sexta-feira, 18 de junho de 2010

A viagem do elefante e o som do violoncelo...


Domingo o Brasil joga contra a Costa do Marfim, conhecida como Elefantes. E, depois, enfrentará a seleção de Portugal. Elefantes e Portugal... Semana passada li "A Viagem do Elefante", romance do português José Saramago que conta a história real de um elefante indiano que viajou de Lisboa para Viena, como um presente dado pelo rei de Portugal ao arquiduque da Áustria. Ontem eu ia usar o livro para fazer uma relação entre os jogos do Brasil e a viagem do elefante. Não deu tempo de escrever. E, hoje pela manhã, li que Saramago havia morrido... Que pena... Então, lembrei de outro livro dele, "As Intermitências da Morte". Nele, a Morte se apaixona por um violoncelista e resolve não mais matar. Mas a falta de mortes causa um colapso social.

Hoje o violoncelista tocou. Sua amada acordou cedo e decidiu trabalhar...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A revolução dos bichos


Ontem, a seleção brasileira participou de um constrangedor jogo-treino-festa contra a seleção do Zimbábue. O país africano é governado pela doce figura de Robert Mugabe, auto-intitulado o Hitler negro, e mas candidamente chamado de "guerreiro da liberdade" pelo grande humanista Hugo Chávez. Após o hino, os jogadores brasileiros foram cumprimentar o ditador, alegremente conduzido pelo patético chefe da delegação brasileira. Bem, como o blog é sobre cultura, reproduzo abaixo um texto que escrevi em 2008 para o site da Faculdade Baiana de Direito, onde comparo Mugabe ao clássico A Revolução dos Bichos, de George Orwell.

Mugabe e a Revolução dos Bichos
Recentemente, Robert Mugabe foi reeleito presidente do Zimbábue em um pleito, digamos, suspeito. Mesmo vencendo o primeiro turno, o candidato da oposição abriu mão da disputa após uma série de ameaças e prisões. Então, restou a Mugabe apenas a vitória. Aos 84 anos, Robert Mugabe tem uma trajetória ambígua, que vai de herói dos povos africanos a vilão da democracia. Na década de 60, a então Rodésia era uma colônia do Reino Unido dirigida pelo britânico Ian Smith, que decidiu proclamar independência para governar o país sozinho. Não teve apoio internacional e sofreu com pressões internas que deterioraram sua gestão e culminaram com a indicação de Mugabe para primeiro-ministro em 1980. Era a África negra vencendo a exploração branca. Mas, o que parecia a libertação do povo, tornou-se calvário. Após expulsar do governo o também líder negro e aliado Joshua Nkomo, o que gerou diversos incidentes políticos, a revolução marxista do Zimbábue mostrou sua face mais cruel. Perseguições, censura, assassinatos, e 28 anos de ditadura transformaram o país num lugar de números surreais: 150.000% de inflação anual, 80% de desemprego, e expectativa de vida em torno de 37 anos.

"TODOS OS BICHOS SÃO IGUAIS, MAS ALGUNS BICHOS SÃO MAIS IGUAIS QUE OUTROS"

Em uma pequena fazenda no interior da Inglaterra, o porco Major revela aos outros bichos seu sonho: o dia em que os animais não mais seriam escravos dos humanos. Incentivados por esta visão, os porcos Napoleão e Bola-de-Neve organizam a rebelião contra o sr. Jones, dono da fazenda. Após duro combate, colocam o humano para fora e tomam posse de tudo. Proclamam a nova era de liberdade e igualdade para todos os animais. Mas, pouco tempo depois, Napoleão arma um golpe contra o seu aliado revolucionário Bola-de-Neve, expulsando-o da propriedade. Organiza uma guarda pessoal formada por cães, regula a ração dos outros animais, institui execuções e acumula bens e regalias. Aos poucos, o herói revolucionário tiraniza seus semelhantes, e revela ser tão perverso quanto aquele que combatia.

George Orwell escreveu "A Revolução dos Bichos" como um manifesto contra a revolução sanguinária soviética comandada por Stálin que, sobre o pretexto de criar um Estado igualitário, instalou um sistema dos mais cruéis e castradores das liberdades individuais.

É impressionante, e ao mesmo tempo triste, a semelhança de Mugabe e o porco Napoleão. Heróis em primeiro momento, afastam seus aliados para tomar todo o poder para si, oprimem seu povo com uma ditadura cruel, e se transformam num novo tipo de “homem inglês”.

Orwell é aclamado como um visionário por causa do livro "1984". Mas, infelizmente, nem ele podia imaginar que a "Revolução dos Bichos", obra que pretendia ser uma crítica ao passado/presente da época, seria, na verdade, sua grande visão do futuro.

  © Blog 'Croquis' Bahia Vitrine 2009

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