quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Perereca Que Pisca, a deputada e George Orwell


Recentemente, a deputada Luiza Maia manifestou toda a sua insatisfação com a Perereca Que Pisca, como escrevi neste post. Agora, voltou suas atenções para a imprensa. Enquanto isso, o vocalista da banda Black Style, o da perereca, anunciava que escreverá um livro baseado no clássico 1984, de George Orwell. E, eis que, mais uma vez, os caminhos dos dois se cruzam.

A deputada, agora, quer regular a imprensa. Segundo ela, a “grande mídia virou partido político”, "é muita denúncia falsa, muita esculhambação que tem aí”, e se faz necessário um “controle do conteúdo dos programas de TV”. Enfim, é o papo de sempre. Como bem disse Millôr Fernandes: democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim. Assim funciona o raciocínio da deputada. Eu não acho que existe o grupo dos puros de coração, e o dos malvados que querem nos levar para o lado negro da força. Basta ler o texto anterior para ver que creio que todos têm, como disse Roberto Carlos, o bem e o mal que existem. E, cabe a você, escolher. Afinal, é preciso saber viver. Mas, para a deputada, imprensa boa é a que denuncia os inimigos. A que denuncia os amigos é golpista. Se a Veja denunciar um aliado, é golpe. Se a Carta Capital denunciar um inimigo, é resistência. Pra mim, canalha é canalha, independente se veste azul ou vermelho, se usa broche com estrela ou plumas de tucano. E, quando leio sobre controle de conteúdo, logo penso: quem decidirá o que é bom ou ruim? Por que alguém terá a capacidade de escolher o que será a minha verdade?

Robyssão (meu deus), do Black Style, me surpreende. Não sei como alguém pode ter talentos tão distintos. Depois de Bate Com a Bunda, Esfrega a Xana No Asfalto, Amassa a Latinha Com a Bunda e Chuva De Perereca, vai partir para literatura filosófica. Versatilidade é isso. No livro 1984, Orwell narra a história de uma sociedade dominada por uma ultra ditadura totalitária. E, o símbolo da repressão é o controle das informações. As pessoas só sabem aquilo que o partido julga ser A Verdade. Na primeira edição inglesa de "A Revolução dos Bichos", Orwell escreveu um prefácio intitulado " A liberdade de imprensa". Lá ele comenta a liberdade de um lado só. Uma editora, por exemplo, rejeitou o livro porque achou que não criticava ditaduras e, sim, a ditadura soviética. Ou seja, existe a ditadura do mal, que deve ser combatida, e a do bem, que apenas quer nos guiar rumo à salvação. Qualquer semelhança com o pensamento da deputada...

Robyssão e a deputada voltaram a se encontrar, desta vez em Orwell. Pelo histórico de poesias, não acho que o rapaz seja capaz de produzir algo interessante, mas isso não me faz pensar em censurar o direito que tem de cometer esse livro. De certa forma, admiro o fato dele citar e ter como referência uma grande obra. Sinal de que, talvez, tenha salvação. Já a deputada escolheu Orwell pelo outro lado, o lado da caricatura do autoritarismo. Ela decidiu ir de volta para o futuro de 1984.

Que coisa... entre a Perereca Que Pisca e a deputada, mais uma vez, fiquei do lado da perereca.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Serge Gainsbourg partido ao meio e o mal que habita em nós

Coitado tem andado a delirar
Ele quer tantas fêmeas a conquistar
Fica sempre circulando
Pois muitas delas quer ofuscar
Para todas poderem em fim desapontar

Sabe muito bem como é ruim
Ser dia e noite um estopim
Que assim aceso vai buscar o próprio fim
Para uma vez morto viver com James Dean

Nas vezes que ele quer me confundir
Sorri e pede licença para sair
Parece que finalmente vai sumir
Mas é quando eu mais devo me prevenir
Desse mal que habita em mim

(Marcelo Nova - Camisa de Vênus)



O filme "Serge Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres" é anunciado como uma cinebiografia do famoso e polêmico cantor e compositor francês. Pensei, então, que seria uma narrativa linear e realista do cara que feio e esquisito que conquistou, apenas, Brigitte Bardot e Jane Birkin (praticamente um Sarkozy underground). Mas, o filme não segue a biografia crua e, sim, recria a vida de Gainsbourg por uma ótica bem psicológica. Em todo o filme, um personagem-caricatura de Gainsbourg, faz as vezes do demônio pessoal que tenta levá-lo para o lado negro da força. É mal que habita nele corrompendo-o rumo à destruição.

