quarta-feira, 29 de junho de 2011

Woody Allen em Paris e a metamorfose ionesca dos rinocerontes de Dalí

Em "Meia-Noite em Paris", Owen Wilson é Gil Pender, um roteirista de cinema que divide sua atenção entre o romance que tenta escrever e a noiva que nem tenta entender (se é que ela é passível de entendimento). E, assim como o personagem principal do filme sempre é uma extensão do próprio Woody Allen, o personagem principal do livro de Gil também é um retrato do seu autor. Um cara nostálgico, saudosista, que considera ser o passado melhor que o presente.

Durante uma viagem a Paris com a noiva e os sogros, Gil imagina como seria mais fácil escrever um romance cercado pela atmosfera criativa que inumdava a cidade nos anos 20. E, neste devaneio, ele consegue se transportar a este passado mágico. Gil tem, então, encontros com muitos de seus ídolos que habitavam a Cidade Luz naquela época: Picasso, Scott Fitzgerald, Hemingway, Cole Porter, Degas, Gauguin, Man Ray, Buñuel e o responsável por uma das passagens mais engraçadas: Salvador Dalí. No meio dessa coleção de citações, Gil tenta desabafar com Dalí, mas o surrealista se importa apenas com... rinocerontes!

Eugène Ionesco nasceu na Romênia, mas tornou-se escritor em Paris. Ícone do chamado "teatro do absurdo", ficou célebre pela peça "O Rinoceronte". Numa cidade comum, num dia qualquer, os habitantes são surpreendidos por um rinoceronte que corre pela rua. Ninguém sabe de onde veio. Apesar do absurdo da cena, logo voltam à banalidade corriqueira. Mas logo são surpreendidos por outro rinoceronte. E, pouco a pouco, os próprios habitantes se transformam em rinocerontes. Muitos, numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, dão por si na cama transformados num gigantesco bicho (não resisti em escrever dessa maneira Gregor Samsa!). E todos seguem essa metamorfose sem angústias, à exceção de Bérenger, que decide ser humano até o fim, custe o que custar. ionesco não deixou claro se os rinocerontes eram metáforas da estranheza frente ao mundo de uma maneira geral, numa coisa assim meio Camus; ou se representava algo específico. Diz a lenda que era uma referência ao nazismo, que mesmo sendo tão incomum e assustador, convenceu grande parte do povo alemão. Mas isso é outro papo.

Enquanto Bérenger quis enfrentar os absurdos e estranhamentos do presente, Gil preferiu fugir para um passado imaginário. Bérenger resolveu encarar o humano mundo cotidiano, mesmo que cercado por uma realidade tão estranha quanto um rinoceronte na sala de estar. Gil decidiu fugir dos rinocerontes nossos de cada dia, mas percebeu que de nada adiantava ser um escritor fora de sua época, pois os grandes artistas são fruto do Zeitgeist, do espírito do tempo em que vivem. Então, em vez de se refugiar no passado, seguiu Dalí e viu que só os rinocerontes importam.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa e a Coca-Cola em Portugal

Num remoto 13 junho, há 123 anos, nascia Fernando Pessoa, um dos gigantes da língua portuguesa. Alguns chegam a compará-lo a Camões, mas isso é outro assunto. Pessoa sempre rejeitou a vida acadêmica, negando até a cátedra de literatura inglesa em Coimbra. Preferiu seguir como funcionário de uma multinacional, traduzindo cartas comerciais. Um dia, por volta de 1927, a empresa em que trabalhava decidiu importar Coca-Cola. Nos EUA, o slogan era “a pausa que refresca”. A empresa pediu à Pessoa que traduzisse o slogan, mas ele, que via o cotidiano de uma maneira muito particular, resolveu criar um novo slogan, e cravou: “primeiro estranha-se; depois entranha-se”. Realmente, como poesia, não há o que se discutir. O jogo de palavras, a sensação de quem experimenta pela primeira vez confrontada com a maneira que o sabor se propaga. Só que, à epoca, Portugal vivia a ditadura de Antônio Salazar. O pessoal da censura achou meio esquisito esse papo de entranha-se numa bebida que tinha coca. Era uma conversa psicodélica demais. Resultado: proibiram a bebida. A Coca-Cola, graças a Fernando Pessoa, só entrou em Portugal 50 anos depois, em 1977, 9 anos após a morte do poeta e 3 anos após o fim do regime. Acho que os executivos da Coca-Cola não devem gostar muito de Pessoa. Afinal, divagar não é preciso, vender é preciso...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

