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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Serge Gainsbourg partido ao meio e o mal que habita em nós

Coitado tem andado a delirar
Ele quer tantas fêmeas a conquistar
Fica sempre circulando
Pois muitas delas quer ofuscar
Para todas poderem em fim desapontar

Sabe muito bem como é ruim
Ser dia e noite um estopim
Que assim aceso vai buscar o próprio fim
Para uma vez morto viver com James Dean

Nas vezes que ele quer me confundir
Sorri e pede licença para sair
Parece que finalmente vai sumir
Mas é quando eu mais devo me prevenir
Desse mal que habita em mim

(Marcelo Nova - Camisa de Vênus)



O filme "Serge Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres" é anunciado como uma cinebiografia do famoso e polêmico cantor e compositor francês. Pensei, então, que seria uma narrativa linear e realista do cara que feio e esquisito que conquistou, apenas, Brigitte Bardot e Jane Birkin (praticamente um Sarkozy underground). Mas, o filme não segue a biografia crua e, sim, recria a vida de Gainsbourg por uma ótica bem psicológica. Em todo o filme, um personagem-caricatura de Gainsbourg, faz as vezes do demônio pessoal que tenta levá-lo para o lado negro da força. É mal que habita nele corrompendo-o rumo à destruição.

No livro "O Visconde Partido ao Meio", o italiano Ítalo Calvino cria uma fábula leve e quase infantil (no estilo) que mostra esse eterno conflito entre as dicotomias nossas de cada dia. Nela, o visconde Medardo di Terralba é atingido por uma bala de canhão e tem seu corpo dividido exatamente ao meio. Então, cada parte sobrevive independente, mas conserva sentimentos opostos. Enquanto uma levava toda a parte boa do visconde, a outra só conservou seu lado ruim. Mas, nenhuma das partes conseguiu ser feliz sendo apenas bondade e apenas maldade. No fim, as partes são costuradas e voltam a ser uma: "Assim, meu tio Medardo voltou a ser um homem inteiro, nem bom nem mau, uma mistura de maldade e bondade ".

Como disse o próprio Calvino, o homem é um ser “mutilado, incompleto, inimigo de si mesmo”. E, ser um homem inteiro, é conservar dentro de si mesmo esse duelo entre os opostos, tentando equilibrar-se na linha média que não nos deixa ser pender para um extremo.

Numa cena marcante do filme, Gainsbourg deixa de ser ele, e passa a ser o próprio demônio caricato que havia nele. Portanto, deu-se a derrota do lado bom, restando-lhe apenas aquilo que o destruía.

Serge Gainsbourg venceu o mundo, mas perdeu o duelo contra si mesmo...

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Planeta dos Macacos de Rousseau, o Complexo do Alemão, e os humanos de Voltaire.


"Comparai o estado do homem civilizado com o do homem selvagem, e investigai como além da sua maldade, suas necessidades e suas misérias, o primeiro abriu novas portas à miséria e à morte". Esse é um trecho do livro "Discurso Sobre a Origem da Desigualdade", de Jean-Jacques Rousseau. Para ele, o homem é, por natureza, um ser puro e imaculado, desprovido de todo mal, amém. Aí vem essa tal de sociedade para oprimir e corromper o coitado que, então, se transforma nesse monstro que é o homem civilizado. Ou seja, pra Rousseuau os bárbaros são os civilizados e os civilizados são os bárbaros. E, sendo assim, um criminoso deixa de ser um canalha que optou pela maldade e passa a ser uma vítima desse mundo cruel... Voltaire, sempre genial, comentou o delírio de Rousseau com a acidez de sempre: "Ninguém poderia pintar um quadro com cores mais fortes dos horrores da sociedade humana, para os quais nossa ignorância e debilidade tem tanta esperança de consolo. Ninguém jamais empregou tanta vivacidade em nos tornar novamente animais: pode-se querer andar com quatro patas, quando lemos vossa obra".

O filme "O Planeta dos Macacos: A Origem" conta, como nos diz o título, o início do domínio do mundo pelos macacos. Basicamente, o filme mostra como os macacos eram oprimidos e torturados por humanos cruéis que, num personagem caricato, dizem só se interessar por lucros. Estimulados por uma droga que lhes confere mais inteligência, os macacos logo percebem que "a história de toda a sociedade existente até hoje tem sido a história das lutas de classes". Pois é, nem sempre capacidade de raiocínio dá em boa coisa, mas sigamos. Embebido pelo sentimento de revolta e libertação, César, o chimpanzé principal, organiza a revolução. E, como todo primata cheio desses anseios, impõ-se como líder do movimento endurecendo, mas sem perder a ternura jamais. Convoca um gorila gigante pra dar uma surra no seu principal opositor, e tá tudo dominado. Nos momentos de confronto entre símios e humanos, fica clara a intenção do diretor em nos fazer ter carinho pelo bárbaro oprimido. Enquanto os macacos são assassinados num tom martirizante, os humanos sempre têm mortes que paracem uma pena pelas suas maldades.

