quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Eleitor, leia Saramago!


Domingo é dia de eleição. Ontem, num debate entre especialistas em direito eleitoral e ciência política, vi um comentário interessante. Um dos participantes comentou que num caso excepcional (bota excepcional nisso!) em que todos os eleitores votassem para deputado apenas na legenda, não teria como distribuir esses votos de modo a eleger alguém. Ou seja, todos teriam votado, mas ninguém seria eleito. Prontamente me lembrei do "Ensaio Sobre a Lucidez", de José Saramago. Num país fictício, a população, de maneira espontânea, decide votar majoritariamente em branco. No final da apuração descobre-se que 83% dos votos foram brancos. Com isso, um caos se instala, pois o absurdo da situação não permite que haja um governo legitimamente válido.
O interessante do livro de Saramago é que o colapso do sistema se dá através de um dispositivo legal: o voto. É o que aconteceria no caso de 100% dos votos em legendas aqui no Brasil. Seria uma maneira de dizer que a diversidade de partido é válida, mas que não há ninguém capaz de merecer um voto.
E, pensando bem, é bem melhor esse tipo de manifestação do que o tal "voto de protesto", que elege um fanfarrão famoso e uma penca de desconhecidos...
Eleitor, leia Saramago!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Tudo pode dar certo


Em seu novo filme, "Tudo Pode Dar Certo", Woody Allen retoma velhos temas que sempre parecem um desabafo numa sessão de psicanálise: a atração por uma adolescente ingênua, o humor judaico irônico, a estranheza no convívio social, Nova York... Enfim, bem Woody Allen. Comparado a "Vicky Cristina Barcelona", sua obra anterior, o filme mais parece uma sitcom de televisão. O enredo é previsível, a fotografia é pobre e os personagens são caricatos ao extremo. Mas o filme é bem divertido. O protagonista Larry David encarna bem a figura de um velho gênio egocêntrico, ranzinza e neurótico. Se todos comentam que Allen criou mais um personagem à sua imagem e semelhança, esqueceram do papel de Evan Rachel Wood. Evan nunca conseguiria interpretar mal uma bela jovem que se apaixona por um cara estranho. Afinal, ela foi noiva de ninguém menos que o inclassificável Marilyn Manson!

Mas, para mim, o melhor são os diálogos com referências à física quântica. De início, o velho físico aposentado Bóris despreza a bela jovem Melody por causa da diferença entre a capacidade intelectual de ambos. Mas, ao vê-la chegar de uma festa, semi-bêbada, reclamando que conheceu pessoas desinteressantes que nem sabiam o que é a Teoria das Cordas, ele a observa surpreso, como se tivesse sido apresentado a uma nova pessoa, e diz:
"Inacreditável. O fator de chance na vida é incompreensível. Você entrou no mundo como um evento aleatório, vindo de algum lugar do Mississipi. Eu surgi através da conjunção entre Sam e Yetta Yellnikoff, no Bronx, décadas antes. E, através de uma astronômica combinação de circunstâncias, nossos caminhos se cruzam".
Eu sempre me perguntei qual o sentido de ler sobre física quântica. Ficava pensando que esse troço só serve pra deixar você meio neurótico e estranho ao mundo. E, afinal, quem se interessaria por um cara que acredita que o Princípio da Incerteza de Heisenberg deixa a vida caoticamente linda? Bom, se a resposta for Evan Rachel Wood, vale muito a pena continuar lendo! Valeu, Heisenberg! E viva a Teoria das Supercordas!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Bienal, urubus e ex-BBBs

Foto: Daigo Oliva/G1
"Um dos problemas da arte contemporânea é que certos artistas andam tendo 'idéias' demais e se querem 'inteligentíssimos'. Sejamos modestos. 'Idéias' não são para todo mundo. Deus, por exemplo, teve uma. Depois se arrependeu, aí mandou um dilúvio para desmanchá-la, depois tentou consertá-la, mandando seu filho para dar um jeito e até hoje tenta corrigi-la".

Esse é um trecho do excelente livro "Desconstruir Duchamp", de Affonso Romano de Sant'Anna. E, em tempos de Bienal, é bem apropriado. O artista Nuno Ramos está expondo uma dita obra que consiste numa gaiola gigante com dois urubus. Perguntado a respeito, ele disse que acha que poderia ser interpretada como uma crítica política. Pois é... nem ele sabe por que diabos uma gaiola com urubus está num museu, e não num zoológico. A arte contemporânea virou uma grande peça publicitária, onde o que importa é gerar repercussão. E, sendo assim, nada melhor do que criar polêmica. Essa é a palavra-chave dessa nova arte: polêmica. Já teve gente expondo toneladas de terra, expondo dois caminhões de lixo, paredes vazias, cartões de ponto, uma cama, um video de 8 horas com o cara dormindo... Enfim, o importante é gerar polêmica, aparecer nos meios de comunicação, ter um empresário, um assessor de imprensa, e ganhar uns trocados para aparecer em eventos. Resumindo, ser artista contemporâneo é o mesmo que ser um ex-BBB...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Vai, Hendrix! ser gauche na vida


