quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Ferrari de Nietzsche

Olha lá, quem sempre quer vitória
E perde a glória de chorar
Eu que já não quero mais ser um vencedor
Levo a vida devagar pra não faltar amor
Los Hermanos

A Fórmula 1 é um esporte (será?!) peculiar. Possui equipes, mas os pilotos competem de maneira independente. Dentro das equipes cada um possui seu staff de engenheiros e mecânicos. O cara que troca o pneu de um nunca vai trocar o pneu do outro. Nas transmissões é comum vermos os funcionários de um mesmo time sentados em duas alas distintas, torcendo abertamente para o "seu" piloto. Então, onde está o interesse da equipe? É um esporte coletivamente individuail? Ou individualmente coletivo? Enfim, o fato é que a regra não permite que a equipe determine troca de posições entre pilotos. Mas, domingo passado, a Ferrari mandou Felipe Massa abrir passagem para Fernando Alonso. Já haviam feito isso com Barrichello, que cedeu a vitória para Schumacher em 2002. Mesmo sendo uma manobra ilegal, os brasileiros prontamente obedeceram. E, depois, ambos fizeram cara de vítimas inconformadas. Por que não enfrentaram a equipe e impuseram uma posição de herói? Ou, então, por que não assumiram de bom grado a situação e exaltaram as virtudes do fiel escudeiro? Para Rubinho e Massa, resta um aforismo de Nietzsche em "A Gaia Ciência", naquele tom de verdades dúbias. É ler e refletir:

Conselho:
Aspiras à glória?
Escuta, pois, um conselho:
Renuncia a tempo, livremente,
À honra!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Meca, 1984 e a direção da fé


É preciso fé cega e pé atrás
olho vivo, faro fino e... tanto faz...
é preciso saber de tudo e esquecer de tudo:
fé cega e pé atrás.
Engenheiros do Hawaii

Muitos veículos de comunicação publicaram a incrível notícia de que o Conselho dos Ulemás, a entidade islâmica mais importante da Indonésia, declarou que cometeu um grave erro: indicou que a cidade sagrada de Meca estava a oeste do país. Resultado, milhões de muçulmanos rezaram voltados para a... Somália! Após corrigir o erro e indicar a direção noroeste, as autoridades islâmicas tranquilizaram os fiéis dizendo que "Alá compreende que o homem cometa erros". Quando li isso, tive duas dúvidas. Primeiro queria saber por que orientaram uma nova direção em março. E antes, o pessoal rezava virado pra que lado? Segundo, se, em tese, todas as mesquitas são construídas tendo como base a localização de Meca, todos já deveriam saber o lado correto, não é? Acho que o Conselho dos Ulemás não possui internet, Google Maps, GPS, e mantém uma espécie de Ministério da Verdade. No clássico livro 1984, George Orwell mostra uma sociedade totalitária onde o controle do governo é máximo. E um dos principais orgãos para a manipulação social é o Ministério da Verdade. Sob seu comando, a história é constantemente alterada e os fatos são modificados para atender novos interesses. Se um país aliado torna-se inimigo, o governo prontamente modifica todas as referências históricas, e o inimigo recente se torna um vilão de sempre. O Conselho dos Ulemás ainda está em 1984. E, sendo Alá onipresente e onisciente, e tendo todos rezado sempre para direções aleatórias, o importante é rezar em direção à própria fé...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A viúva e as garrafas de Louis


"Mergulhadores encontraram no mar Báltico o que pode ser a caixa de champanhe que ainda pode ser consumido mais antiga do mundo. As garrafas teriam sido produzidas pela Clicquot (agora chamada de Veuve Clicquot) entre 1782 e 1788. Pode ser uma remessa de champanhe enviada pelo rei Luís XVI, da França, para a imperatriz russa, Catarina, a Grande, por volta de 1780". Da BBC, no G1.

""Há uma âncora na rolha e (Moët & Chandon) me disse que é a única a ter utilizado esse emblema", explicou Christian Ekström, chefe dos mergulhadores. "Segundo nossos arquivos, a garrafa é dos anos 1780. Veuve Clicquot iniciou sua produção em 1772 e as primeiras colheitas foram fermentadas durante dez anos, então não deve ser de antes de 1782. Também não pode ter sido depois de 1788-1789, quando a Revolução Francesa paralisou a produção", declarou". Da AFP, no R7.