No Rio, e em outros lugares, muitos pensam como Rousseau. O poder paralelo do tráfico que domina os morros seria só uma consequência dessa sociedade perversa que transforma anjos em demônios. O cara que carrega um fuzil, comanda arrastões, e vende crack sem piedade ou remorso deixa de ser o vilão, e passa a ser vítima da civilização. Sendo assim, não cabe penalizá-lo. Com muito alarde divulgou-se a nova maravilha que era o Complexo do Alemão. Com antecedência o governo disse: "pessoal, se preparem que estamos chegando". Orgulhoso, contou que não houve confronto, e teorizou que prender não era o objetivo, o que queriam era conquistar território. Afinal, se é a civilização que cria os bandidos, melhor deixá-los num território remoto, longe de nós, onde possam exercer sua natureza boa, né? Pois é... enquanto o governo brincava de WAR, a barbárie se organizava no mundo real. E, quando tudo parecia tranquilo, mostrou que continuava tão viva quanto sempre.

Pena que Rousseau não teve a oportunidade de estudar a vida dos macacos. Os chimpanzés, por exemplo, para se impor frente a seus adversários cometem atos de uma atrocidade chocante. Uma das cenas de documentário mais impressionantes que vi é de um grupo de machos que atacam uma fêmea e roubam seu recém-nascido. Após jogar o macaquinho de um para o outro, decidem matá-lo. O macho dominante morde e esmaga o crânio do pequenino, e depois todos o comem. Nós só somos humanos porque civilizados. A sociedade não é o meio que corrompe nossa maldade e, sim, o freio moral e legal que nos impede de voltar à barbárie.

Prefiro os humanos de Voltaire aos macacos de Rousseau...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Jim Morrison e a Jornada do Herói

James Douglas Morrison, ou apenas Jim, foi, pra mim, o maior rockstar da história. Conjugou música, presença de palco, e uma mística pessoal que, juntos, criaram o mito. Após 40 anos de sua morte (será mesmo?!), o fascínio em torno dele permanece. Jim tornou-se eterno porque sua vida trilhou caminho semelhante à Jornada do Herói, a estrutura narrativa mais presente em todas as histórias de sucesso.

O americano Joseph Campbell foi um dos maiores especialistas em mitologia do mundo. Fascinado pela histórias dos grandes heróis mitológicos, comparou a trajetória dos deuses religiosos e fábulas antigas para criar o que chamou de "A Jornada do Herói", exposta no livro "O herói de mil faces". Essa jornada seria um roteiro de vida comum a todos os mitos e heróis, de Jesus Cristo a Luke Skywalker. Por sinal, Campbell foi, apenas, consultor de George Lucas para a criação da saga "Star Wars"! E os seus estudos são a base para a criação de diversos roteiros, de "Matrix" a "Um Tira da Pesada". A Jornada do Herói tem 12 etapas. Abaixo, falarei de cada etapa dando como exemplo a vida de Jim Morrison.

1. O Mundo Comum - A maioria das histórias começa apresentando o cotidiano do herói, que depois será abalado. Jim era um tímido estudante de cinema na Califórnia, com uma vida universitária bem comum.
2. Chamado à aventura - É quando algo acontece chamando o herói a sair do seu mundo. Ray, que viria a ser o tecladista do The Doors, lê os poemas de Jim e sugere montarem uma banda
3. Recusa do Chamado - É o momento de hesitação do herói, quando ele tem que superar seus medos para ir à aventura. Jim fica relutante em expor suas letras, e não se sente confiante porque nunca havia cantado antes. Nos primeiros shows, cantava de costas para a plateia.
4. Encontro com o mentor - O mentor é o personagem que prepara o herói para enfrentar a aventura. Jim dizia que, aos 5 anos, viu índios mortos numa estrada do Novo México. E, naquele momento, o espírito de um xamã entrou em seu corpo. De repente, Jim começa a usar essa história como um sinal, um estímulo.
5. Travessia do Primeiro Limiar - Neste momento, o herói começa a aventura. Jim perde o medo, suas performances no palco viram rituais, e ele tem total controle da plateia.
6. Testes, aliados, inimigos - É quando o herói aprende as regras do Mundo Especial e percebe quem são os aliados e quem são os inimigos. A banda está unida, e eles aprendem como lidar com a imprensa e o assédio.
7. Aproximação da Caverna Oculta - Neste ponto, o herói encara a fronteira de um lugar perigoso e crucial na aventura. Jim vira um astro do rock, cultuado pela crítica e adorado pelo público. Mas o clima de transgressão que ele prega começa a gerar um desconforto nas autoridades.
8. Provação - É a parte em que a vida do herói está em jogo. É aquela hora do filme que o herói só tem a opção de morrer ou de ir pro lado negro. Jim foi preso, injustamente, acusado de atentado ao pudor. Depois disso, começou a ser perseguido por várias autoridades. No meio desse caos, o disco Soft Parade é mal recebido pela crítca. Será o fim?
9. Recompensa - Após sobreviver, o herói finalmente consegue pegar o tesouro. Passada a turbulência, o The Doors lança o aclamado Morrison Hotel, volta ao topo das paradas, e constrói uma legião de fãs ainda mais fiel.
10. Caminho de Volta - É o início do terceiro ato do roteiro. Quando tudo parece tranquilo, eis que surge o problema final. É aquela perseguição surpresa no final do filme. Jim é condenado a oito meses de trabalhos forçados..
11. Ressurreição - De novo, parece que o herói morreu, mas ele sempre consegue se livrar e voltar ainda mais forte. Jim é solto sob fiança e começa a gravar o excelente L.A. Woman.
12. Retorno com o Elixir - É quando o herói retorna ao mundo comum trazendo consigo o tesouro ou um ensinamento especial. Jim decide dar um tempo na música, viver como uma pessoa comum, voltar a escrever poemas e roteiros, e muda-se para Paris com a namorada Pamela.