Jimi Hendrix era canhoto. Como apenas cerca de 10% da população possui essa característica, durante muito tempo se acreditou que ser canhoto era romper o padrão normal, o que significaria algo ruim. Para muitos, os canhotos eram mais instáveis emocionalmente. No dicionário Aurélio, canhoto também é definido como "inábil, desajeitado". O dicionário Houaiss cita o regionalismo informal que utiliza "canhoto" como diabo. Em italiano, a esquerda é chamada "la sinistra", enquanto a direita é "la destra". Em francês, "gauche" (esquerdo) pode ser usado como sinônimo de alguém que foge às regras, como bem disse Drummond no seu "Poema de sete faces":
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
JimiHendrix rompeu todos os padrões da música. Inventou um jeito próprio de tocar, desenvolveu uma técnica inacreditável, e se transformou no maior guitarrista da história. Abandonou a vida cedo, e tornou-se imortal.

Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison morreram aos 27 anos, num intervalo de um ano entre 1970 e 1971. E isso, obviamente, alimentou teorias conspiratórias as mais diversas. Oficialmente, a então namorada Monika Dannemann encontrou Jimi morto num quarto de hotel em 18 de setembro de 1970. Ele havia ingerido nove pílulas para dormir e vinho tinto (quase uma sobremesa para os padrões de loucura do rock da época!) . A autópsia revelou asfixia pelo próprio vômito. Depois, Monika mudou a versão da morte várias vezes. E, para completar a teoria da conspiração, em 2009, o ex-roadie James “Tappy” Wright escreveu um livro onde afirmava Hendrix foi assassinado pelo empresário.

Jimi Hendrix foi gauche na vida. Na verdade, ele foi o próprio anjo torto da música...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A BieNada e a minha previsão


Em 2008, 40 pichadores invadiram a Bienal (que eu chamo carinhosamente BieNada), e fizeram o que eles chamam de arte-protesto-manifesto... enfim, picharam. À época, escrevi:
Há um andar inteiramente vazio na Bienal de São Paulo. Os curadores inventaram uma teoria mirabolante, mas na verdade faltou grana pra encher todo o prédio. Na abertura, um grupo pichou a área vazia e quebrou alguns vidros. Realmente, um absurdo! Não pode chegar na Bienal e fazer isso assim, de repente. Antes, tem que escrever um não-manifesto-anti-conceito explicando que a intervenção-performática é a neo-construção-da-arte-pela-desconstrução-do-vazio. Aí, sim. Se fizessem isso, além de chamados para as próximas exposições, poderiam pedir um patrocínio do Ministério da Cultura.
E agora, o que aconteceu?! Os pichadores criaram uma bobajada teórica e foram chamados a expor! Acertei na mosca! Um dos intelectuais dessa neo-arte filosofou o seguinte:
“O conceito de arte é distorcido. Só é arte o que é bonito ou autorizado. A arte do ‘pixo’ é libertária, anárquica. Os muros e portões para fora da casa são públicos. A gente vê beleza no que faz. Tudo é privado e somos obrigados a engolir propaganda de consumo e política. Pichação é linguagem também.”
Não vou me estender, é só uma análise rápida:
1- Primeiro ele diz que o conceito de arte é distorcido por se basear em beleza. Logo depois ele justifica sua suposta arte dizendo que vê beleza no que faz.
2- Ele fala que o tal "pixo" é anárquico, mas faz questão de dizer que muros "para fora da casa" são públicos! Independente da complexidade desta nova teoria sobre propriedade privada e espaço urbano, ele se faz de vítima argumentando que tudo é privado, e que (não sei o que uma conjunção aditiva faz entre estas coisas) somos obrigados a engolir propaganda de consumo, seja lá o que isso signifique. Ou seja, como tudo é privado, ele é anárquico invadindo o público! Que coisa...
3- Quanto àa pichação ser linguagem... bom, acho que a foto aí em cima, do evento de 2008, mostra o quanto o pessoal sabe de linguagem. Sabem tanto que até inventaram uma língua própria, que difere um pouco da língua portuguesa...

Enfim, uma pessoa com essa capacidade de organizar idéias só poderia produzir o tal do "pixo". E, para os que se dizem admiradores da arte contemporânea, deixo uma pergunta: Se você vir o tal artista fazendo uma intervenção urbana anárquica no muro de sua casa, você chama a polícia ou convida ele pra tomar um café como agradecimento pela obra?!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Tiririca, Sartre e a clareza das leis