No livro "O Visconde Partido ao Meio", o italiano Ítalo Calvino cria uma fábula leve e quase infantil (no estilo) que mostra esse eterno conflito entre as dicotomias nossas de cada dia. Nela, o visconde Medardo di Terralba é atingido por uma bala de canhão e tem seu corpo dividido exatamente ao meio. Então, cada parte sobrevive independente, mas conserva sentimentos opostos. Enquanto uma levava toda a parte boa do visconde, a outra só conservou seu lado ruim. Mas, nenhuma das partes conseguiu ser feliz sendo apenas bondade e apenas maldade. No fim, as partes são costuradas e voltam a ser uma: "Assim, meu tio Medardo voltou a ser um homem inteiro, nem bom nem mau, uma mistura de maldade e bondade ".

Como disse o próprio Calvino, o homem é um ser “mutilado, incompleto, inimigo de si mesmo”. E, ser um homem inteiro, é conservar dentro de si mesmo esse duelo entre os opostos, tentando equilibrar-se na linha média que não nos deixa ser pender para um extremo.

Numa cena marcante do filme, Gainsbourg deixa de ser ele, e passa a ser o próprio demônio caricato que havia nele. Portanto, deu-se a derrota do lado bom, restando-lhe apenas aquilo que o destruía.

Serge Gainsbourg venceu o mundo, mas perdeu o duelo contra si mesmo...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Os ovos de Dilma ou a lingerie de Gisele?


A Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) encrencou com a propaganda da Hope com Gisele Bündchen. Nela, Gisele ensina truques de sedução para as mulheres extraírem agrados com mais facilidades de seus cônjuges. A secretaria viu nisso uma exaltação da exploração-machista-dominante que rebaixa as mulheres a uma condição submissa. Ufa! Mais um pouco e aparecia o imperialismo yankee e o neoliberalismo na história. E, para mostrar que a voz do povo é a voz no que deu, a secretaria disse que recebeu seis reclamações de pessoas “indignadas” com a propaganda... Isso mesmo: seis criaturas. Não sei qual a média de reclamações por propaganda (e isso é tão besta que tenho preguiça de pesquisar), mas acredito que muitas propagandas do governo geram mais reclamações. Aquelas propagandas ridículas da Dolly, então, devem ser trending topics da ouvidoria!

O governo atual, desde sempre, tentou criar essa besteirada de uma gestão mais humana porque feminina. Tudo que se faz tem aquele papo de a primeira "presidenta", a primeira mulher a chefiar sei-lá-o-quê, e blá, blá, blá. Seria uma maneira de mostrar que as mulheres podem tanto quanto os homens. Na minha opinião, só o fato de fazer tanto alarde por igualdade já é um sinal de crer numa desigualdade. Qualquer excesso de afirmação esconde a crença no desigual. Eu não voto em alguém porque é mulher, homem, negro, branco, casado, solteiro, canhoto ou destro. Eu voto em quem tem ideias que me agradam e julgo capaz de efetivá-las.

Curiosamente, esse mesmo governo que classificou a propaganda de Gisele como uma exaltação ao esteriótipo da mulher objeto fez questão de criar o esteriótipo da dona de casa para a "presidenta". Afinal, pensaram, uma mulher que não sabe nem fritar um ovo não serve pra casar. E, se não serve pra casar, como pode governar? Decidiram, então, que a "presidenta" deveria mostrar todas as suas prendas do lar para, assim, convencer a todos que é mulher de verdade. Os ovos de Dilma, então, viraram uma tara. Fez-se omelete no programa de Luciana Gimenez, em Ana Maria Braga e ainda teve comentários sobre o prato na entrevista concedida a Patrícia Poeta. Mas, acreditar que uma mulher só é uma mulher se souber cozinhar não é rebaixá-la a uma condição submisssa e esteriotipada? Mulheres que não sabem nem fazer pipoca não podem ser competentes para ocupar cargos de alto escalão? Quer dizer que a mulher só pode sair de casa depois que estiver prendada o suficiente?

O que as burocratas da secretaria não entenderam é que a propaganda de Gisele ironizava justamente os homens. O que se diz na peça é que os homens são tão bestas que basta um truque para tê-los completamente sob domínio. Os homens seriam, então, os dominados, enquanto as mulheres, sagazes e cientes de suas armas, conquistam o que desejam sem grandes esforços.

Para ser mais feminina, Dilma mostrou os ovos, e se deu mal. Gisele, muito mais esperta, exibiu a lingerie, se deu bem, e ficou mais mulher.

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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