E, além disso, Jim ainda teve um final enigmático, comum apenas aos melhores roteiros e aos grandes mitos. Morreu de repente, poucos viram o corpo, o laudo oficial sobre a causa da morte é vago e impreciso, e os depoimentos sobre seus últimos dias ainda hoje são controversos. É o típico final que pode dar margem a uma continuação. E isso só serve para deixar o herói sempre vivo.

E Jim falava que gostaria de fazer como Rimbaud, abandonando a carreira no auge para viver anônimo em algum lugar remoto. Alguém conhece um traficante de armas no Marrocos?!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Woody Allen em Paris e a metamorfose ionesca dos rinocerontes de Dalí

Em "Meia-Noite em Paris", Owen Wilson é Gil Pender, um roteirista de cinema que divide sua atenção entre o romance que tenta escrever e a noiva que nem tenta entender (se é que ela é passível de entendimento). E, assim como o personagem principal do filme sempre é uma extensão do próprio Woody Allen, o personagem principal do livro de Gil também é um retrato do seu autor. Um cara nostálgico, saudosista, que considera ser o passado melhor que o presente.

Durante uma viagem a Paris com a noiva e os sogros, Gil imagina como seria mais fácil escrever um romance cercado pela atmosfera criativa que inumdava a cidade nos anos 20. E, neste devaneio, ele consegue se transportar a este passado mágico. Gil tem, então, encontros com muitos de seus ídolos que habitavam a Cidade Luz naquela época: Picasso, Scott Fitzgerald, Hemingway, Cole Porter, Degas, Gauguin, Man Ray, Buñuel e o responsável por uma das passagens mais engraçadas: Salvador Dalí. No meio dessa coleção de citações, Gil tenta desabafar com Dalí, mas o surrealista se importa apenas com... rinocerontes!

Eugène Ionesco nasceu na Romênia, mas tornou-se escritor em Paris. Ícone do chamado "teatro do absurdo", ficou célebre pela peça "O Rinoceronte". Numa cidade comum, num dia qualquer, os habitantes são surpreendidos por um rinoceronte que corre pela rua. Ninguém sabe de onde veio. Apesar do absurdo da cena, logo voltam à banalidade corriqueira. Mas logo são surpreendidos por outro rinoceronte. E, pouco a pouco, os próprios habitantes se transformam em rinocerontes. Muitos, numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, dão por si na cama transformados num gigantesco bicho (não resisti em escrever dessa maneira Gregor Samsa!). E todos seguem essa metamorfose sem angústias, à exceção de Bérenger, que decide ser humano até o fim, custe o que custar. ionesco não deixou claro se os rinocerontes eram metáforas da estranheza frente ao mundo de uma maneira geral, numa coisa assim meio Camus; ou se representava algo específico. Diz a lenda que era uma referência ao nazismo, que mesmo sendo tão incomum e assustador, convenceu grande parte do povo alemão. Mas isso é outro papo.

Enquanto Bérenger quis enfrentar os absurdos e estranhamentos do presente, Gil preferiu fugir para um passado imaginário. Bérenger resolveu encarar o humano mundo cotidiano, mesmo que cercado por uma realidade tão estranha quanto um rinoceronte na sala de estar. Gil decidiu fugir dos rinocerontes nossos de cada dia, mas percebeu que de nada adiantava ser um escritor fora de sua época, pois os grandes artistas são fruto do Zeitgeist, do espírito do tempo em que vivem. Então, em vez de se refugiar no passado, seguiu Dalí e viu que só os rinocerontes importam.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Crônica de uma sorte embriagada

"No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo".

Assim começa o livro "Crônica de uma morte anunciada", de Gabriel Garcia Márquez. Logo de cara, já sabemos que Santiago Nasar vai morrer. Resta saber como isso vai acontecer. E, aí, temos a história. De início, as coisas vão acontecendo sem fazer tanto sentido, nos perdemos pela falta de familiaridade com os lugares, as pessoas. Mas, aos poucos acontecem os encontros, os desencontros, as coisas vão se encaixando, fazendo sentido, até chegarmos à cena final da morte.

