segunda-feira, 30 de maio de 2011

Crônica de uma sorte embriagada

"No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo".

Assim começa o livro "Crônica de uma morte anunciada", de Gabriel Garcia Márquez. Logo de cara, já sabemos que Santiago Nasar vai morrer. Resta saber como isso vai acontecer. E, aí, temos a história. De início, as coisas vão acontecendo sem fazer tanto sentido, nos perdemos pela falta de familiaridade com os lugares, as pessoas. Mas, aos poucos acontecem os encontros, os desencontros, as coisas vão se encaixando, fazendo sentido, até chegarmos à cena final da morte.

Em "Se beber, não case 2", temos algo parecido. Desde sempre já sabemos o início e o fim, só nos resta entender como os extremos se conectam. Mas, à diferença do primeiro filme, a graça não está na surpresa, mas na repetição. A sequência de fatos é a mesma: acordar sem lembrar de nada, achar um animal, uma pessoa desconhecida, perder um amigo, e sair juntando os cacos pra tentar montar o quebra-cabeças.

No primeiro filme, a comédia está na surpresa, na sucessão de fatos inusitados, mais do que em diálogos ou ações isoladas. Neste segundo filme, como já conhecemos o enredo, restou ao realizadores a ênfase no humor pontual. E aí se destacam a presença de um macaco politicamente incorreto e de situações de cunho sexual que, com certeza, vão gerar polêmica. A dose pode ter sido exagerada, mas a fórmula é clássica, tanto que foi analisada por dois grandes pensadores: Bergson e Freud.

Henri Bergson, no seu "O Riso", teoriza a fundo o Risível, como é chamado o humor na filosofia estética da arte. Bergson diz que não existe Risível fora do campo humano: "Não há cômico fora daquilo que é propriamente humano. Uma paisagem poderá ser bela ou feia: não será, nunca, risível. Nós poderemos rir de um animal, mas porque se terá surpreendido nele uma atitude de homem ou uma expressão humana". Acho que, pelo texto, Bergson acharia graça de um macaquinho com uma jaqueta jeans dos Rolling Stones bebendo, fumando e cheirando...

Já Freud... bem, aquela coisa de sempre. Na juvetude seus textos eram de uma profusão hormonal... depois de velho ele até reviu alguns. Deve ter sido o efeito da andropausa. Mas, voltemos ao assunto. Quando jovem, Freud dedicou-se um pouco ao Risível. E, qual foi sua tese? Lá vai: "nós rimos quando um complexo sexual reprimido se exprime simbolicamente num momento de distração ou num termo equívoco, e quando nos apercebemos bruscamente da significação sexual profunda sobre a forma simbólica". Resumindo: piadas de duplo sentido, ou de um sentido só mesmo. Freud, certamente, gostaria da cena em que o macaco simula fazer.... Bem, deixa pra lá. Quem vir o filme saberá.

Assim como o livro de Garcia Márquez, o filme se valida pelo miolo. Afinal, todos já sabemos o início e o fim. Resta, apenas, degustar o miolo.

"Depois, [Santiago] entrou na casa pela porta dos fundos, que estava aberta desde as seis horas, e desabou de bruços na cozinha". Fim.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Menos é Miles.

Hoje Miles Davis faria 85 anos. É dele o disco Kind of Blue, o disco de jazz mais vendido da história. A banda que o acompanhava era formada, apenas, por Bill Evans, Wynton Kelly, Paul Chambers, Cannonball Adderley e... John Coltrane! Coltrane, por sinal, é o contraponto de Miles no disco. Enquanto lança notas velozes, que parecem quase não caber na música de tão numerosas, Miles aparenta se concentrar para dar A Nota Certa. Numa época em que o beep bop jazz dominava com sua linha mais dançante, Miles fez mais usando pouco. Não à toa, encantou-se por outro minimalista: João Gilberto. Como relatado no livro "Kind of Blue - A história da obra-prima de Miles Davis", certa vez, voltando de uma turnê, um músico amigo perguntou pra Miles como havia sido o show. E ele respondeu: "Coltrane tocou 50 solos. Cannonball tocou 46. Eu toquei dois...".
É isso. Menos é Miles.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A guerra dos 30 anos


O texto de hoje seria sobre Lady Gaga, mas um rápido diálogo me fez mudar de idéia (não consigo aderir à reforma ortográfica...). Depois de um dia trabalhando no texto, algo não programado mudou a rota das coisas. E, este acaso, teve como mote, justamente, o acaso. Na conversa, considerei que, às vezes, o acaso se mostra mais eficiente que o deliberado. Por causa disso, lembrei de dois livros.

No livro "O Deserto dos Tártaros", de Dino Buzzati, Giovanni Drogo é um cara que sonhava desde sempre em ser um militar condecorado por um feito heróico. Entrou para o exército e foi enviado para o forte que guardava o Deserto dos Tártaros. O seu destino, tão planejado, parecia caminhar a passos largos. Afinal, quando os inimigos tártaros cruzassem o deserto e iniciassem a guerra, a tropa que os derrotasse alcançaria a glória nacional. Durante 30 anos, Drogo espera o que parece certo: a guerra. Mas o destino falhou, e Drogo perdeu-se nas suas certezas e "entendeu que transcorrera uma geração inteira, [...] que ele já ultrapassar o cume da vida para o lado dos velhos [...] sem ter feito nada de bom. Um nó apertava o coração de Drogo: adeus, sonhos de um tempo distante, adeus...".

