Último dia, não havia mais tempo. Manhã seguinte, acabou: the end - sem happy? - Eu não vou me esquecer de você. Ela disse: - Nem eu [...]. Ele afastou-a um pouco, para vê-la melhor. Ela sacudiu os cabelos, olhou bem nos olhos dele [...] Estenderam as mãos um para o outro. No gesto exato de quem vai colher um fruto completamente maduro".

E assim fizeram o que parecia efêmero, eterno, pedindo desculpas ao "acaso por chamá-lo necessidade", como naquela poeta húngara do Nobel.

E ficaram, então, com essa felicidade que nos alcança de surpresa.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

João, Juscelino, e o milagre de Diamantina

Depois de não conseguir ser o novo Orlando Silva, o cantor das multidões, João Gilberto, frustrado, decidiu ir embora do Rio de Janeiro. Após uma temporada em Porto Alegre, decidiu se "exilar" em Diamantina, interior de Minas Gerais, na casa de sua irmã Dadainha. Chegou sem avisá-la, em setembro de 1955. Lá passou alguns meses sem botar o pé pra fora de casa. Nas primeiras semanas, não fazia absolutamente nada. Mas, de súbito, como se recebesse uma inspiração sabe-lá-deus de onde, pensou em uma nova maneira de fazer música. Passava horas tocando o mesmo acorde, muitas vezes trancado dentro do banheiro, e cantando de uma maneira diferente. Sua irmã, claro, achou que Joãozinho não tava muito bem da cabeça e o mandou pra Juazeiro, pra ver se os pais o ajudavam. Chegando em Juazeiro, o pai disse que aquilo não era música, era nhém-nhém-nhém. E, vendo o filho caladão, tocando aquelas coisas estranhas, mandou-o para Salvador para se consultar com psicólogos. Aqui, João foi avaliado, mas nada foi constatado. E ele, confiante de que tinha algo novo a apresentar, voltou para o Rio, de onde saíra fracassado. Desde Diamantina, João sabia que, finalmente, tinha encontrado o que procurava.

Também em setembro, também em Diamantina, num remoto 1902, nascia Juscelino Kubitschek de Oliveira. No outro setembro, o de 1955, Juscelino era o grande candidato à Presidência da República. Ex-prefeito de Belo Horizonte, ex-governador de Minas Gerais, destacava-se por ser jovem, arrojado, com idéias modernas e discursos encantadores. Prometeu progredir 50 anos em cinco. Muitos jornalistas, àquela época, deviam percorrer as ruas da pequena cidade para retratar o berço do futuro presidente, sem saber que ali estava nascendo a Bossa Nova.

Juscelino saiu de Diamantina para mudar o Brasil e virar história.

João foi para Diamantina para mudar o mundo e se fazer eterno.




Obs.: No post abaixo eu escrevi que o aniversário de João Gilberto é dia 11 de junho. Claro, errei e corrigi. A data correta é 10 de junho. Peço desculpas, principalmente àqueles que ficaram felizes por fazer anos no mesmo dia que João...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Joãozinho, o novo Orlando Silva?!

Dia 10 de junho é aniversário de João Gilberto. Fará 80 anos. E, em homenagem, farei uma semana de textos sobre ele. Vamos ao primeiro:
Em 1948, Juazeiro tinha apenas 10 mil habitantes. Entre eles, havia um jovem de 17 anos que todos chamavam Joãozinho de Patu, porque, como é comum no interior, João era filho de d.Patu! Joãozinho ganhou o primeiro violão aos 14 anos. Junto com amigos, montou grupos vocais, que eram a sensação na época. Em 1949, aos 18 anos, mudou-se para Salvador. O pai esperava que ele fizesse faculdade, mas ele seguiu com o intuito de ser cantor. Conheceu várias pessoas, e em 1950 foi pro Rio de Janeiro para ser crooner no grupo vocal Garotos da Lua. Naquela época, Joãozinho não cantava baixinho, quietinho, num banquinho. Cantava alto, inspirado pelos grandes cantores da época: Dick Farney, Lúcio Alves e Orlando Silva, o cantor das multidões. Mas Joãozinho foi demitido dos Garotos da Lua, e seguiu carreira solo. E, em 1952, conseguiu gravar seu primeiro disco que foi um enorme... fracasso! Joãozinho não conseguiu ser o novo Orlando Silva. Sorte nossa! Abaixo, o single "Quando ela sai".

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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