Em "Se beber, não case 2", temos algo parecido. Desde sempre já sabemos o início e o fim, só nos resta entender como os extremos se conectam. Mas, à diferença do primeiro filme, a graça não está na surpresa, mas na repetição. A sequência de fatos é a mesma: acordar sem lembrar de nada, achar um animal, uma pessoa desconhecida, perder um amigo, e sair juntando os cacos pra tentar montar o quebra-cabeças.

No primeiro filme, a comédia está na surpresa, na sucessão de fatos inusitados, mais do que em diálogos ou ações isoladas. Neste segundo filme, como já conhecemos o enredo, restou ao realizadores a ênfase no humor pontual. E aí se destacam a presença de um macaco politicamente incorreto e de situações de cunho sexual que, com certeza, vão gerar polêmica. A dose pode ter sido exagerada, mas a fórmula é clássica, tanto que foi analisada por dois grandes pensadores: Bergson e Freud.

Henri Bergson, no seu "O Riso", teoriza a fundo o Risível, como é chamado o humor na filosofia estética da arte. Bergson diz que não existe Risível fora do campo humano: "Não há cômico fora daquilo que é propriamente humano. Uma paisagem poderá ser bela ou feia: não será, nunca, risível. Nós poderemos rir de um animal, mas porque se terá surpreendido nele uma atitude de homem ou uma expressão humana". Acho que, pelo texto, Bergson acharia graça de um macaquinho com uma jaqueta jeans dos Rolling Stones bebendo, fumando e cheirando...

Já Freud... bem, aquela coisa de sempre. Na juvetude seus textos eram de uma profusão hormonal... depois de velho ele até reviu alguns. Deve ter sido o efeito da andropausa. Mas, voltemos ao assunto. Quando jovem, Freud dedicou-se um pouco ao Risível. E, qual foi sua tese? Lá vai: "nós rimos quando um complexo sexual reprimido se exprime simbolicamente num momento de distração ou num termo equívoco, e quando nos apercebemos bruscamente da significação sexual profunda sobre a forma simbólica". Resumindo: piadas de duplo sentido, ou de um sentido só mesmo. Freud, certamente, gostaria da cena em que o macaco simula fazer.... Bem, deixa pra lá. Quem vir o filme saberá.

Assim como o livro de Garcia Márquez, o filme se valida pelo miolo. Afinal, todos já sabemos o início e o fim. Resta, apenas, degustar o miolo.

"Depois, [Santiago] entrou na casa pela porta dos fundos, que estava aberta desde as seis horas, e desabou de bruços na cozinha". Fim.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

E se?! Os Agentes do Destino, Sartre, e os limites do acaso


Acredito que, com frequência, todos pensam: "e se... ?", e seguem-se variações as mais diversas. E se eu tivesse ligado pra ela? E se eu tivesse escolhido outra profissão? E se eu tivesse chegado 5 minutos mais cedo? Mas, até que ponto escolhemos nosso caminho? Está tudo definido pelo destino, ou seguimos ao acaso?

No filme "Os Agentes do Destino", David Norris (Matt Damon) é um jovem candidato a senador dos EUA. Na noite em que perde as eleições, antes do discurso da derrota, conhece Elise (Emily Bunt) num lance do acaso. Influenciado pelo encontro fortuito, David fala de improviso, ignora o que estava escrito, e é ovacionado por todos. Tempo depois, mais uma vez ao acaso, encontra Elise. Mas, a partir daí, tudo muda. David é surpreendido pelos agentes do Destino, que atuam para pôr em prática o plano traçado pelo "Presidente". David fica sabendo que o tudo já está planejado, e cabe a estes agentes fazer com que a rota da vida não seja desviada. O "Presidente" até permite que tenhamos pequenos acasos cotidianos e um livre-arbítrio inofensivo, como escolher o almoço, por exemplo. Mas, no geral, vivemos todos num Show de Truman. Os agentes do Destino dizem a David para se afastar de Elise, porque isso atrapalharia o plano de vida dos dois. Contam que o primeiro encontro estava escrito, mas o segundo foi um descuido de um agente. E revelam que ambos teriam grande sucesso profissional se separados. Mas, caso se juntassem... David, claro, não aceita, e decide lutar a todo custo para fazer o próprio destino, tendo como motivação o amor.