Pois é, os textos acima são de duas grandes agências internacionais. Mas discordo de muitas coisas. Vamos lá.

Sobre o nome:
A BBC diz que "agora" a empresa se chama Veuve Clicquot, e a AFP diz que a Veuve Clicquot começou em 1772. Na verdade, começou como Clicquot, passou para Clicquot-Muiron, depois Veuve Clicquot Fourneaux e em 1810, finalmente, Veuve Clicquot Ponsardin.

Datas das garrafas:
Dizer que "as primeiras colheitas foram fermentadas durante dez anos, então não deve ser de antes de 1782" é errado. Em 1777 a Clicquot vendia 10 mil garrafas por ano. O argumento "também não pode ter sido depois de 1788-1789, quando a Revolução Francesa paralisou a produção" é patética. Parece até que nada foi produzido depois desta data. A mais famosa safra, por sinal, é a de 1811.

A rolha:
Quanto à âncora na rolha, ela só passou ser utilizada em 1798, quando Barbie-Nicole Ponsardin se casou com François Clicquot, de quem ficaria viúva sete anos depois, tornando-se a viúva Clicquot, ou veuve Clicquot em francês. Na época, a empresa se chamava Clicquot-Muiron.

A Rússia:
O mercado russo sempre foi um desejo da viúva Clicquot. A Veuve Clicquot Fourneaux começou a vender para a Rússia em 1804, de uma maneira meio ilegal devido aos embargos comerciais da época. Mas ela só conseguiu se consolidar neste mercado em 1813-14, quando conseguiu distribuir lá sua famosa safra de 1811.

O Louis:
Quanto à caixa encontarada ser de Louis... deve ser mesmo. Mas não de Louis XVI, e sim de Louis Bohne, o representante comercial que introduziu o Clicquot na Rússia. Isto porque uma das rotas utilizadas era a Escandinávia. E muitas cargas foram perdidas nessa rota.

Conclusão:
Portanto, acho que a garrafa deve ser de um período entre 1804 e 1814. E, quem sabe, seja da famosa safra de 1811.

Obs.: Não entendo de vinhos nem gosto muito de champanhe. Apenas li A Viúva Clicquot, de Tilar J. Mazzeo e outras coisas avulsas. Prefiro cerveja mesmo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Pangloss e a felicidade brasileira

A revista Forbes aponta o Brasil como o 12º país mais feliz do mundo, à frente de países como EUA, Alemanha e Bélgica. No topo da lista estão Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suécia e Holanda. O resultado tem como base entrevistas realizadas entre 2005 e 2009. Aqui no Brasil, 58% classificaram-se como felizes, 40% disseram estar "lutando" e só 2% falaram que está tudo uma porcaria. Muitos dirão que isso é a prova de que dinheiro não traz felicidade, outros vão enaltecer o tal povo que levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima... Enfim, o que não falta é interpretação besta. Mas, o que é felicidade? Kant disse que a felicidade é "a totalidade das satisfações possíveis". Mas, se tenho tudo e não desejo mais nada, a felicidade vira tédio e passo a desejar sair desse estado. Tendo um novo desejo, não tenho mais felicidade. Seria, então, a felicidade impossível? É disso que Philippe van den Bosch trata no bom livro "A Filosofia da Felicidade". Mas como a pesquisa não define felicidade, duas opções: ou o cara se sente realmente feliz, ou ele apenas é conformado mas se diz feliz. Em Cândido, Voltaire critica a teoria do melhor dos mundos possíveis de Leibniz. Logo no início, Pangloss, mestre da personagem título, diz: "As coisas não podem ser de outra maneira... deviam é dizer que tudo está o melhor possível". Assim, Cândido e seus amigos sofrem as maiores barbaridades sem reclamar, pois sabem que tudo está da melhor maneira. Talvez o brasileiro seja só um discípulo de Pangloss...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Jim, Rock e Rimbaud