O livro "Travessuras da menina má", de Mario Vargas Llosa, tem início na Lima dos anos 50. Por sinal, acho Lima uma cidade feia, mas, imaginem, tem gente que gosta! O jovem Ricardo Somocurcio conhece a complicada e nem tão perfeitinha Lily e se apaixona. Tudo corre como mais uma daquelas paixões juvenis que duram a eterniadde de um verão. Já nos anos 60, Ricardo segue a vida como havia planejado, como tradutor da UNESCO em Paris. Assim como na vida de Drogo, o destino parece caminhar a passos largos. Mas, eis que vem o acaso, e Ricardo reencontra Lily de uma maneira incrível. E, assim, eles seguem por 30 anos. Os poucos encontros ao acaso interferem de tal maneira na vida de Ricardo, que são suficientes para alterar tudo que ele havia planejado.

Ao longo de 30 anos, Ricardo viveu guiado pelas incertezas que aconteceram. Ao longo de 30 anos, Drogo viveu guiado pelas certezas que não aconteceram. E, no final, ambos tiveram alegrias e frustações. Pois, Sartre de novo, "você não é senão a sua vida".

segunda-feira, 16 de maio de 2011

E se?! Os Agentes do Destino, Sartre, e os limites do acaso


Acredito que, com frequência, todos pensam: "e se... ?", e seguem-se variações as mais diversas. E se eu tivesse ligado pra ela? E se eu tivesse escolhido outra profissão? E se eu tivesse chegado 5 minutos mais cedo? Mas, até que ponto escolhemos nosso caminho? Está tudo definido pelo destino, ou seguimos ao acaso?

No filme "Os Agentes do Destino", David Norris (Matt Damon) é um jovem candidato a senador dos EUA. Na noite em que perde as eleições, antes do discurso da derrota, conhece Elise (Emily Bunt) num lance do acaso. Influenciado pelo encontro fortuito, David fala de improviso, ignora o que estava escrito, e é ovacionado por todos. Tempo depois, mais uma vez ao acaso, encontra Elise. Mas, a partir daí, tudo muda. David é surpreendido pelos agentes do Destino, que atuam para pôr em prática o plano traçado pelo "Presidente". David fica sabendo que o tudo já está planejado, e cabe a estes agentes fazer com que a rota da vida não seja desviada. O "Presidente" até permite que tenhamos pequenos acasos cotidianos e um livre-arbítrio inofensivo, como escolher o almoço, por exemplo. Mas, no geral, vivemos todos num Show de Truman. Os agentes do Destino dizem a David para se afastar de Elise, porque isso atrapalharia o plano de vida dos dois. Contam que o primeiro encontro estava escrito, mas o segundo foi um descuido de um agente. E revelam que ambos teriam grande sucesso profissional se separados. Mas, caso se juntassem... David, claro, não aceita, e decide lutar a todo custo para fazer o próprio destino, tendo como motivação o amor.

No livro "Os Dados estão Lançados", Sartre aborda a mesma questão. Pierre e Eve nunca se viram em vida, mas se encontram no "além" após morrerem. Atraídos, lamentam não terem se conhecido quando vivos. Também nessa história, a vida é planejada e controlada por burocratas. Uma funcionária do destino descobre que houve um erro, pois Pierre e Eve deveriam se conhecer em vida. E, pela lei nº 140 do Destino, nos casos de amores não realizados, pode o Diretor autorizar a volta dos mortos para reparar o engano. Então, Pierre e Eve voltam, tendo que, em 24 horas, provar ser verdadeiro o amor. Pierre é um revolucionário que quer derrubar um governo. Eve é a esposa do Secretário de Milícia. Confrontados em vida com realidades tão distintas, surge o mesmo dilema do filme: seguir vidas paralelas rumo ao êxito individual já planejado, ou construir um caminho novo com base no amor?

No filme, David tem que escolher entre o amor e o sucesso político, naquele clima clichê americano. No livro, Pierre tem que escolher entre o amor e aquela besteirada de luta de classes, naquele clima clichê revolucionário-gagá (que bem poderia ter morrido junto com Stálin). Em ambos, o Homem se liberta do Destino, refaz sua história, e segue o caminho das suas convicções. Ele cria o seu propósito de vida, e a partir dele constrói a si mesmo.

Eu acho que, na vida real, não vai aparecer um buroocrata do destino revelando nosso plano de vida. Na verdade, nem mesmo acredito em destino. Prefiro a versão de vida do genial Richard Dawkins. Numa entrevista incrível, na FLIP 2009, disse ele, impactante:

"Indivíduos criam os próprios propósitos de vida. E crer que esta é a única chance que teremos nos faz valorizar mais a vida. É só calcular a probabilidade que tínhamos para nascer. Nossos pais precisaram se conhecer[...], o mesmo processo ocorreu com os nossos avós, bisavós, seguindo essa peregrinação até a origem da vida. Nós existimos por um fantástico acaso. Não desperdicem a vida. Não haverá outra!".

Portanto, cabe a nós ordenar o caos, tirar o que desejamos do acaso, e colocá-lo no cotidiano. Como disse Sartre em outro texto: "O homem está condenado a ser livre"...

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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