No livro "Os Dados estão Lançados", Sartre aborda a mesma questão. Pierre e Eve nunca se viram em vida, mas se encontram no "além" após morrerem. Atraídos, lamentam não terem se conhecido quando vivos. Também nessa história, a vida é planejada e controlada por burocratas. Uma funcionária do destino descobre que houve um erro, pois Pierre e Eve deveriam se conhecer em vida. E, pela lei nº 140 do Destino, nos casos de amores não realizados, pode o Diretor autorizar a volta dos mortos para reparar o engano. Então, Pierre e Eve voltam, tendo que, em 24 horas, provar ser verdadeiro o amor. Pierre é um revolucionário que quer derrubar um governo. Eve é a esposa do Secretário de Milícia. Confrontados em vida com realidades tão distintas, surge o mesmo dilema do filme: seguir vidas paralelas rumo ao êxito individual já planejado, ou construir um caminho novo com base no amor?

No filme, David tem que escolher entre o amor e o sucesso político, naquele clima clichê americano. No livro, Pierre tem que escolher entre o amor e aquela besteirada de luta de classes, naquele clima clichê revolucionário-gagá (que bem poderia ter morrido junto com Stálin). Em ambos, o Homem se liberta do Destino, refaz sua história, e segue o caminho das suas convicções. Ele cria o seu propósito de vida, e a partir dele constrói a si mesmo.

Eu acho que, na vida real, não vai aparecer um buroocrata do destino revelando nosso plano de vida. Na verdade, nem mesmo acredito em destino. Prefiro a versão de vida do genial Richard Dawkins. Numa entrevista incrível, na FLIP 2009, disse ele, impactante:

"Indivíduos criam os próprios propósitos de vida. E crer que esta é a única chance que teremos nos faz valorizar mais a vida. É só calcular a probabilidade que tínhamos para nascer. Nossos pais precisaram se conhecer[...], o mesmo processo ocorreu com os nossos avós, bisavós, seguindo essa peregrinação até a origem da vida. Nós existimos por um fantástico acaso. Não desperdicem a vida. Não haverá outra!".

Portanto, cabe a nós ordenar o caos, tirar o que desejamos do acaso, e colocá-lo no cotidiano. Como disse Sartre em outro texto: "O homem está condenado a ser livre"...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Massacre no Rio, Dostoiévski, e a criação de Deus


Um jovem cria uma realidade distorcida em sua cabeça, dividindo o mundo entre as pessoas ordinárias e as extraordinárias, que "buscam de várias maneiras a destruição do presente em nome de algo melhor". E, "se uma pessoa como essa é obrigada, no interesse de sua idéia, passar por cima de um cadáver ou chapinhar no sangue, ela pode encontrar dentro de si mesma, em sua consciência, uma sanção" para isso. Esse jovem passa, então, a acreditar que faz parte desse grupo excepcional. Isolado do mundo, vivenciando essa realidade paralela, fica obcecado pelas próprias idéias, e alimenta um desejo de provar a si mesmo que pode fazer algo grande. Depois de muito pensar, atormentado e delirante, preso nas suas angústias e frustrações, decide matar. De maneira cruel, bárbara, mata pessoas que nem mesmo têm a oportunidade de se defender ou de entender o que se passa. E o que para todos é a revelação do lado mais perservo e sombrio do ser-humano, para ele torna-se um ato de auto-sacrifício religioso.

Essa história não se passa no Rio de Janeiro. Acontece numa São Petersburgo sombria, no fim do século XIX. Essa é a história de Ródion Románovich Raskólnikov, protagonista do famoso romance Crime e Castigo, de Dostoiévski.

Dostoiévski via Deus como uma justificativa para o Bem. Construiu suas grandes obras retratando a angústia humana, a busca incansável pelo sentido da vida. Cristão fervoroso, acabava amarrando esse sentido da vida à existência divina. Como disse em Os Irmãos Karamázov, "a questão principal que será perseguida em todas as partes desse livro é a mesma de que padeço, consciente ou inconscientemente, a minha vida inteira: a existência de Deus". E esse Deus construído pelo escritor russo é o norte moral da humanidade, o guia para um mundo melhor, mais humano. Numa das passagens mais famosas d'Os irmãos Karamázov, o religioso Aliócha pondera que se "não existe imortalidade da alma, então não existe a virtude, logo, tudo é permitido". Raskolnikóv, de Crime e Castigo, só foi capaz de tamanha barbaridade porque não enxergou além da condição humana terrestre.

No Rio, um desequilibrado viu em Deus a justificativa para o Mal. E, nessas horas, sempre fico um pouco incomodado. Afinal, sendo Deus onipotente, onipresente e onisciente, por que deixou que alguém usasse Seu nome para cometer tamanha barbaridade? Que não se importe que cometam crimes em nome do diabo, vá lá, mas saber que Seu nome será atrelado à morte de uma dúzia de crianças e, simplesmente, não fazer nada? O assassino só foi capaz de cometer tamanha brutalidade porque desconsiderou a condição humana terrestre.

Ferreira Gullar costuma dizer que "o homem inventou Deus para que Deus o criasse". E, assim, cada deus inventado por cada homem guia a humanidade como um personal trainer preocupado apenas com seu pupilo. O deus de Dostoiévski o confortou quando seu pequeno filho de três anos faleceu, e o fez transformar suas dores em arte. O deus do assasino do Rio o atormentou, e o compeliu a transformar suas dores em morte.