Terça-feira, 13 de julho, foi comemorado o Dia do Rock. Eu passei um dia pensando em algo para escrever sobre isso, mas cheguei à conclusão de que seria difícil falar das bandas que gosto num espaço curto. E nem consegui eleger uma banda que sintetizasse tudo. Quase elegi a banda americana The Doors, mas desisti. Aí ontem, 14 de julho, a Festa Nacional da França, eis que ligo a tv e me deparo com um documentário sobre Jim Morrison, vocalista do The Doors, que morreu justamente em Paris. Pronto. Defini. São eles.
The Doors, sem dúvida, mudou meu conceito de música. Era composta por um guitarrista de música flamenca, um tecladista clássico, um baterista de jazz, e um vocalista que queria ser poeta e que era a própria síntese do rock: Jim Morrison. Jim dizia ter presenciado a morte de índios numa estrada do Arizona aos 5 anos. O espírito de um xamã teria incorporado nele e, a partir de então, passou a se proclamar o Lagarto Rei. Estudante de cinema, montou a banda, fez sucesso, virou o galã queridinho da América, se envolveu com um sem número de mulheres em festas loucas, usou todas as drogas possíveis, foi preso e condenado algumas vezes, e escreveu músicas que conseguiram juntar Sóflocles, jazz e LSD. Tudo isso antes dos 25 anos. Aos 26 anos, largou tudo e foi morar em Paris para escrever poesia. Aos 27 anos, em 1971, foi encontrado morto na banheira de seu apartamento. Apenas sua namorada, um amigo e alguns médicos viram o corpo. Não houve necropsia. A causa da morte não foi detectada. A notícia só chegou aos EUA depois que ele já estava enterrado. Por tudo isso, paira sobre ele lenda semelhante à de Elvis. Jim não morreu. Ele teria forjado a própria morte e fugido, como fez Rimbaud ao trocar os poemas pelo tráfico de armas no Marrocos. Segundo amigos, Jim sempre dizia que queria ser Rimbaud, pelos textos e pela fuga.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Os engenhosos fidalgos da Espanha

A seleção espanhola de futebol sempre foi uma espécie de Dom Quixote de la Mancha. Sonhou travar históricas batalhas em busca da conquista do reino da Copa do Mundo, mas sempre deparava com a realidade de ser um simples cavaleiro que nem passava perto dos feitos heróicos. Nesta Copa, a Espanha decidiu não ser mais Quixote. Vestiu a mítica aura do toureiro e foi para o combate, como na ilustração "El Picador", de Pablo Picasso (acima). Baseou seu futebol no domínio do inimigo e no golpe certeiro. Tocou a bola de um lado para o outro, determinou o ritmo do jogo, chamou o adversário para o baile e esperou o momento certo onde a presa, sem fôlego, sucumbiria frente ao impávido e elegante algoz. Parabéns, Espanha!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Brasil e a Laranja Mecânica



Numa Londres de um futuro indeterminado, Alex DeLarge se diverte com seus amigos bebendo leite, ouvindo Beethoven e praticando atos de ultraviolência. Após cometer assaltos, espancamentos, estupros e assassinato, Alex é preso e submetido ao tratamento Ludovico, uma lavagem cerebral que causa aversão aos crimes praticados. Com isso, Alex se torna plenamente passivo, incapaz de agredir alguém mesmo que em legítima defesa. Também perde o desejo sexual e o gosto por Beethoven. Mas, após uma tentativa de suicídio induzida por uma de suas antigas vítimas, Alex volta ao normal. Pois é. O Brasil foi como Alex. Começou o jogo de maneira avassaladora. Marcou um belo gol aos 10 minutos e conduziu o jogo como se ouvisse uma bela sinfonia. Mas no segundo tempo, eis que veio a lavagam cerebral. O time que antes agredia o adversário de maneira impiedosa passou a apanhar passivamente. E a vítima levou o ex-agressor ao suicídio. Infelizmente o choque pelo ataque não fez o Brasil despertar da inércia. Restou aplaudir a Laranja Mecânica

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Os fósseis high-tech de Calatrava

O arquiteto espanhol Santiago Calatrava é conhecido por suas obras que mais parecem esqueletos. Agora o Rio de Janeiro abrigará um desses "ciber-fósseis". Na segunda-feira, 21 de junho, foram divulgadas as primeiras imagens do Museu do Amanhã, que será instalado no Píer Mauá, zona portuária da cidade. O edifício de 12,5 mil m² teve como inspiração as folhas de árvores tropicais, e tem como principal característica enormes coletores solares móveis na fachada. Abaixo o video oficial divulgado pelo escritório de Calatrava.

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