João, Juscelino, e o milagre de Diamantina

Depois de não conseguir ser o novo Orlando Silva, o cantor das multidões, João Gilberto, frustrado, decidiu ir embora do Rio de Janeiro. Após uma temporada em Porto Alegre, decidiu se "exilar" em Diamantina, interior de Minas Gerais, na casa de sua irmã Dadainha. Chegou sem avisá-la, em setembro de 1955. Lá passou alguns meses sem botar o pé pra fora de casa. Nas primeiras semanas, não fazia absolutamente nada. Mas, de súbito, como se recebesse uma inspiração sabe-lá-deus de onde, pensou em uma nova maneira de fazer música. Passava horas tocando o mesmo acorde, muitas vezes trancado dentro do banheiro, e cantando de uma maneira diferente. Sua irmã, claro, achou que Joãozinho não tava muito bem da cabeça e o mandou pra Juazeiro, pra ver se os pais o ajudavam. Chegando em Juazeiro, o pai disse que aquilo não era música, era nhém-nhém-nhém. E, vendo o filho caladão, tocando aquelas coisas estranhas, mandou-o para Salvador para se consultar com psicólogos. Aqui, João foi avaliado, mas nada foi constatado. E ele, confiante de que tinha algo novo a apresentar, voltou para o Rio, de onde saíra fracassado. Desde Diamantina, João sabia que, finalmente, tinha encontrado o que procurava.

Também em setembro, também em Diamantina, num remoto 1902, nascia Juscelino Kubitschek de Oliveira. No outro setembro, o de 1955, Juscelino era o grande candidato à Presidência da República. Ex-prefeito de Belo Horizonte, ex-governador de Minas Gerais, destacava-se por ser jovem, arrojado, com idéias modernas e discursos encantadores. Prometeu progredir 50 anos em cinco. Muitos jornalistas, àquela época, deviam percorrer as ruas da pequena cidade para retratar o berço do futuro presidente, sem saber que ali estava nascendo a Bossa Nova.

Juscelino saiu de Diamantina para mudar o Brasil e virar história.

João foi para Diamantina para mudar o mundo e se fazer eterno.




Obs.: No post abaixo eu escrevi que o aniversário de João Gilberto é dia 11 de junho. Claro, errei e corrigi. A data correta é 10 de junho. Peço desculpas, principalmente àqueles que ficaram felizes por fazer anos no mesmo dia que João...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Joãozinho, o novo Orlando Silva?!

Dia 10 de junho é aniversário de João Gilberto. Fará 80 anos. E, em homenagem, farei uma semana de textos sobre ele. Vamos ao primeiro:
Em 1948, Juazeiro tinha apenas 10 mil habitantes. Entre eles, havia um jovem de 17 anos que todos chamavam Joãozinho de Patu, porque, como é comum no interior, João era filho de d.Patu! Joãozinho ganhou o primeiro violão aos 14 anos. Junto com amigos, montou grupos vocais, que eram a sensação na época. Em 1949, aos 18 anos, mudou-se para Salvador. O pai esperava que ele fizesse faculdade, mas ele seguiu com o intuito de ser cantor. Conheceu várias pessoas, e em 1950 foi pro Rio de Janeiro para ser crooner no grupo vocal Garotos da Lua. Naquela época, Joãozinho não cantava baixinho, quietinho, num banquinho. Cantava alto, inspirado pelos grandes cantores da época: Dick Farney, Lúcio Alves e Orlando Silva, o cantor das multidões. Mas Joãozinho foi demitido dos Garotos da Lua, e seguiu carreira solo. E, em 1952, conseguiu gravar seu primeiro disco que foi um enorme... fracasso! Joãozinho não conseguiu ser o novo Orlando Silva. Sorte nossa! Abaixo, o single "Quando ela sai".

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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