Uma barbaridade desse tipo aconteceu na cidade que dizem ser abençoada por Ele, onde a imagem do seu filho abre os braços para cuidar de todos. Pelo visto, o verdadeiro Deus não está nem aí para os homens, e nem mesmo se importa que usem seu nome em vão. E, se Ele não se importa com a transgressão do primeiro mandamento, não deve perder tempo fiscalizando os restantes...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Bruna Surfistinha, Sandy e a devassa de folhetim


O filme "Bruna Surfistinha" conta a história de Raquel Pacheco, uma rebelde-sem-causa que decidiu ser garota de programa menos pela revolta e mais pelo talento. Filha adotiva de uma família classe média, enfrentou os mesmos conflitos adolescentes que qualquer um. A diferença é que usou isso como um pretexto para entrar na prostituição. E, ao longo do filme, o pretexto se mostra fraco quando a vontade de sair dessa nova vida parece ser bem menor que a vontade de entrar. Em uma entrevista recente, Raquel, agora casada e "aposentada", disse sentir falta da liberdade dos tempos passados. Ou seja, ao seu ver, as coisas não foram tão ruins. Eu pensei que o filme seguiria uma linha Cinderela, da menina que sofre um bocado até ser feliz para sempre. Mas, grata surpresa, o filme é bem mais realista. A profissão escolhida por Bruna segue os mesmos caminhos de qualquer profissão: ascensão, queda, sofrimento, felicidade e prazer verdadeiro. Em um momento, Bruna diz: "Às vezes ver que o cliente me desejava valia mais que a grana que ele pagava pelo programa". É a típica satisfação de alguém que exerce a função que deseja.

Sandy sempre foi a menininha perfeitinha. Quase virou a nova namoradinha do Brasil. Só não foi de fato porque o Brasil não pediu a mão dela em namoro num jantar formal com a presença da família. Depois de anos cultivando a imaculada imagem de santinha, resolveu revelar suas travessuras de menina má. Pintou o cabelo de loiro, colocou as perninhas de fora e foi ser a musa do Carnaval da cervejaria Devassa. Logo caiu na internet um video de um programa de TV onde ela dizia que não bebia cerveja porque o gosto não a agradava.

Bruna Surfistinha é daquelas mulheres que só dizem sim, mesmo que seja só por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema ou um botequim. Já Sandy sempre foi daquelas que só dizem não. Mas, por uma renda, aceitou uma prenda, fez as vontades e contou meias verdades. Mas, no dia seguinte, página virada, as travessuras foram descartadas do folhetim.

Bruna, além do dinheiro, fazia porque gostava. Com Sandy não tem esse papo de gostar do que faz. É só pagar que tá valendo...


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Biutiful, Hitchens e toca Raul


Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Qual será a forma da minha morte?
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida

O câncer já espalhado e ainda escondido...

Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida

(Canto para minha morte - Raul Seixas)


Numa Barcelona sem as cores de Gaudí ou Miró, Uxbal (Javier Bardem) é um homem comum, de vida medíocre, que apenas vive cada dia sem saber o que esperar do amanhã. Agenciador de mão-de-obra ilegal, chineses e africanos, vive ele mesmo meio à margem da sociedade, como um estrangeiro em sua própria terra. E, não tendo seus dias vida, segue então rodeado pela morte. A morte que ronda constante os imigrantes, a morte que o cerca devido à capacidade mediúnica de ter contato com alguns espíritos, a ex-mulher bipolar que vive e morre nas intermitências da doença, o pai que não conheceu, e a sua própria morte, dignosticada sob a forma de um câncer já espalhado pela região abdominal.

O inglês Christopher Hitchens é um dos maiores colunistas dos Estados Unidos. Por causa do seu ateísmo e sua crítica às religiões foi "carinhosamente" chamado de Cavaleiro do Apocalipse, junto com Sam Harris, Daniel Denett e o genial Richard Dawkins. A, digamos, homenagem foi feita por grupos de religiosos criacionistas americanos. Ano passado, Hitchens foi dignosticado com câncer. Iniciado no esôfago, espalhou-se por outros órgãos. Este mesmo tipo de câncer matou seu pai. Hitchens, então, escreveu um excelente artigo na Vanity Fair intitulado "Notícias da Tumorlândia", onde relata sua reação ao perceber a morte tão perto:

"Independentemente do tipo de "corrida" que a vida seja, tornei-me abruptamente finalista. Tinha planos reais para a minha próxima década. Será que não viverei para ver meus filhos casados?".

Uxbal é um europeu qualquer, sem grandes planos, com uma vida melancólica e uma mediunidade que lhe traz mais angústia que conforto. Hitchens é um europeu bem-sucedido, autor de livros que se tornaram best-sellers, colunista de importantes revistas ao redor do mundo, palestrante requisitado, e ateu militante. Apesar das vidas opostas e de perceberem a morte de maneiras distintas, ambos foram confrontados com com a mesma sensação de impotência em relação ao fim.