Sem dúvida, a grande figura dessas eleições é Tiririca, candidato a deputado federal, e que usa como argumento irrefutável o "pior que tá num fica". Tem gente que acha a candidatura dele um absurdo porque ele faz chacota do processo eleitoral e possui baixa escolaridade. Bom, tem gente que ocupa cargo muito mais importante, faz pouco caso da lei eleitoral constantemente, e adora dizer que não estudou, e nem por isso é criticado... enfim, isso é outro assunto. Um promotor de São Paulo quer impugnar a candidatura de Tiririca com base no art. 242 do Código Eleitoral, que diz: "A propaganda, qualquer que seja a sua forma ou modalidade, mencionará sempre a legenda partidária e só poderá ser feita em língua nacional, não devendo empregar meios publicitários destinados a criar, artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionais". Vamos analisar os tais estados emocionais e passionais. Sartre, no seu Esboço para uma teoria das emoções, disse que "a emoção é um fenômeno de crença". E, a partir disso, "a consciência precipita-se no mundo da emoção [...] e transforma seu corpo, como totalidade sintética, de modo que ela possa viver e apreender esse mundo novo através dele". Então, quando um candidato mostra o depoimento dos filhos, esposa, mãe, papagaio, não está apelando à emoção do eleitor? Ele não quer que o eleitor creia na sua boa-fé e se emocione junto com os depoentes? Isso não é "criar, artificialmente, estados emocionais"? Num video recente (veja abaixo), Tiririca ironiza - de maneira genial - justamente essa banalização do uso das emoções pelos candidatos dizendo: "Tive que apelar, tive que trazer minha família. Todo mundo está mostrando sua família. As pessoas se comovem com família na televisão".
Quanto aos estados mentais... bem, sinceramente, eu não faço a mínima idéia do que vem a ser esse troço de criar estados mentais artificialmente. Por acaso alguém não está em algum estado mental neste momento?! Quer dizer que as propagandas devem gerar estados não-mentais?! Bem, vendo deste ponto, Tiririca, realmente, está contra a lei. Afinal, ele foi o único que nos fez pensar na importância do processo eleitoral democrático.


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Ariadne, Teseu e A Origem


Semana passada vi o badalado "A Origem". Pelo que tinha lido antes, parecia ser o novo Matrix, algo que misturava efeitos espetaculares com uma trama sensacional. Nada disso. É, apenas, um bom filme de ação com um mote mais interessante do que matar os inimigos pra salvar a mocinha. Logo de cara, algo me chamou atenção: uma personagem chamada Ariadne, que, como teste para entrar no grupo, desenhava labirintos. Obviamente, eu deduzi que a moça guiaria o mocinho até o desfecho de sua tensão pessoal... Na mitologia grega, Ariadne deu a Teseu um novelo para usar como guia no labirinto do Minotauro, o que originou a expressão "Fio de Ariadne". Curiosamente, me deparei com esta referência em dois livros que li este ano: o divertido Os Espiões, de Veríssimo; e o interessante Todos os Nomes, de Saramago. No primeiro, Ariadne é a personagem que guia a trama. No segundo, um fio-guia é usado como no mito, para marcar o caminho através de um labirinto. Em ambos, a referência é bem utilizada. Já no filme, é só um nome-clichê desnecessário. Até mesmo porque, verdade seja dita, tudo que o filme não possui é um labirinto. Fique tranquilo, Teseu. Não existe a menor chance de se perder...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O quinto cavaleiro do Apocalipse


Os carolas xiitas americanos têm como diabinhos de estimação os chamados 4 Cavaleiros do Apocalipse: Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris e Christopher Hitchens. É que a maioria do pessoal de lá pensa igual ao intelectual Datena. Ou seja, é lindo ser militante de uma religião, e criminoso alardear que não vê sentido em crer numa metafísica superior. Hitchens, por sinal, virou prova viva da fúria divina que pune os infiéis, pois descobriu, mês passado, ter um câncer no esôfago. Eu acho que a doença é menos fruto das palavras anti-deus e mais consequência de anos de cigarro, bebida e outras substâncias que completam a farra. Pois bem, eis que agora surge mais uma voz pregando abertamente não crer em Deus. E esta voz não é humana. É proferida pelo sintetizador de um computador. É a voz robótica de Stephen Hawking, um dos maiores intelectuais do século XX, e o cientista mais pop do mundo. Já protagonizou uma série na BBC onde era chamado de Mestre do Universo, participou dos Simpsons, jogou cartas com Einstein e Newton em Jornada nas Estrelas, e foi um dos primeiros a experimentar o voo simulado de gravidade zero oferecido para não astronautas. Este mês, Hawking irá lançar um livro onde diz que o "Big Bang" foi uma consequência inevitável das leis da física, não necessitando, portanto, de um Deus criador. Com certeza irão incluir Hawking na lista negra dos xiitas. Quando Hawking se encontrou com o papa, eu escrevi o seguinte texto, em 1 de novembro de 2008:

Stephen Hawking bem que poderia ser uma espécie de Deus. Desprovido de movimentos humanos, vaga onipotente pelo Universo apenas com a mente. Na cadeira de rodas, falando por um sintetizador, é capaz de fazer cálculos imensos e guardá-los na memória. Sempre irônico, possui um retrato de Marilyn Monroe no escritório e uma placa na porta "silêncio, o chefe está dormindo". Ficou famoso ainda estudante, quando interrompeu uma palestra do maior físico do mundo na época e disse "Seus cálculos divergem. Eu os refiz". A partir daí, recriou o Big Bang, os buracos negros, e boa parte do Universo. Em Cambridge, ocupa "apenas" a cadeira que foi de Newton, e diz: "a cadeira de Newton agora tem rodas". O abençoado foi o Papa.

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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