E ambos se fizeram exatamente a mesma pergunta. Em conversa com uma amiga, Uxbal pergunta por que aquilo estava acontecendo com ele.

No fim do seu artigo, Hitchens aborda a mesma questão e desconstrói essa visão inconformista expondo, de maneira genial, a insignificância da vida humana:

"Para a pergunta idiota "Por que eu?" o cosmos indiferentemente responde: "Por que não?"".

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Woody Allen, Machado de Assis e a angústia de Shakespeare

No filme "Você vai conhecer o homem de seus sonhos" o diretor Woody Allen explora o desejo nas mais diversas formas. O setentão que deseja ser jovem, a mulher que deseja ser galerista, o escritor que deseja o sucesso literário tanto quanto deseja a linda vizinha que só usa vermelho...

No início do filme, o narrador cita Macbeth, de Shakespeare, dizendo: "A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada". E se a vida é essa loucura niilista, qual o limite moral que nos separa desses desejos?


No centro da história, um casal vive o conflito pela frustração profissional. Ela a tal que deseja ser galerista, e por isso se deixa levar pelo papo do chefe bem sucedido na área. Ele o tal escritor que corteja a vizinha, bela e filha de um importante crítico literário. Entre o pragmatismo amoral dos dois, a mãe dela abstrai as dores da separação através dos conselhos da vidente. Enquanto todos vivenciam a angústia das incertezas, ela cultiva a felicidade da fé cega.

No conto "A Cartomante", Machado de Assis também cita Shakespeare logo de cara: "Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia". Também como no filme de Woody Allen, há a relação extra-conjugal e a mulher que acredita piamente no que diz a cartomante. Só que essa felicidade baseada no irracional conduz o casal à morte.

A felicidade é a realização dos desejos, e os caminhos para isso podem ser os mais diversos. Como disse Pascal: "Todos procuram ser felizes; isso não tem exceção. É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive os que vão se enforcar".

Crer ou não crer, eis a questão...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Roberto Carlos, Beatles e a história do Facebook

Um nerd com poucos amigos, que gostaria de ser tão popular na faculdade quanto o time de remo, e que é rejeitado pela garota que gosta. O que poderia ser o enredo de um filminho sessão-da-tarde meio sem graça, é a história real do bilionário mais jovem da história.

O bom "A rede social" conta como Mark Zuckerberg deixou de ser o gênio-nerd-meio-estranho para se tornar o gênio-nerd-meio-estranho e bilionário. A criação do Facebook, a maior rede social do mundo e um símbolo das novas interações virtuais, é apenas um pretexto para mostrar o que toda boa história sempre mostra: relações humanas.

A partir do fim do namoro, Zuckerberg decide fazer algo que o deixe célebre e bem quisto para reconquistar a menina. E, nessa busca, muita coisa acontece. Zuckerberg transita entre a ingenuidade desleixada e a perversidade cínica, que o afastam do seu sócio e verdadeiro amigo, o brasileiro Eduardo Saverin, e o aproximam do ególatra Sean Parker, criador do Napster, e que viria entrar no Facebook. É a negação do passado frustrado em busca do futuro de sucesso e aceitação social. Aceitação social, por sinal, é a chave das conquistas e das frustrações de Zuckerberg.

Analisando a si mesmo, Zuckerberg percebeu que a vida é um grande teatro, onde as pessoas tentam encenar os papéis principais. E, sendo assim, pouco importa o que você verdadeiramente é; o importante é a imagem percebida pelos outros. O Facebook seria, então, o palco. Ali, cada um representa o que bem desejar. Mas Zuckerberg também é apenas um humano, demasiado humano, em busca da legitimização de seus semelhantes e, assim como os outros, confunde-se entre o que ele de fato é e a personagem inventada.

Mark Zuckerberg pensou que a solução dos seus problemas seria ter um milhão de amigos pra bem mais forte poder cantar. Mas ao ver que na sua lista de amigos do Facebook não estava a única pessoa que realmente o interessava, sua ex-namorada, deixou Roberto Carlos de lado e voltou a ouvir Beatles:
I'm a loser, I'm a loser,
And I'm not what I appear to be

Of all the love I have won or have lost,
There is one love I should never have crossed.
She was a girl in a million my friend,
I should have known she would win in the end.
I'm a loser, and I lost someone who's near to me...



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Tropa de Elite e o erro de Rousseau

O novo Tropa de Elite, mais uma vez, é sucesso de público. No filme, os bandidos (no senso comum da palavra) quase não aparecem. E isso se dá por uma questão simples: porque não se cogita a possibilidade de bandido ser outra coisa que não... bandido! E essa visão já havia sido mostrada no primeiro filme. Logo, não há o que discutir. Posto isso, parte-se para expor a faceta mais canalha da polícia e da política, dominadas por corruptos os mais diversos.
E, mesmo ao apresentar o lado ruim das instituições que deveriam zelar pela ordem, o filme mostra que a partir delas podem sair ações de mudança, neste caso, representadas por Nascimento e pelo deputado Fraga. Afinal, "A Polícia" corrupta só existe por causa dos policiais corruptos que compõem a polícia. E, infelizmente, segundo o filme, eles são maioria. Porém, apesar do cenário desanimador e revoltante ali retratado, a mensagem que se passa é a de que a polícia e a política são o problema, mas também a solução.
Jean-Jacques Rousseau inventou aquele troço de que o homem é bom por natureza, e a sociedade o corrompe. Curiosamente, ele não se preocupou em continuar imaculado, sendo carinhosamente classificado por Hume como “monstro que se via como o único ser importante do universo”, por Diderot como um “enganador, vaidoso como Satã, mal-agradecido, cruel, hipócrita e cheio de maldade”, e por Voltaire como “um poço de presunção e vileza”. Voltaire, por sinal, criticou-o da maneira sempre brilhante no conto O Ingênuo.
Em Tropa de Elite 2 a tal sociedade que corrompe também pode servir de meio para punir o homem que a faz corrupta. Basta que ela seja composta menos por Rouseau e mais por Voltaire, para que, assim, os homens possam livrá-la de todo o mal. Sem amém.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Tudo pode dar certo


Em seu novo filme, "Tudo Pode Dar Certo", Woody Allen retoma velhos temas que sempre parecem um desabafo numa sessão de psicanálise: a atração por uma adolescente ingênua, o humor judaico irônico, a estranheza no convívio social, Nova York... Enfim, bem Woody Allen. Comparado a "Vicky Cristina Barcelona", sua obra anterior, o filme mais parece uma sitcom de televisão. O enredo é previsível, a fotografia é pobre e os personagens são caricatos ao extremo. Mas o filme é bem divertido. O protagonista Larry David encarna bem a figura de um velho gênio egocêntrico, ranzinza e neurótico. Se todos comentam que Allen criou mais um personagem à sua imagem e semelhança, esqueceram do papel de Evan Rachel Wood. Evan nunca conseguiria interpretar mal uma bela jovem que se apaixona por um cara estranho. Afinal, ela foi noiva de ninguém menos que o inclassificável Marilyn Manson!

Mas, para mim, o melhor são os diálogos com referências à física quântica. De início, o velho físico aposentado Bóris despreza a bela jovem Melody por causa da diferença entre a capacidade intelectual de ambos. Mas, ao vê-la chegar de uma festa, semi-bêbada, reclamando que conheceu pessoas desinteressantes que nem sabiam o que é a Teoria das Cordas, ele a observa surpreso, como se tivesse sido apresentado a uma nova pessoa, e diz:
"Inacreditável. O fator de chance na vida é incompreensível. Você entrou no mundo como um evento aleatório, vindo de algum lugar do Mississipi. Eu surgi através da conjunção entre Sam e Yetta Yellnikoff, no Bronx, décadas antes. E, através de uma astronômica combinação de circunstâncias, nossos caminhos se cruzam".
Eu sempre me perguntei qual o sentido de ler sobre física quântica. Ficava pensando que esse troço só serve pra deixar você meio neurótico e estranho ao mundo. E, afinal, quem se interessaria por um cara que acredita que o Princípio da Incerteza de Heisenberg deixa a vida caoticamente linda? Bom, se a resposta for Evan Rachel Wood, vale muito a pena continuar lendo! Valeu, Heisenberg! E viva a Teoria das Supercordas!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Ariadne, Teseu e A Origem


Semana passada vi o badalado "A Origem". Pelo que tinha lido antes, parecia ser o novo Matrix, algo que misturava efeitos espetaculares com uma trama sensacional. Nada disso. É, apenas, um bom filme de ação com um mote mais interessante do que matar os inimigos pra salvar a mocinha. Logo de cara, algo me chamou atenção: uma personagem chamada Ariadne, que, como teste para entrar no grupo, desenhava labirintos. Obviamente, eu deduzi que a moça guiaria o mocinho até o desfecho de sua tensão pessoal... Na mitologia grega, Ariadne deu a Teseu um novelo para usar como guia no labirinto do Minotauro, o que originou a expressão "Fio de Ariadne". Curiosamente, me deparei com esta referência em dois livros que li este ano: o divertido Os Espiões, de Veríssimo; e o interessante Todos os Nomes, de Saramago. No primeiro, Ariadne é a personagem que guia a trama. No segundo, um fio-guia é usado como no mito, para marcar o caminho através de um labirinto. Em ambos, a referência é bem utilizada. Já no filme, é só um nome-clichê desnecessário. Até mesmo porque, verdade seja dita, tudo que o filme não possui é um labirinto. Fique tranquilo, Teseu. Não existe a menor chance de se perder...

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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